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Internacional

Coreia do Sul quer reavivar comunicações diretas com Pyongyang

Moon Jae-in (esq) tomou posse a 10 de maio

Pool

Novo Presidente sul-coreano anunciou que está a analisar a possibilidade de reabrir todas as linhas de comunicação com o vizinho da península, numa altura em que o Conselho de Segurança da ONU se prepara para aprovar novas sanções ao regime de Kim Jong-un

O recém-empossado Presidente da Coreia do Sul declarou esta manhã que quer restabelecer os contactos diretos com a Coreia do Norte, num momento em que o Conselho de Segurança das Nações Unidas se prepara para aprovar novas sanções ao regime de Kim Jong-un por causa dos seus programas nuclear e de mísseis.

Tecnicamente, os dois países da península coreana ainda estão em guerra, depois de o conflito que decorreu entre 1950 e 1953 ter sido suspenso com um armistício, nunca enterrado com um tratado de paz. Antes de Moon Jae-in ter tomado posse a 10 de maio, depois de vencer as eleições presidenciais do dia anterior na sequência da destituição de Park Geun-hye, o anterior governo conservador estava alinhado com o Ocidente nas pressões a Pyongyang e no isolamento do hermético regime.

No domingo, quatro dias depois de Moon ter assumido o poder, o regime de Kim Jong-un lançou um novo míssil balístico que caiu perto da costa do Japão e da costa da Rússia, desafiando as resoluções que o Conselho de Segurança tem aprovado contra o país desde o seu primeiro teste nuclear em 2006. No rescaldo do lançamento, as autoridades norte-coreanas anunciaram que o teste envolveu um "novo míssil balístico" com capacidades para transportar "uma ogiva nuclear de grandes proporções".

Agora, Moon deu a entender pela primeira vez desde que venceu as eleições que está empenhado em reavivar as comunicações com a Coreia do Norte para exercer pressão em duas frentes. "A nossa posição mais básica é a de que as linhas de comunicação entre a Coreia do Sul e a do Norte devem estar abertas", declarou esta manhã Lee Duk-haeng, porta-voz do Ministério da Unificação. O ministério, acrescentou, "está a considerar todas as opções internamente mas ainda não tomou nenhuma decisão".

Na conversa com os jornalistas em Seul, Lee explicou que as comunicações com o Norte foram suspensas no ano passado, na sequência das sanções aprovadas pelos membros do Conselho de Segurança no rescaldo do último teste nuclear executado por Pyongyang, ao qual se seguiu o encerramento de uma zona industrial conjunta operada no território norte-coreano.

Logo a seguir, o próprio Presidente assumiu que existe uma "elevada possibilidade" de um conflito militar estalar na região por causa dos programas de armamento de Pyongyang. "A realidade é que existe uma elevada possibilidade de um conflito militar na Linha de Limite Norte (LLN) e na zona de demarcação militar" na fronteira entre as duas Coreias, declarou Moon no palácio presidencial.

Citado pela correspondente da Reuters, o líder sul-coreano também admitiu que as capacidades nucleares e de mísseis do Norte parecem ter avançado rapidamente nos últimos tempos, mas sublinhou que Seul tem capacidades para contra-atacar caso Pyongyang lance ataques contra o vizinho.

Soldado sul-coreano na ilha de Baengnyeong, perto da Linha de Limite Norte

Soldado sul-coreano na ilha de Baengnyeong, perto da Linha de Limite Norte

Chung Sung-Jun

Para já, Pyongyang ainda não reagiu oficialmente à sugestão de Seul sobre a reabertura dos canais de comunicação. Andrew Thomas, correspondente da Al-Jazeera na capital sul-coreana, diz que o comunicado de Lee se refere efetivamente à linha de contactos telefónicos diretos entre as duas Coreias que foi suspensa há mais de um ano. "Existe uma sala no lado sul-coreano da fronteira e uma sala no lado norte-coreano da fronteira e uma linha física a ligar os dois que existe desde os anos 1970, e que é usada para trocar mensagens urgentes. Contudo, o Norte não atende as chamadas desde fevereiro de 2016 –essa linha tem estado efetivamente obsoleta."

Segundo Thomas, o anúncio de Sul parece indicar um "suavizar da posição" da Coreia do Sul em comparação com a retórica que reina na sede da ONU, em Nova Iorque, onde o Conselho de Segurança continua a aprovar sanções atrás de sanções e resoluções atrás de resoluções contra um país cada vez mais isolado. Essa posição do Conselho "é muito diferente do diálogo ou das conversações ou do que quer que vá acontecer através daquela linha". No fundo, o anúncio de Seul "é um sinal de que o novo governo da Coreia do Sul está a adotar uma posição mais reconciliatória em relação ao Norte, apesar do teste [de míssil] no domingo e da discussão de sanções a ser promovida por Washington na ONU."

Esta terça-feira, a administração norte-americana disse acreditar que vai conseguir persuadir a China a aprovar novas sanções à Coreia do Norte e deixou avisos de que vai "denunciar" os países que apoiam Pyongyang. Em conversa com os jornalistas antes de uma reunião do Conselho de Segurança, a embaixadora da administração Trump na ONU, Nikki Haley, disse que os EUA só vão dialogar com a Coreia do Norte quando o país suspender o seu programa nuclear.

A alteração de posoção da Coreia do Sul, depois de Moon ter feito campanha pela reaproximação ao Norte, ainda não foi comentada oficialmente pelos Estados Unidos. Esta manhã, o magnata de media Hong Seok-hyun chegou a Washington como enviado do novo governo sul-coreano aos EUA; antes de partir, disse que vai discutir a situação na península coreana com altos cargos da hierarquia norte-americana e explicou que o governo de Moon ainda não recebeu informações da administração Trump sobre se vai ter de dispender dinheiro para financiar o controverso escudo antimísseis que os EUA instalaram nos arredores de Seul.

No mês passado, Donald Trump disse que queria pôr os sul-coreanos a pagarem pelo sistema de defesa THAAD, que no domingo detetou o lançamento do novo míssil balístico norte-coreano. A China opõe-se firmemente a este escudo, receando que venha a ser usado pelos EUA como ferramenta de espionagem, e tem estado a suspender negócios com empresas sul-coreanas como reação ao passo.