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Internacional

Congressista republicano exige acesso a todos os registos de reuniões entre Trump e ex-diretor do FBI

Jason Chaffetz, atual líder da comissão de supervisão da Câmara dos Representantes

Win McNamee

Líder da comissão de supervisão da Câmara dos Representantes diz que a análise aos “memorandos, notas, sumários e gravações” do FBI sobre as discussões do ex-diretor James Comey com o Presidente vai permitir perceber se Trump “tentou influenciar ou impedir” inquérito sobre ligações à Rússia

Uma semana depois de Donald Trump ter despedido o diretor do FBI, foi esta terça-feira revelado que, em fevereiro, o Presidente norte-americano pressionou James Comey para que suspendesse a investigação federal a Michael T. Flynn, o ex-chefe do Conselho de Segurança Nacional (CSN) que se demitiu ao 25.º dia do novo governo por causa de contactos ilegais com o embaixador da Rússia, em Washington.

A informação consta de um memorando que Comey escreveu depois de se encontrar com Trump na Sala Oval, em fevereiro, dias antes de o governo pressionar Flynn a demitir-se sob o argumento de que este enganara o vice-presidente Mike Pence sobre o conteúdo das discussões telefónicas com Sergei Kislyak, em dezembro. "Espero que possa abandonar isto", disse Trump a Comey, de acordo com o documento.

"O registo do pedido de Trump é a mais clara prova de que o Presidente tentou influenciar diretamente a investigação do FBI e do Departamento de Justiça às ligações entre sócios de Trump e a Rússia", referiu o "New York Times" na noite desta terça-feira. Pouco depois, o líder da comissão de supervisão da Câmara dos Representantes, Jason Chaffetz, enviou uma carta ao FBI a exigir acesso a todos os registos de conversas entre o ex-diretor da agência e o Presidente.

Na carta, a que o jornal nova-iorquino teve acesso, o republicano exige que a agência federal entregue àquela comissão do Congresso todos os "memorandos, notas, sumários e gravações" das discussões entre Trump e Comey. A análise a esses documentos, argumenta Chaffetz na missiva, vai permitir apurar "se o Presidente tentou influenciar ou impedir" o trabalho do FBI.

Comey recusou-se a falar ao Senado à porta fechada, diz que só está disponível a prestar depoimentos numa sessão pública

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Eric Thayer

A existência do memorando foi partilhada pelo próprio Comey com funcionários do FBI e colegas mais próximos, que por sua vez deram a dica ao "New York Times". Por ter estatuto de confidencialidade, o jornal não pôde consultar uma cópia do documento, mas uma das fontes próximas de Comey leu partes do texto integral a um jornalista do diário.

"Espero que consiga abandonar isto, que deixe Flynn ir", disse Trump ao então diretor do FBI, de acordo com essa nota. "Ele é um bom tipo. Espero que possa abandonar isto." O Presidente terá ainda dito que Flynn não fez nada de mal; Comey não respondeu aos pedidos de suspensão do inquérito, dizendo apenas: "Concordo que ele é um bom tipo."

Em comunicado desta terça-feira à noite, a Casa Branca desmente os acontecimentos relatados por Comey. "Embora o Presidente tenha expressado repetidamente a sua opinião de que o general Flynn é um homem decente que serviu e protegeu o nosso país, o Presidente nunca pediu ao sr. Comey, nem a mais ninguém, que pusessem fim a qualquer investigação", garante o governo no comunicado sem assinatura. "O Presidente tem o máximo respeito pelas nossas agências de aplicação da lei e por todas as investigações. Este não é um retrato verdadeiro ou correto da conversa entre o Presidente e o sr. Comey."

Na carta enviada a Andrew G. McCabe, diretor interino do FBI, Chaffetz impõe 24 de maio como o prazo para que os documentos internos da agência relativos aos encontros de Trump e Comey sejam entregues à comissão que lidera na câmara baixa do Congresso.

McCabe assumiu a liderança interina do FBI após Comey ter sido despedido

McCabe assumiu a liderança interina do FBI após Comey ter sido despedido

Alex Wong

O "New York Times" sublinha que a posição do congressista republicano é um volte-face relativamente à forma como se comportou durante os primeiros meses da nova administração. Em tempos criticado por ser brando com o atual Presidente, depois de ter passado meses investido em conseguir que Hillary Clinton fosse investigada por ter usado um servidor privado para trocar emails oficiais enquanto secretária de Estado, em abril Chaffetz anunciou que não vai recandidatar-se ao seu lugar na Câmara dos Representantes nas intercalares de 2018 e, desde então, tem demonstrado mais interesse no inquérito à Rússia.

A carta que enviou ao FBI esta terça-feira representa um dos mais agressivos passos do Partido Republicano em relação ao Presidente que os conservadores ajudaram a eleger e que, até agora, têm tentado manter-se afastados das suspeitas e escândalos que envolvem a atual administração. A missiva é dirigia a McCabe, que na semana passada, em depoimentos ao Senado, garantiu que "não houve qualquer esforço para impedir a nossa investigação até agora" (em referência à investigação em curso sobre o potencial conluio entre a equipa de campanha de Trump e o governo de Vladimir Putin e não à investigação a Michael Flynn, que é um inquérito distinto).

De acordo com duas fontes do FBI, enquanto diretor da agência Comey criou inúmeros memorandos semelhantes ao que foi revelado esta terça-feira, incluindo alguns que são confidenciais, sobre todos os telefonemas e encontros que manteve com o Presidente. É provável que Trump soubesse disso quando, no final da semana passada, pareceu fazer uma ameaça velada ao homem que acabara de despedir: "James Comey bem pode torcer para que não haja 'cassetes' das nossas conversas antes de ele começar a passar informações aos jornalistas!”

Para já, não se sabe se Comey informou o Departamento de Justiça sobre a conversa em causa ou sobre os memorandos que foi produzindo nos últimos meses. Pelo contrário, sabe-se que dias antes de ter sido despedido por Trump, o ainda diretor do FBI tinha acabado de pedir àquele departamento que alocasse mais fundos e pessoal para acelerar a investigação Trump-Rússia.