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Berta Palou: “Esta crise não é de migrantes, é uma crise humanitária. E não são refugiados porque não estão refugiados em lado nenhum”

Berta Palou: “Toda a minha trajetória tem uma dimensão pedagógica”

alberto frias

A história é essencial para explicar o presente, defende a académica catalã especialista em migrações. Mas há que olhar para a história com sentido de realidade, rever os currículos escolares e atualizar os conceitos. “Se se explica, percebe-se e interioriza-se”, defende Berta Palou

Cristina Peres

Cristina Peres

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Jornalista de Internacional

Alberto Frias

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Fotojornalista

“Temos consciência de sermos europeus, mas não temos sentimento de sermos europeus”, diz Berta Palou ao Expresso, referindo a sua ideia sobre a relação de Espanha com a União Europeia. Esta catalã de gema e professora da Facultad de Educación representou Espanha na conferência “Migrações”, que juntou em Lisboa dois países europeus - Portugal e Espanha - e dois da América Latina - Paraguai e Uruguai - para analisarem os movimentos migratórios dos quatro países nos dois sentidos do oceano a partir de 1850. A conferência decorreu no âmbito da Capital Ibero-americana de Cultura, que tem marcada (24 de maio, São Luiz Teatro Municipal) uma outra intitulada “Racismo e Cidadania”, que está inserida na exposição do mesmo nome instalada no Padrão dos Descobrimentos.

O que é que nós conseguimos aprender com a História? E o que é que não conseguimos aprender com a História?
Acho que não podemos explicar o presente sem uma revisão histórica. Do meu ponto de vista, qualquer processo migratório atual tem a sua origem nalgum facto histórico concreto. A situação atual vem da era moderna.

Um elemento constante da sua biografia é um trabalho de ligação às comunidades, intervenção socioeducativa com jovens... Como está a escola em Espanha?
Trabalho atualmente na Facultad de Educación e toda a minha trajetória tem uma proposta pedagógica. Qualquer tipo de análise da realidade tem de ter uma aplicação prática, com boas práticas. Hoje em dia nas escolas públicas em Espanha - há uma diversidade muito grande de tipos de ensino nas várias regiões - nas escolas da Catalunha explica-se muito bem o processo das migrações, já é difícil encontrar um manual que fale da descoberta da América. Era nasci na época de transição, em 1975, estudei numa época-pós franquista e estudei a descoberta da América, mas agora já não é assim que se fala dos processos migratórios.

alberto frias

Ainda se fala facilmente em “raça”, por exemplo. Seria interessante que houvesse uma “hora zero” para certos termos. Nesta conferência estão presentes pessoas de dois países europeus ex-colonialistas e outras duas de duas ex-colónias. A forma como a história é contada dos dois lados do Atlântico ainda é muito diferente?
Creio que cada vez menos, ainda que dependa do posicionamento político de cada um. Por exemplo, o meu marido é argentino e temos os dois a mesma visão do processo colonialista, apesar de ele ter estudado na época militar na Argentina e eu na pós-franquista em Espanha. Ambos fizemos depois a nossa construção revista e crítica da história. Não há tanta diferença hoje da perceção do processo entre os dois lados do Atlântico como no passado, mas depende também das aceções dos conceitos implicados nas migrações. Na nossa universidade, por exemplo, nunca falamos de imigrantes, mas de pessoas de origem imigrante, porque as palavras têm peso e induzem práticas. Creio que vale o esforço de explicar nas escolas e acompanhar o processo formativo - porque é isso que é a educação - do ponto de vista do conhecimento e não da revisão. Não oiço a palavra “raça” nas escolas, já não existe esse conceito em termos culturais, só numa aceção biológica.

Do ponto de vista das suas ex-colónias, Portugal tem uma relação diferente com o Brasil, de que se separou há 200 anos, da que tem com os países africanos, uma descolonização com quatro décadas. Como acontece em Espanha?
Há muitas diferenças, não me atrevo a falar de América Latina porque é um continente com diferenças tão grandes, só uma visão europeia, que é pequena, pode referir assim o resto do mundo. Eu vejo muitas diferenças sociais entre as pessoas segundo a sua origem latino-americana. Uma pessoa que vem da Argentina, do Uruguai, do Brasil, não tem nada a ver com outra que venha da Bolívia, da Venezuela, da Colômbia ou do Peru. Há diferenças de tratamento muito grandes. Não acho que tenha influência o facto de haver diferença temporal na história da descolonização destes países. As diferenças de tratamento dependem da sua origem. Há diferenças muito claras e os imaginários que lhes são atribuídos!

Quer desenvolver?
A minha perspetiva é que as pessoas da Argentina têm estudos superiores. São a maior comunidade latino-americana em Espanha ainda que a maioria esteja nacionalizada. Quer dizer que não se contabilizam como imigrantes, são espanhóis. As pessoas que vêm da Bolívia, do Paraguai, do Equador, têm poucas qualificações e trabalham em limpezas domésticas ou na construção, pelo menos até à crise. É esse o papel social que desempenham. Na minha universidade tenho colegas do Brasil, da Argentina, dos grandes países com economias desenvolvidas, que são potências culturais, mas não tenho colegas do Equador ou da Bolívia. Estas pessoas ocupam um lugar muito estigmatizado na sociedade, é uma imigração sobretudo feminina, fator que também pesa por causa do papel que ocupa a mulher na sociedade. Somam-se dois estigmas.

