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Caso Trump-Rússia. Senado exige ver documentos de Flynn e convida Comey a testemunhar

Eric Thayer

Analistas citam o início de uma crise constitucional nos Estados Unidos, depois de Donald Trump ter despedido o diretor do FBI que estava a investigar as alegadas ligações da equipa do Presidente ao governo russo, dias depois de Comey ter pedido mais recursos ao Departamento de Justiça para acelerar o inquérito

A comissão do Senado que está a cargo de uma das três investigações em curso à alegada interferência da Rússia nas presidenciais norte-americanas emitiu esta quarta-feira um raro pedido formal para que o ex-conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, o general Michael Flynn, entregue todos os registos de emails, chamadas telefónicas, encontros e negócios que o ligam aos russos.

Na intimação, os senadores da comissão de serviços de informação da câmara alta do Congresso acusam Flynn, o homem que dirigiu o Conselho de Segurança Nacional (CSN) da Casa Branca durante 25 dias até ser despedido, não cooperou voluntariamente com a investigação. O pedido foi emitido na quarta-feira – depois de Sally Yates, ex-procuradora-geral interina despedida por Trump no início de fevereiro, ter declarado ao Senado que avisou a administração Trump sobre os riscos de contratar Flynn por causa da sua proximidade duvidosa aos russos, um conselho que o Presidente ignorou.

Flynn foi despedido em meados de fevereiro depois de os media terem denunciado que manteve contactos ilegais com o embaixador russo nos EUA

Flynn foi despedido em meados de fevereiro depois de os media terem denunciado que manteve contactos ilegais com o embaixador russo nos EUA

Drew Angerer

Flynn foi despedido na sequência de contactos telefónicos ilegais com o embaixador russo nos EUA; Trump sabia que esses contactos tinham tido lugar mas só decidiu despedir o chefe do CSN apenas quando os media descobriram que este tinha conversado com Sergei Kislyak em dezembro. Entre os vários membros da equipa de Trump já sob suspeita de terem estado em contacto com operativos russos conta-se Jeff Sessions, o atual chefe do Departamento de Justiça a quem James Comey tinha acabado de pedir mais recursos para acelerar a investigação do FBI às ligações Trump-Rússia.

Na terça-feira, o diretor do FBI a cargo de outra das investigações em curso foi despedido por Trump. É apenas a segunda vez na História dos EUA que um Presidente demite um chefe da agência federal, algo que tem levado ativistas, a oposição democrata e até membros do Partido Republicano a suspeitarem de tentativa de encobrimento de crimes pelo governo.

Também esta quarta-feira, os chefes da mesma comissão, o senador republicano Richard M. Burr e o seu vice, o senador democrata Mark Warner, convidaram Comey a testemunhar numa sessão à porta fechada, enquanto cidadão privado, sobre os acontecimentos cronológicos que conduziram ao seu despedimento. Tal permitiria ao ex-diretor do FBI discutir informações confidenciais e quaisquer encontros que possa ter mantido com superiores hierárquicos no Departamento de Justiça e com o próprio Presidente Trump. Para já, Comey ainda não disse se vai aceitar o convite para prestar declarações na próxima terça-feira.

De acordo com uma notícia exclusiva da CNN, a comissão chefiada por Blurr também já pediu à divisão criminal do Departamento do Tesouro que forneça aos senadores quaisquer informações relacionadas com o Presidente, os seus principais conselheiros e assessores de campanha e potenciais crimes financeiros, no âmbito de uma investigação que aquela divisão está a levar a cabo sobre lavagem de dinheiro estrangeiro através de compras de imóveis nos EUA.

Os senadores Mark Warner (democrata, à esquerda) e Richard Burr (republicano) estão responsáveis por uma das investigações em curso às ligações Trump-Rússia

Os senadores Mark Warner (democrata, à esquerda) e Richard Burr (republicano) estão responsáveis por uma das investigações em curso às ligações Trump-Rússia

Chip Somodevilla

A Casa Branca continua a defender que o afastamento de Comey está relacionado com a sua má gestão do caso Clinton, a investigação ao uso de um servidor privado pela candidata democrata quando esta era secretária de Estado no primeiro mandato de Barack Obama. Dado o timing do despedimento, contudo, muitos, sobretudo do Partido Democrata e de organizações da sociedade civil, estão convencidos que o afastamento do diretor do FBI está diretamente ligado aos inquéritos em curso tão incómodos para o Presidente e o seu círculo. À oposição e aos críticos já se juntaram alguns membros do partido pelo qual Trump foi eleito e que atualmente controla as duas câmaras do Congresso.

