Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Comey pede ao FBI que continue a ser “rochedo de competência, honestidade e independência”

SHAWN THEW / EPA

Numa carta enviada aos funcionários da agência federal, o ex-diretor que Donald Trump acabou de despedir diz que não quer perder tempo a analisar a decisão nem a forma como foi tomada

James Comey quebrou o silêncio sobre o seu despedimento pelo Presidente Donald Trump, numa carta enviada aos funcionários do FBI que dirigia até ao início desta semana, e na qual lhes pede que assegurem que a agência federal continua a ser “um rochedo de competência, honestidade e independência”.

Na missiva enviada a amigos e ex-subordinados na quarta-feira, que a CNN foi a primeira a divulgar, Comey declara que Trump, enquanto Presidente, tem o direito a despedi-lo independentemente das circunstâncias. “Acredito há muito tempo que um Presidente pode despedir um diretor do FBI por qualquer razão ou até por razão nenhuma”, escreve o ex-diretor do FBI. “Não vou perder tempo a analisar a decisão nem a forma como foi executada. Espero que vocês também não percam. A decisão está tomada, eu vou ficar bem, embora vá sentir muito a vossa falta e de trabalhar na agência.”

A carta representa a primeira reação pública de Comey ao seu próprio despedimento, do qual soube pela televisão durante um encontro com subordinados nos escritórios do FBI em Los Angeles, antes de ter recebido a carta formal em que o Presidente rompe “imediatamente” com o seu contrato. A Casa Branca alega que Comey geriu mal o caso Clinton e portou-se ainda pior quando, a onze dias das eleições, decidiu “divulgar informações depreciativas sobre o sujeito de uma investigação criminal que já tinha sido rejeitada” (o “sujeito” é a ex-secretária de Estado e rival de Trump nas presidenciais).

Estes argumentos contradizem a postura pública assumida pelo agora Presidente ao longo da campanha e já depois de ter sido eleito e de ter tomado posse; nalgumas dessas ocasiões, Trump criticou Comey por não ter acusado formalmente a sua rival, prometendo inclusivamente mandar prender Clinton se vencesse as eleições.

O despedimento de Comey acontece numa altura em que a investigação do FBI às ligações entre a equipa de Trump e o Governo da Rússia estava a acelerar. Ativistas, o Partido Democrata e até alguns republicanos questionam o timing da decisão de Trump, sob suspeitas de tentativa de encobrimento das alegadas ligações a Vladimir Putin e sob acusações de violar a independência do poder judiciário e daquele inquérito em particular — fundamental para que as outras duas investigações Trump-Rússia, a decorrerem no Congresso, possam avançar. Ontem, foi divulgado que, dias antes de Trump demitir Comey, o ainda diretor do FBI pediu ao Departamento de Justiça que alocasse mais recursos para a investigação Trump-Rússia.

Na carta, Comey pede aos colegas que ficam para trás que continuem a garantir a “independência” da agência. “Já o disse antes: em tempos de turbulência, o povo americano deve ver no FBI um rochedo de competência, honestidade e independência. O que torna tão difícil a minha saída do FBI é a natureza e a qualidade das pessoas que aí trabalham, que juntas fazem [do FBI] esse rochedo da América.”