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Equipa de Trump sabia que Flynn estava sob investigação quando foi contratado

O general Flynn foi afastado da administração Trump em fevereiro

Mario Tama

General na reforma foi escolhido para chefiar o Conselho de Segurança Nacional da Casa Branca apesar de ter trabalhado secretamente como lobista para a Turquia durante a campanha presidencial

Semanas antes da tomada de posse de Donald Trump a 20 de janeiro, Michael Flynn avisou a equipa de transição do Presidente eleito de que estava sob investigação federal por ter trabalhado secretamente como lobista para a Turquia durante a campanha para as presidenciais de novembro.

A mais recente revelação, que põe em xeque a reputação do Presidente e da sua equipa, foi avançada ao "New York Times" por duas fontes familiarizadas com o caso, horas depois de o Departamento de Justiça ter anunciado que a investigação do FBI ao alegado conluio entre membros da equipa de Trump e o governo russo vai contar com um novo conselheiro especial — o antigo diretor do FBI, Robert S. Mueller.

A nomeação de Mueller, justificada pelo vice-secretário de Justiça, Rod Rosenstein, com as "circunstâncias únicas" deste caso e o facto de "o interesse público exigir que se coloque a investigação sob a autoridade de alguém independente da hierarquia normal" da agência federal — surge uma semana depois de Trump ter despedido James B. Comey, até então diretor do FBI, dias depois de este ter pedido mais fundos e pessoal àquele departamento para acelerar o inquérito.

Ontem à noite, a fechar uma semana de revelações explosivas que vieram abalar ainda mais a administração Trump, o NYT avançou que, "apesar do aviso" de Flynn à equipa do Presidente, "feito um mês depois de o Departamento de Justiça ter notificado Flynn sobre a investigação", Trump nomeou o general na reforma chefe do Conselho de Segurança Nacional (CSN) da Casa Branca. O posto deu a Flynn acesso ao Presidente e a quase todos os segredos da espionagem americana.

As duas fontes citadas falam em pelo menos dois avisos anteriores à contratação: a 4 de janeiro, Flynn alertou o advogado da equipa de transição de Trump, Donald F. McGahn II (que integra o atual círculo de conselheiros do Presidente), sobre a investigação que o tem como alvo e que foi inaugurada em dezembro; dois dias depois, o advogado do general repetiu esse mesmo aviso aos advogados de transição. "Isto mostra que a equipa de Trump sabia da investigação a Flynn bem antes do que tinha sido noticiado anteriormente", sublinha o diário nova-iorquino.

Flynn foi forçado a demitir-se ao 25.º dia do novo governo após ter sido revelado que manteve contactos ilegais com o embaixador da Rússia em Washington em dezembro — a administração não o despediu de imediato e, quando Trump eventualmente o obrigou a entregar a carta de resignação ao cargo, alegou que foi por este ter mentido ao vice-presidente, Mike Pence, sobre o conteúdo das conversas com o embaixador russo em Washington, Sergei Kislyak.

A antiga procuradora-geral Sally Yates à chegada à subcomissão judicial do Senado na semana passada

A antiga procuradora-geral Sally Yates à chegada à subcomissão judicial do Senado na semana passada

getty

Na semana passada, Sally Yates, ex-procuradora-geral interina que Trump despediu uma semana depois de ter chegado à Casa Branca, revelou que, dias antes da tomada de posse, ela própria foi avisou a equipa de Trump sobre as vulnerabilidades de Flynn face a Moscovo. No depoimento ao Senado, Yates revelou ainda que, dois dias depois de ter feito esse alerta, Flynn participou numa teleconferência entre Trump e Vladimir Putin.

Depois do afastamento de Flynn, Trump exerceu pressões sobre Comey para que abandonasse a investigação ao conselheiro, um ato que muitos especialistas de Direito dizem ser suficiente para justificar a abertura de uma investigação ao Presidente por obstrução à Justiça. A Casa Branca ainda não comentou a mais recente notícia do NYT, que vem reforçar a ideia de que o governo sabia dos problemas legais de Flynn antes de o contratar para o CSN contra todos os avisos e alertas que recebeu.

Flynn é um de vários membros da equipa do atual Presidente que estão sob escrutínio por causa de ligações financeiras a governos estrangeiros e por causa de contactos com operativos russos durante a campanha. O governo de Vladimir Putin é suspeito de ter orquestrado uma campanha de ciberataques e "notícias falsas" antes da ida às urnas nos EUA para influenciar o resultado eleitoral; a equipa de Trump é suspeita de ter trabalhado com Moscovo nesse sentido.

Recentemente — já depois de o procurador-geral, Jeff Sessions, ter sido forçado a afastar-se das investigações à Rússia por causa de contactos mantidos com o embaixador Sergei Kislyak — o número dois do Departamento de Justiça, Andrew McCabe, confirmou que está em curso uma investigação "muito importante" às suspeitas de conluio entre a equipa de Trump e os russos para influenciar as eleições.