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Nastassja Kinski: “Não gosto de falar do meu passado”

FOTO Manuel Romano/NurPhoto/Getty

A grande atriz alemã de “Tess”, “Paris, Texas” e “Os amantes de Maria” visitou Portugal pela primeira vez e falou-nos do seu novo projeto: Um documentário sobre atletas de alta competição focado na vida de Cristiano Ronaldo

A equipa do Madeira Film Festival, que decorreu este ano entre 17 e 23 de abril, já deixara o aviso sobre a estrela que recebeu este ano: Nastassja Kinski, que continua a ser para todos nós um ícone do cinema europeu, “recusa-se terminantemente a falar da vida privada e da família”. Partimos para o Funchal com o aviso na memória e o desejo de falar só de cinema. O que não estávamos à espera era de acabar a conversa com a atriz alemã a ver o Sporting-Benfica.

Começou a fazer cinema nos anos 70 e foi uma atriz precoce, menina-mulher, e também modelo...
Mas a minha primeira paixão foi a dança, o ballet. Foi a primeira fantasia de criança, desde que me lembro. O cinema só veio depois, a minha família estava ligada ao meio, ao business.

Foi isso que a levou a participar há pouco tempo num concurso de dança da TV italiana, “Ballando con le Stelle”?
Isso foi apenas uma brincadeira, um prazer. E um sonho, porque eu costumo ver esse tipo de programas na TV há muito tempo, primeiro na América, depois em Itália e na Alemanha. O sonho de dançar com um profissional, de ser bailarina por uma noite... Cumpriu-se! Não me importava de repetir.

Recordo-me daquele momento de “One From The Heart”, de Coppola, e da coreografia para a canção ‘Little Blue Boy’...
E não foi um truque, não houve duplos, fui eu que fiz aquilo, a dança é minha!

Acha que podia ter sido uma atriz de musicais se tivesse vivido no tempo em que eles eram feitos em Hollywood?
Completamente. Mas não só no cinema, podia ter tentado também dançar no teatro, se a minha carreira tivesse levado outro rumo.

Entrou em mais de 60 filmes, rodou com cineastas como Wenders, Polanski, Paul Schrader, tantos outros... Esses filmes ainda são importantes para si?
Muito importantes. Esses filmes estarão sempre comigo. Mas eu vivo no presente.

Que memórias guarda de “Tess”, por exemplo?
Foi um filme fundamental para mim. O Wim [Wenders] descobriu-me para o cinema [em “Movimento em Falso”], reparou em mim numa discoteca, era uma miúda. Filmei depois com o Wolfgang Petersen, era a história de uma rapariga que tinha um affair com o professor, e em seguida veio o Roman [Polanski], que me deu o “Tess”. E aquele papel trouxe-me uma dignidade tão grande...

Porquê?
O Roman foi o primeiro e talvez o único cineasta com quem trabalhei que me deu uma verdadeira educação de cinema. Passou-me livros, deu-me a ver filmes, fez-me descobrir Vivian Leigh. Insistiu que eu fosse estudar para a Lee Strasberg em Nova Iorque. E só depois me mandou para o Reino Unido, meses a fio a aprender a pronúncia de Wessex, de acordo com o texto de Thomas Hardy. Ele ensinou-me a ter respeito pelo trabalho. É muito severo, no melhor sentido do termo. Os atores adoram-no por isso. Foi tudo muito sério. Eu só tinha 17 anos. Quando acabámos o filme, ele disse-me que aquele era um papel que ele gostaria de ter dado à sua mulher, a Sharon Tate.

Continuam amigos?
Ah, sim, sempre.

E “One From The Heart”?
Tenho um pequeno papel importante. E guardo-o no coração. Trabalhei num circo para fazer a personagem, foi muito difícil. Ainda é um grande filme, independentemente de tudo o que aconteceu [o filme levou Coppola à falência]. O Francis disse uma coisa muito bonita nessa altura que nunca esquecerei: “Se não arriscas, nunca conseguirás ganhar.” E ele arriscou tudo. Como o Muhammad Ali.

Acha que é preciso fazer isso na vida?
Cada vez mais. Se não somos devorados pelo arrependimento. Todos nós temos medo. É normal, é humano. Mas temos que ultrapassar o medo e ter fé em nós próprios. Foi isso que me levou, mais do que uma vez, a fazer pausas na minha carreira.

Acha que um ator pode realmente confiar num realizador?
Tem que confiar. Nós somos os instrumentos do realizador. Devemos preencher a sua visão. Nem sempre podemos estar de acordo. Agora, o que eu não gosto é quando um ator se impõe a um tal ponto que acaba por dirigir-se a ele próprio.

“Paris, Texas” é um filme que guarda na memória de forma especial?
Claro que sim. Levou-me ao mundo inteiro. Eu fiz três filmes com o Wim, ele foi o meu primeiro realizador. Ele e o cinema para mim confundem-se, e eu tenho muita dificuldade em falar disso com pessoas que não conheço. Sabe, nós estamos a falar muito do passado. E eu não gosto de falar sobre o meu passado.

Está a gostar da Madeira?
Estou a adorar. Nunca tinha estado em Portugal. A vossa língua é música para mim. Já tinha ouvido falar desta ilha linda que tem qualquer coisa de mágico. Mas não sabia que a presença da natureza era tão forte.

O que é que a fez aceitar o convite?
O Madeira Film Festival tem uma temática ligada ao ambiente que me interessa e já vi aqui filmes de que gostei bastante. E a organização tem sido impecável comigo. Mas esse não foi o único motivo da minha visita. É que estou a trabalhar num documentário sobre atletas de alta competição que, de certa forma, superaram os seus limites. Atletas que começaram do nada e que conseguiram singrar à custa de muito trabalho.

Um documentário dirigido por si?
É essa a ideia. O título do trabalho é “Impossible is Nothing”, nome bonito que é também um slogan da Adidas, ou seja: não sei ainda se o poderei usar. É um filme sobre Muhammad Ali, Magic Johnson, Maradona e, entre outros, o Cristiano Ronaldo. Sou uma fã.

Ele já sabe disso?
Ainda não. Mas vou precisar da ajuda dele. O filme é um projeto internacional em nome da paz, feito a partir da recolha de histórias inspiradoras — e a de Cristiano é seguramente uma delas. Ora, o Cristiano é da Madeira, foi aqui que começou a jogar. E eu queria vir também por isso, para conhecer esses locais. Penso muito no rapaz que ele foi quando partiu para o continente. Veja esta foto de Muhammad Ali [a atriz mostra-nos o seu tablet]. E agora veja esta, de Cristiano, tão novo. Veja os olhos deles. Têm em comum a mesma vontade de vencer. É isso que me interessa.

Neste preciso momento, está a decorrer um jogo de futebol importante para o campeonato, um derby lisboeta, o Sporting-Benfica. Gostava de ver os últimos minutos da partida?
Adorava. Era uma forma excelente de acabarmos a entrevista!