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Eleições no Irão: “Podemos achar que não avançámos, mas pelo menos temos a certeza de que não andámos para trás”

Mahboobeh Davoodifar, 26 anos, trabalha no gabinete de Relações Internacionais numa faculdade em Teerão, capital do Irão

Esta sexta-feira, milhões de iranianos vão às urnas para escolher o próximo Presidente do país. Trata-se das primeiras eleições desde que foi alcançado o histórico acordo nuclear, o que faz deste sufrágio um teste à popularidade do Presidente Hassan Rouhani. Irá ele sobreviver?

Helena Bento

Jornalista

“Podes destruir um edifício em poucos minutos, mas para reconstruí-lo é preciso tempo”, diz Mahboobeh Davoodifar, iraniana de 26 anos. Este edifício de que ela fala não é um bem um edifício, não é de todo um edifício, é um país, o Irão, que foi “destruído” pelo antigo presidente Mahmoud Ahmadinejad, que governou entre 2005 e 2013. “Os problemas económicos começaram quando Ahmadinejad começou a dar subsídios que fizeram aumentar a inflação” (quando o político iraniano deixou o poder a inflação estava nos 40%). É Hassan Rouhani, o presidente que governou nos últimos quatro anos e espera agora ser eleito para um segundo mandato, que está a “reconstruir” o país. Mas essa reconstrução não se faz do dia para a noite. É preciso tempo. E tempo é o que alguns iranianos parecem não ter.

Eleições são um teste a Rouhani

As sondagens - que especialmente no Irão, mas também noutros países, como se tem visto, não são de fiar - dão uma vitória a Rouhani, o candidato “moderado” apoiado pelos reformistas. Em segundo lugar, aparece o clérigo conservador Ebrahim Raisi. Há mais dois candidatos - Mostafa Hashemitaba, do lado dos reformistas, e o conservador Mostafa Agha Mirsalim - mas nenhum deles parece ter muitas hipóteses de vencer as eleições. Até há menos de uma semana, Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente da câmara de Teerão, e Eshagh Jahangiri também estavam na corrida - chegaram inclusive a participar nos três debates eleitorais que se realizaram - mas optaram por desistir para apoiar os candidatos mais bem colocados do bloco reformista e do bloco conservador, respetivamente.

Hassan Rouhani espera conseguir ser eleito para um segundo mandato nas eleições desta sexta-feira.

Hassan Rouhani espera conseguir ser eleito para um segundo mandato nas eleições desta sexta-feira.

Handout/Getty Images

Trata-se das primeiras eleições desde foi alcançado o histórico acordo nuclear com o P5+1 (China, França, Rússia, Reino Unido, EUA + Alemanha), que determinou a suspensão de grande parte das atividades nucleares do país em troca do fim das sanções económicas aplicadas pela comunidade internacional, o que faz deste sufrágio um teste à popularidade de Rouhani. Um estudo divulgado em abril, realizado pela empresa IranPoll, com sede em Toronto, no Canadá, mostra que embora a maioria dos inquiridos tenha uma opinião favorável sobre Rouhani, mais de 70% não considera que a situação económica da população tenha melhorado com a assinatura do acordo (apenas 7% responderam que melhorou). Mais de 40% responderam que é “de alguma forma provável” que ele perca as eleições e 14% consideram que a sua derrota é “muito provável”.

Hassan conseguiu recuperar uma economia “que estava destruída e em ruínas”

Afshin Zangeneh, que trabalha numa empresa siderúrgica em Isfahan, na área da comunicação, não acredita que Rouhani perca as eleições. O seu voto, pelo menos, terá. “Tenho a certeza de que ele irá vencer, porque a sua grande preocupação é que os iranianos tenham uma boa vida e sejam respeitados no mundo. É um grande homem, com características muito especiais. Uma delas é não fazer falsas promessas só para obter votos”. Além disso, “tem uma forte estrutura por detrás que o pode orientar no bom caminho”. Tal como Mahboobeh Davoodifar, Afshin reconhece no Presidente o feito de ter recuperado uma economia “que estava destruída e em ruínas”. “Conseguiu fazer descer a inflação e a sua grande conquista foi ter assinado um acordo que tem sido muito importante para nós, iranianos - a economia cresceu, há mais investimento estrangeiro e as exportações aumentaram. No futuro, também o desemprego irá descer”.

O tema do desemprego foi precisamente um dos mais abordados durante a campanha eleitoral. Os conservadores radicais souberam explorar, com relativa perícia, este que é, se quisermos, o calcanhar de Aquiles de Rouhani, que durante o seu mandato não conseguiu fazer descer uma taxa que há quatro anos se mantém nos 12%. Mais grave é a situação dos jovens, camada em que a taxa de desemprego atinge os 30%.

No primeiro dos três debates eleitorais que se realizaram nas últimas semanas, e em que participaram todos os candidatos, Mohammad Bagher Ghalibaf acusou Hassan Rouhani de não ter conseguido criar os mais quatro milhões de empregos que alegadamente prometeu antes de ser eleito. Confrontado com a acusação, Rouhani negou de imediato ter feito essa promessa, mas isso de pouco valeu. A mensagem já tinha sido passada. Foi assim no debate e foi assim durante toda a campanha eleitoral, em que “os radicais, que perseguem uma agenda populista e prometem grandes benefícios do Estado e mais apoio social, tentaram atrair o voto das classes mais baixas ao acusar Rouhani de ter falhado para com os trabalhadores”, diz o analista político iraniano Saeed Barzin, em entrevista ao Expresso.

