Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Destituição: o termo que regressou ao léxico americano

getty

O que vai o partido pelo qual Donald Trump foi eleito fazer agora que o Presidente é suspeito de obstrução à Justiça por ter despedido o diretor do FBI? Enquanto o líder prepara uma “grande purga” para “relançar” o governo e abafar o mais recente escândalo que criou, os democratas oleiam as armas políticas e preparam-se para boicotar a nomeação do sucessor de James Comey — enquanto este se prepara para falar publicamente sobre o que aconteceu

Robert Reich não tem dúvidas: “A lei é clara”, referia há alguns dias o professor de História que integrou as administrações de Gerald Ford, Jimmy Carter e Bill Clinton. “Se Trump removeu James Comey [do FBI] para evitar ser investigado, isso é uma ofensa que justifica a sua destituição. A questão já não é se existem motivos para destituir Donald Trump, mas sim se existem republicanos suficientes que ponham a sua lealdade à América à frente da sua lealdade ao partido.”

Allan Lichtman, o especialista que previu corretamente o desfecho de todas as presidenciais americanas desde os anos 1980, defende o mesmo: “Agora ele pode indiscutivelmente ser destituído”, argumentava à “Newsweek” no final da semana passada. “É indiscutível que ele já obstruiu a Justiça e que já violou a cláusula de emolumentos [por continuar a receber prendas de governos estrangeiros]. Não estou a dizer que ele deve ser destituído agora, estou a pedir que seja aberta uma investigação com o potencial de levar à sua destituição.”

É a mesma ideia ecoada por Laurence H. Tribe, constitucionalista de Harvard, num artigo de opinião publicado no “Washington Post” no sábado: “Chegou o momento de o Congresso abrir uma investigação ao Presidente Trump por obstrução à Justiça para se apurar se ele deve ser destituído”.

getty

Há uma semana que chovem comparações entre Donald Trump e Richard Nixon. Não são de agora, já andam a cirandar pelo menos desde novembro, quando o empresário surpreendeu quase todos ao derrotar Hillary Clinton, mas é agora que estão a ganhar real força. E na raiz delas está o despedimento de James Comey, o diretor do FBI que estava a liderar um inquérito à ingerência da Rússia nas eleições americanas — e ao alegado conluio entre o governo de Vladimir Putin e a equipa de Trump com esse ou outros objetivos — e que foi despedido dias depois de ter pedido mais fundos ao Departamento de Justiça para acelerar essa investigação.

Foi sem pré-aviso e sem um plano consequente que Trump decidiu despedir Comey — da mesma forma que, em 1973, Nixon despediu o procurador especial que o Congresso tinha nomeado para investigar o então Presidente por ter ordenado escutas ao complexo democrata de Watergate, um caso que levaria à sua destituição um ano depois. “Durante o Watergate, os republicanos foram heroicos”, lembrava domingo Carl Bernstein, um dos dois jornalistas que denunciaram o escândalo do século. “Foram eles que questionaram ‘o que é que o Presidente sabia e quando é que ele soube disso?’. Estavam dispostos a servir a verdade.” Pelo contrário, mais de 40 anos depois do afastamento de Richard Milhous, “nada semelhante” a isso aconteceu até agora no partido que domina as duas câmaras do Congresso e a Casa Branca.

getty

Ainda nada aconteceu mas muitos dizem que é um desfecho incontornável, sobretudo agora que alguns republicanos de primeira, como os senadores John McCain e Lindsey Graham, estão alinhados com os democratas quanto à urgência de se nomear um procurador especial que fique encarregado da investigação que Comey tinha em mãos antes de ser mandado embora do FBI.

“A remoção do diretor Comey só confirma a necessidade de um [comité] seleto para investigar” as ligações de Trump à Rússia, escreveu McCain no Twitter. “Dadas as recentes controvérsias em torno do diretor [Comey], acredito que começar de novo vai servir os interesses do FBI e da nação”, acrescentou Graham. “Se tivermos um procurador especial, as pessoas vão suspirar de alívio, porque aí haverá de facto uma pessoa realmente independente a supervisionar o diretor do FBI”, referiu domingo Chuck Schumer, líder da minoria democrata no Senado, não sem um piscar de olho aos conservadores: “O ponto-chave aqui, claro, é conseguir que os nossos colegas republicanos se juntem a nós”.

Para já ainda nenhum se juntou, não oficialmente. Mas ao contrário do que tem acontecido, alguns legisladores do partido pelo qual Trump foi eleito já perderam os pudores em demonstrar dúvidas e receios face às recentes ações do Presidente — em particular depois de Trump ter recorrido ao Twitter para ameaçar Comey com alegadas gravações de conversas entre ambos. Um tweet “inapropriado”, referiu Graham, em tempos grande apoiante de Trump. “Se estas gravações existem, têm de ser entregues” às autoridades competentes, sublinhou.

A reação surgiu depois de várias fontes terem avançado ao jornalista Mike Allen, do Axios e do Politico, que Trump está a preparar-se para despedir um ou mais membros da sua equipa, uma “purga” com o objetivo de “relançar” o governo e encontrar bodes expiatórios que lhe tirem este peso de cima. “Ele está frustrado e zangado com toda a gente”, diz uma das fontes. “Os conselhos que está a receber é para que avance em grande, porque não tem nada a perder. A questão agora é quão grande e quão ousada será [a sua reação].” Entre os que estão na linha de fogo contam-se o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, o chefe de gabinete, Reince Priebus, e o chefe de estratégias, Steve Bannon.

getty

Ainda não se sabe o que vai acontecer primeiro: se Trump anuncia os despedimentos ou se anuncia a sua escolha para substituir Comey na chefia do FBI, algo que, disse no Twitter, não vai passar do “final desta semana”. À CNN, Schumer garantiu domingo que os democratas não vão aceitar um “político partidário” para liderar a agência, numa altura em que um dos nomes mais repetidos para o cargo (que tem de ser aprovado pelo Senado) é o do republicano John Cornyn. Mais do que isso, o líder democrata prometeu um boicote à votação enquanto não for escolhido um procurador especial para avançar com a investigação Trump-Rússia.

Sabe-se, sim, que depois de ter recusado testemunhar sobre este caso numa sessão à porta fechada no Senado esta semana, Comey sinalizou que está disposto a prestar depoimentos numa sessão pública. Os legisladores já estão a preparar o palco e os holofotes enquanto Trump vê o cerco a apertar-se. “O despedimento de Comey, independentemente das razões por trás dele, foi suicídio político e vai, quase de certeza, conduzir ao objetivo contrário ao que era pretendido”, escrevia domingo o site “The Week” depois de deitar as cartas na mesa. “Agora sabemos que a administração Trump vai acabar. Quer Trump seja destituído ou não, sabemos que [este governo] vai chegar ao fim não por causa de uma tentativa de golpe de Estado mas por causa de incompetência e de uma série de tiros no pé que parecem não ter fim. Os republicanos em particular deviam preparar-se.”