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Centrão à vista

Depois de arrebatar as presidenciais, Macron e o seu En Marche preparam o domínio total da política francesa

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Macron avança com a recomposição da vida política francesa: depois de ter destruído o PS nas presidenciais, aposta na divisão da direita e acaba de nomear um primeiro-ministro deste campo. O objetivo é ganhar as legislativas de junho ou pelo menos garantir pontes para governar ao centro com o apoio das alas moderadas da esquerda e da direita, numa espécie de “geringonça”

Edouard Philippe, 46 anos, deputado e presidente da Câmara do Havre (norte da França) pelo partido de direita Os Republicanos, tomou esta segunda-feira à tarde posse como novo primeiro-ministro francês. A composição do seu Governo deverá ser anunciada esta terça-feira.

O novo executivo deverá representar um mosaico de tendências políticas diversas – da esquerda socialista moderada aos “juppéistas” (apoiantes do antigo primeiro-ministro Alain Juppé, derrotado por François Fillon nas primárias da direita), passando pelos centristas de François Bayrou e membros da sociedade civil.

Em princípio, o novo Governo será à imagem do Presidente Emmanuel Macron, que se diz nem de esquerda nem de direita e que, no fundo, é um centrista apesar de ter sido ministro da Economia de um Governo socialista.

Com a nomeação de Edouard Philippe, Macron afirma claramente a sua intenção: avançar com a recomposição da paisagem política e partidária francesa, tentando unir e conseguir o apoio das alas moderadas da esquerda e da direita.

Edouard Philippe, o eleito de Macron

Edouard Philippe, o eleito de Macron

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A jogada de Macron

Trata-se de uma aposta forte de Macron na perspetiva das eleições legislativas de 11 e 18 de junho (primeira e segunda voltas): a designação de Edouard Philippe enfraquece a direita de Os Republicanos e visa permitir à República em Marcha, o movimento de Macron, pensar numa maioria absoluta na Assembleia, dado que ele também fez explodir o PS durante as eleições presidenciais.

A ascensão de Edouard Philippe à cabeça do Governo retira força a Os Republicanos, cujo novo líder, François Baroin, apontava para uma vitória da direita nas legislativas de forma a obrigar Macron a governar em coabitação ou em coligação formal.

Com esta sua estratégia, Emmanuel Macron visa, no mínimo, uma maioria relativa que lhe permita ter apoios no Parlamento tanto nas bancadas da direita como da esquerda moderada, governando através de uma espécie de “geringonça” como a portuguesa, mas de sinal contrário, ou seja, virada para o centro-direita.

Nas alas esquerda do Partido Socialista e na República Insubmissa, o movimento da esquerda radical do ex-candidato às presidenciais Jean-Luc Mélenchon, ataca-se já a escolha de Macron, dizendo-se que com a nomeação de Edouard Philippe “caiu a máscara” do presidente. “Não deem nas legislativas todos os poderes a Emmanuel Macron”, pediu Mélenchon aos eleitores .

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“Sou um homem de direita”

O novo primeiro-ministro é um político atípico, de grande estatura física (é magro e muito alto), natural da Normandia e praticante de boxe. Não é muito conhecido em França e nunca integrou as mais altas estruturas dirigentes dos partidos da direita francesa.

No parlamento votou sempre contra todas as leis do Governo de Manuel Valls, incluindo as propostas por Emmanuel Macron, quando o atual chefe de Estado era ministro da Economia.

Na tomada de posse, Edouard Philippe disse claramente para o seu antecessor, Bernard Cazeneuve, que também é normando e é seu amigo mas que acabava de lhe dizer que era de esquerda e socialista : “Eu sou um homem de direita”.

Com a chegada ao poder, primeiro de Emmanuel Macron e, agora, de Edouard Philippe, a bússola política francesa parece um pouco confusa, mas começa a apontar para o chamado “centrão”.