Ebrahim Raisi - “o candidato dos pobres”

Foi também para atrair esses votos que Ebrahim Raisi decidiu apresentar-se nestas eleições - para as quais foi escolhido pela Frente Popular das Forças da Revolução Islâmica, uma organização política criada após a derrota dos conservadores nas eleições anteriores - como “ o candidato dos pobres”. Um título que é, de resto, pouco credível para quem conhece o seu percurso de vida. Raisi, 56 anos, é presidente daquela que aparece muitas vezes descrita “como a mais rica instituição de caridade do mundo muçulmano”, a Astan Quds Ravazi. No verão de 1988, foi um dos juízes que esteve por detrás da execução em massa de presos políticos, considerado um dos acontecimentos mais trágicos da história da República Islâmica.

Ebrahim Raisi é muito próximo do Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei.

Ebrahim Raisi é muito próximo do Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei.

ATTA KENARE/GETTY IMAGES

Ao longo dos últimos anos, Ebrahim Raisi desempenhou vários cargos na área da justiça. Foi procurador-geral, vice-presidente do Supremo Tribunal de Justiça e procurador-adjunto de Teerão. Aliado do Líder Supremo, o ayatollah Ali Khamenei, tem sido apontado como o seu sucessor. Uma vitória nestas eleições ajudá-lo-ia a chegar a líder máximo do país, contando, claro, que são essas as suas ambições. Uma derrota para Hassan Rouhani, pelo contrário, afastá-lo-á um pouco desse caminho. De acordo com as regras do sistema eleitoral iraniano, vence o candidato que obtiver maioria absoluta. Se nenhum conseguir ultrapassar a fasquia dos 50%, haverá uma segunda volta (primeira sexta-feira após serem conhecidos os resultados) disputada pelos dois candidatos mais votados no primeira ida às urnas.

Votar? Para quê?

Para Meysam Khalili, um jovem de 28 anos responsável por uma residência para estudantes universitários em Teerão, a questão mais premente, neste momento, é mesmo “convencer as pessoas a ir às urnas”. Num país em que o Líder Supremo tem a última palavra sobre quase todos os assuntos, muitas pessoas sentem que não vale a pena sequer ir votar. Além disso, todos os candidatos foram avaliados e selecionados - segundo critérios que muitos consideram questionáveis - pelo Conselho dos Guardiães, o principal órgão legislativo do Irão, composto por 12 membros (seis clérigos e seis juristas, escolhidos pelo Líder Supremo), responsável por supervisionar as eleições.

Meysam Khalili, responsável por uma residência para estudantes universitários em Teerão, capital do país.

Meysam Khalili, responsável por uma residência para estudantes universitários em Teerão, capital do país.

Ana Mota, uma portuguesa a viver no Irão há cinco meses, conhece vários iranianos que pensam precisamente daquela forma: “Tenho vários amigos aqui que não querem saber das eleições. Não veem debates e não vão votar. São pessoas que já não acreditam que o Irão possa mudar. Muitos deles não gostam sequer de ser iranianos e querem sair daqui”. A jovem de 31 anos, que partiu para o Irão com uma bolsa financiada pela União Europeia para fazer investigação no departamento de psiquiatria da Tehran University of Medical Sciences, diz mesmo que sente “que os iranianos desvalorizam bastante a riqueza do seu país e a sua cultura, provavelmente por causa de todas as limitações que lhes são impostas”. “Muitos deles nem sequer compreendem como é que há pessoas, como eu, que gostam de estar aqui”. Ana gosta tanto do Irão que tenciona prolongar a sua estadia no país. “Viver aqui é um desafio enorme. Há sempre imprevistos, tudo demora imenso tempo. As burocracias não acabam. Por outro lado, é quase como estar numa Disneylândia. É tudo super divertido e emocionante. É uma experiência única.”

Ana Isabel Mota, portuguesa, vive no Irão há cinco meses, onde se encontra a fazer investigação com uma bolsa atribuída pela União Europeia

Ana Isabel Mota, portuguesa, vive no Irão há cinco meses, onde se encontra a fazer investigação com uma bolsa atribuída pela União Europeia

A investigadora reconhece, contudo, que “a vida no Irão é mais fácil para estrangeiros do que para iranianos e muito mais fácil para os homens do que para as mulheres”. Enquanto investigadora na área da psicologia, diz conhecer muitos casos de mulheres com “desequilíbrios emocionais” que, na sua opinião, “resultam seguramente do facto de viverem numa sociedade com regras tão apertadas, em que a política se mistura tanto com a religião”. “Para os iranianos que não são crentes” - e no seu grupo de amigos esses representam a maioria - “é difícil aceitar todas estas regras, a começar no uso do hijab”.

Um país “mais livre”

O Irão que vai a eleições na sexta-feira é um país dividido. Dividido entre aqueles que confiam no trabalho de Hassan Rouhani - ainda que os frutos ou uma parte deles não esteja ainda à vista - e aqueles que não só o culpam por ter assinado um acordo “que nenhuns benefícios económicos trouxe ao país”, como estão dispostos a penalizá-lo por isso.

É também, acrescenta Meysam Khalili, um país “mais livre”. O jovem de 28 anos acredita, por isso, que os iranianos vão saber reconhecer isso no momento de votar. “Acho que Rouhani vai ser reeleito”. Mahboobeh Davoodifar, a iraniana que citávamos no início do texto, tem a mesma opinião. O Irão é hoje não só um país “mais livre”, como também “mais aberto”. “São cada vez mais os turistas que conseguem vistos para viajar para o país, assim como há também cada vez mais estudantes internacionais a estudar nas nossas faculdades e mais empresas a investir no país ou a mostrar interesse em fazer aqui negócios”, aponta a jovem, que diz estar disposta a dar “tempo” a Rouhani. “Podemos achar que não avançámos, mas pelo menos temos a certeza de que não andámos para trás”.