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Internacional

NATO organiza cimeira para contrariar potencial ingerência da Rússia em atos eleitorais

A chefe da diplomacia da UE, Federica Mogherini, com o secretário de Estado da administração Trump, Rex Tillerson, em fevereiro

Alex Wong

Encontro de cinco dias em Praga acontece antes de uma série de importantes votações na Europa, entre elas as legislativas antecipadas no Reino Unido, marcadas para 8 de junho, e as eleições federais na Alemanha, a 24 de setembro

Especialistas em segurança dos Estados-membros da NATO, incluindo do Reino Unido e dos Estados Unidos, vão participar esta semana numa cimeira em Praga, que está a ser classificada como a primeira e mais concertada tentativa de contrariar a alegada campanha de desestabilização da Rússia no âmbito de eleições no mundo ocidental.

O encontro está a ser organizado pelo Stratcom (Centro de Comunicações Estratégicas da NATO), em parceria com o Ministério do Interior da República Checa, numa tentativa de persuadir os governos nacionais e a União Europeia a reforçarem a segurança dos seus processos eleitorais numa altura em que continuam a aumentar os receios de ingerência pelo governo russo de Vladimir Putin.

A cimeira acontece uma semana depois de Donald Trump ter despedido o diretor do FBI James Comey, numa altura em que a investigação por ele chefiada ao alegado conluio entre membros da equipa do Presidente e operativos russos estava a acelerar. Também acontece antes de uma série de importantes eleições em países da Europa, incluindo as legislativas britânicas antecipadas para 8 de junho, as legislativas francesas dias depois, as eleições federais da Alemanha, a 24 de setembro, e dois plebiscitos na República Checa (legislativas em outubro e presidenciais em janeiro).

"Os países ocidentais estão a levar isto mais a sério agora porque já viram que também os afeta e não apenas à Ucrânia e aos Estados do Báltico", diz Jakub Janda, do think tank Valores Europeus, com sede em Praga, que também está envolvido na organização da cimeira a par da embaixada britânica na capital checa. "De tópico de política externa esta passou a ser uma questão de segurança interna."

"É notório que as democracias precisam de desenvolver políticas nacionais para contrariar as operações de desinformação hostis, que estão a acontecer constantemente e não apenas durante períodos eleitorais", refere a Valores Europeus num duro relatório que será apresentado aos 160 especialistas governamentais, à porta fechada, nos primeiros dois dias da cimeira.

Como aponta o "The Guardian", em janeiro a República Checa tornou-se o primeiro Estado-membro da União Europeia a levar a sério e de forma pragmática estas ameaças, tendo criado o Centro de Combate ao Terrorismo e a Ameaça Híbridas para combater sites de "notícias falsas" e outras medidas de desestabilização desenvolvidas por Moscovo e assim proteger a integridade das suas eleições.

No relatório citado pelo "The Guardian", o think tank checo refere que a Rússia tentou influenciar o referendo ao Brexit realizado há um ano no Reino Unido, para além de ter demonstrado uma bem-documentada preferência por Donald Trump nos Estados Unidos e pela candidata da extrema-direita Marine le Pen, nas presidenciais francesas.

"As democracias devem começar a lidar com os seus processos eleitorais como uma parte crítica das infraestruturas nacionais", é acrescentado no documento, onde se pede aos governos ocidentais que criem "políticas de defesa nacionais desenhadas à medida" para que as eleições continuem a ser livres e justas.

O grupo responsável pelo relatório, que também gere um website chamado Kremlin Watch, já acusou a chefe da diplomacia da UE Federica Mogherini de estar a ignorar este assunto de máxima importância.

A cimeira vai contar com delegações de alto nível do Pentágono e do Departamento de Estado norte-americano, apesar das investigações atualmente em curso nos EUA ao alegado conluio entre a equipa do candidato Trump e o governo russo para impactar os resultados das presidenciais de novembro.

"Estávamos com medo que, por causa do que aconteceu, [a participação dos EUA] fosse travada ou desacelerada pela Casa Branca de Trump, mas tenho informações de diplomatas americanos na Europa de que [Rex] Tillerson, o secretário de Estado, já deu o seu aval", aponta Janda.

O encontro em Praga acontece numa altura em que os checos estão a lidar com um braço de ferro entre o governo social-democrata de Bohuslav Sobotka, pró-Ocidente, e o atual Presidente do país, Milos Zeman, um aliado próximo do Kremlin que continua a criticar publicamente as sanções da UE à Rússia de Putin por causa da guerra na Ucrânia e que, apontam os especialistas, deverá ser favorecido em potenciais campanhas de desestabilização conduzidas por operativos russos antes das eleições de janeiro.