Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Maduro põe tropas nas ruas para acabar com pilhagens e tumultos

Venezuela continua a sofrer com a escassez de bens básicos, como comida e medicamentos

GEORGE CASTELLANOS

Nos últimos dias, pelo menos três pessoas, incluindo dois adolescentes, foram mortos na região de Táchira, na fronteira com a Colômbia, fazendo subir para 43 o número oficial de vítimas desde que os protestos contra o governo estalaram no final de março

O governo da Venezuela anunciou o destacamento de 2600 soldados e agentes da polícia para a região de Táchira, no oeste do país, para travar as pilhagens e os motins, numa altura em que os manifestantes anti-governo continuam mobilizados nas ruas de várias cidades.

Na capital do estado, San Cristóbal, a maioria das lojas e negócios já estão encerrados e a serem guardados por soldados. Na última semana, pelo menos três pessoas, incluindo dois adolescentes, perderam a vida em Táchira. Desde o início dos protestos contra Nicolás Maduro no final de março, pelo menos 43 pessoas já morreram em várias partes do país na sequência de confrontos com as autoridades.

O Presidente continua a acusar a oposição de incitar à violência com as convocatórias de protestos diários; esta, por sua vez, acusa Maduro de estar a violar o Estado de Direito e os princípios fundamentais da democracia para não ter de abandonar o poder.

Ontem à noite, num discurso transmitido na televisão estatal, o ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, anunciou que ordenou "a transferência de dois mil guardas e de 600 tropas de operações especiais" para Táchira, um dos atuais epicentros das manifestações antigovernamentais. O ministro explicou que o destacamento das forças de segurança está integrado no "Plano Zamora", um plano de ação delineado pelo governo para acabar com os protestos, cujos detalhes ainda não foram revelados.

Perante a escassez dos bens mais básicos, como comida e medicamentos, em todo o país, San Cristóbal continua a ser palco de pilhagens. De acordo com residentes locais à Reuters, nos últimos dias os habitantes da capital de Táchira invadiram inúmeras lojas para levarem para casa café, fraldas para bebés e óleo alimentar.

Ontem, José Francisco Guerrero, um rapaz de 15 anos, morreu no hospital um dia depois de ter sido baleado durante um desses episódios. "Ontem [terça-feira] a minha mãe mandou o meu irmão comprar farinha para o jantar e, pouco depois, recebemos uma chamada a dizer que ele tinha sofrido ferimentos de bala", relatou a sua irmã, Maria Contreras, à mesma agência. Antes de Guerrero sucumbir aos ferimentos, as autoridades tinham confirmado as mortes de Luis Alviarez, 17 anos, e de Diego Hérnandez, 33, depois de terem sido baleados na segunda-feira.

No dia seguinte, Maduro anunciou a extensão do estado de emergência económica por mais 60 dias a contar do próximo sábado. Sob esta medida, o Presidente tem poderes alargados, incluindo o de impôr medidas de segurança mais duras para controlar os manifestantes. O principal líder da oposição, Henrique Capriles, acusou o governo de mais abuso de poder e voltou a pedir aos venezuelanos que saiam à rua para protestarem "mais do que nunca".

As manifestações que continuam a dominar a Venezuela estalaram depois de o Supremo Tribunal ter anunciado a 29 de março que ia assumir poderes até então exclusivos da Assembleia Nacional. A decisão foi revertida três dias depois, o que não amainou a revolta de parte da sociedade e dos partidos da oposição.

Em parte por causa da queda dos preços do petróleo, e considerando que a Venezuela tem as maiores reservas de crude do mundo, o país continua a sofrer com a escassez dos bens mais básicos e regista atualmente uma taxa de inflação estrondosa, que o Fundo Monetário Internacional (FMI) antecipa que vai atingir os 700% do PIB até ao final do ano fiscal corrente.

A oposição continua a exigir eleições antecipadas e a libertação imediata de todos os políticos da oposição detidos nos últimos anos, acusando o governo de Maduro e o do seu antecessor, Hugo Chávez, de má gestão económica desde que o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) chegou ao poder em 1999.

Maduro, pelo contrário, acusa a elite empresarial e os partidos da oposição de estarem a boicotar a economia em conluio com os Estados Unidos para deporem um governo democraticamente eleito. Sem eleições antecipadas, a próxima ida às urnas está prevista para depois de janeiro de 2019, quando acaba o atual mandato de Maduro.