É de uma zona de Espanha que absorveu ao longo de décadas grande número de imigrantes na construção civil. Existe a ideia deturpada, que explora o medo, de que a recente crise de migrantes e refugiados implica números de pessoas muito mais importantes do que a imigração muito mais numerosa que chega a Espanha de avião vinda da América Latina.
Atualmente, as costas mediterrânicas têm um problema da crise humanitária. Não é uma crise de migrantes, mas uma crise humanitária. E não são refugiados porque não estão refugiados em lado nenhum. São pessoas em busca de refúgio e estão num processo de espera indefinida porque os países europeus não assumem a sua responsabilidade. Em primeiro lugar, Espanha não a assume. Os processos migratórios em Espanha viram um aumento muito grande de entradas clandestinas pela costa do Sul, via Melilla. O que o Partido Popular fez foi elevar a vedação para proteger as fronteiras. Não houve nenhuma reflexão sobre as questões de migração e continua a não haver. Do meu ponto de vista, não há uma responsabilização a nível europeu. Do ponto de vista dos processos migratórios é muito diferente quem chega em condições físicas mais dignas - de avião - para o reagrupamento familiar, do que os que chegam numa “patera” ou debaixo das rodas de um camião, como é o caso de muitos menores indocumentados que vêm do norte de África. A maneira como se chega ao país influencia o modo como se é recebido e acolhido. Controlam-se os fluxos migratórios pelas grandes companhias de transporte porque o Estado fez com elas um protocolo para fazer um levantamento específico, o que resulta nos controlos nos aeroportos de Espanha. Agora os controlos de passaportes de pessoas chegadas de fora do Espaço Schengen demoram duas horas, o que nos diz muito sobre o que é hoje a política migratória em Espanha. Isto serve para amplificar o estigma do lugar de procedência e da cor da pele. Em Espanha não existe a diversidade de colorações e etnias que existe em Portugal.

Como lida Espanha com as várias gerações de migrantes?
A história das migrações em Espanha é muito recente, tem 30 anos. Há muitos países europeus que têm vantagem sobre nós no tratamento da população de origem estrangeira. No nosso caso, existe a mal chamada segunda geração, são miúdos que nasceram aqui e pergunto-me até quando vai durar a estigmatização que já afetava os pais deles? Parece-me surrealista que se fale da quarta geração de argelinos em França! Eu também sou quarta geração de alguma coisa. A nível político, fala-se das segundas gerações, mas não a nível educativo. Na escola, são jovens de procedência estrangeira e a mim parece-me uma mudança de designação muito importante, que caminha para a inclusão educativa real.

Há racismo em Espanha?
Muito! Há muito racismo em Espanha, muito racismo cultural, muito racismo económico e muito racismo laboral. Ainda há pessoas impedidas de aceder a projetos pessoais por causa do seu lugar de origem. Existe um imaginário coletivo de medo do desconhecido, de medo do outro. Há uma hegemonia cultural forte em Espanha de medo de perder o “nosso”, como se existisse “o nosso” e o “dos outros”, “eu” e “o outro”...

Os espanhóis têm uma ideia muito valorizado da sua língua, os chefes de Governo não costumam falar uma palavra de inglês…
Manter a cultura passa pela língua. No meu caso, que sou da Catalunha, somos bilingues de catalão-espanhol, temos uma lei que protege a língua catalã por ser minoritária, apenas falada por cinco milhões de pessoas. Do ponto de vista da língua, Espanha está muito atrasada, os nossos representantes políticos não falam nada senão galego ou espanhol, é uma vergonha. A nível local encontramos outras realidades. No nosso governo catalão há muitas pessoas multilingues com competências linguísticas elevadas. É outra geração e outra representação política.

Do ponto de vista académico, por exemplo, o catalão não tem menos projeção que o espanhol?
Há que pensar na representação social disso, na Catalunha há toda uma realidade social que caminha para a independência de Espanha. Pretende-se fazer um referendo para obter a independência, ainda que esse referendo nunca se vá realizar porque Espanha não o permitirá... mas a Catalunha caminha para lá. Vê-se, por isso, o crescimento do catalão na música, na produção cultural, nas publicações, porque há uma causa social por trás. A limitação linguística limita a prestação internacional do país e não deixa abrir para outras dimensões culturais. Aqui em Portugal há muitos mais competências linguísticas, fala-se inglês. Em Espanha há delegações de turismo onde não se fala inglês! Isso resume o modo como Espanha se projeta internacionalmente. O sentimento de pertença europeia não é promovido em Espanha. Temos consciência de sermos europeus, mas não temos sentimento de sermos europeus. A Europa é a seguir aos Pirinéus!

A questão da língua diz-nos que o preconceito está dentro das fronteiras, com as línguas e as regiões?
Não se aproveita a riqueza cultural da diversidade e vive-se como uma ameaça a perda da hegemonia cultural. Os elementos novos em qualquer cultura só servem para enriquecê-la. Se Espanha fosse mais consciente do seu processo histórico relativo a migrações, dificilmente poderia tratá-las como o faz hoje em dia. É boa a prática educativa que inclui a revisão que explica os processos migratórios de Espanha em direção à Suíça e à Alemanha. Se isso se explica, percebe-se e interioriza-se. É preciso olhar para a história com sentido de realidade.