De acordo com vários democratas de topo, dias antes de Comey ter sido despedido tinha pedido ao Departamento de Justiça mais recursos para acelerar a investigação à ingerência russa nas eleições e às suspeitas de ligações entre a equipa de Trump e operativos do governo de Vladimir Putin.

"Os dois inquéritos distintos do Congresso à ingerência russa dependem de provas e informações que estão a ser recolhidas pelo FBI; se a investigação da agência falhar, os inquéritos do Congresso vão provavelmente ser prejudicados", apontava quarta-feira o "New York Times". "Talvez por essa razão, o despedimento de Comey parece ter imbuído a comissão de serviços de informação do Senado com um renovado sentido de urgência."

A um jornalista da NBC, um ex-funcionário dos serviços secretos referiu esta quarta-feira que a forma como Comey foi despedido parece ter como objetivo intimidar os agentes e chefias do FBI envolvidos na investigação. "A forma como isto foi feito penso que serve para mandar uma mensagem aos agentesdo FBI que ficam para trás. Eles não se limitaram a remover [Comey], fizeram-no da forma mais rufia e humilhante possível. Sem pré-aviso, sem nada – execução imediata. A guarda pessoal [de Trump] entregou uma carta na sede [do FBI]. Penso que a intenção era enviar uma mensagem: 'Acabem já com isto ou então é isto que vos vai acontecer.' Isto é como meter uma cabeça de cavalo na cama", disse o agente sob anonimato, em referência a uma cena do icónico filme "O Padrinho".

Entretanto, uma fonte próxima de Comey explicou, sob anonimato, à CNN que houve duas razões por trás do despedimento: "Comey nunca deu garantias de lealdade ao Presidente Trump e a investigação do FBI às ligações à Rússia estava a acelerar". (Um ponto bizarro na carta de despedimento que Comey receberia depois de ter visto a notícia do seu afastamento na televisão é a linha em que o Presidente lhe agradece o facto de, "por três vezes", Comey lhe ter garantido que ele não está sob investigação.)

A carta assinada por Trump que determina o despedimento do diretor do FBI, James Comey

A carta assinada por Trump que determina o despedimento do diretor do FBI, James Comey

A Casa Branca mantém que o despedimento se deve ao facto de Comey ter convocado uma conferência de imprensa 11 dias antes das eleições para "divulgar informações depreciativas sobre o sujeito de uma investigação criminal rejeitada e fechada" (Clinton) – algo que contradiz diretamente todas as declarações públicas de Trump sobre o caso Clinton ao longo da campanha, entre elas o facto de o Presidente ter condenado Comey precisamente pelo contrário, por não ter avançado com acusações criminais contra a sua rival democrata, que ele chegou a prometer mandar prender caso fosse eleito.

Constitucionalistas ouvidos pelo site "Think Progress" dizem que as ações do Presidente esta semana podem representar "ofensas imputáveis" e que o facto de ter despedido Comey pode conduzir à sua destituição caso se comprove que houve abuso de poder e interferência na separação de poderes democráticos.

Richard Nixon (esq) fotografado com Henry Kissinger em 1972

Richard Nixon (esq) fotografado com Henry Kissinger em 1972

AFP

O que aconteceu na terça-feira, quando Comey foi despedido, está a renovar as comparações entre Trump e Richard Nixon, o único Presidente da História dos EUA que se viu forçado a abdicar do cargo. Em outubro de 1973, num evento que ficou conhecido como "Massacre de Sábado à Noite", Nixon demitiu o procurador especial escolhido pelo Congresso para investigar as escutas ordenadas pelo Presidente à sede do Partido Democrata no complexo de Watergate, o escândalo que conduziria à demissão de Nixon um ano depois.

Esta quarta-feira, num artigo intitulado "Será este o Massacre de Sábado à Noite de Trump? Não contem com isso", a revista Politico explicava que "uma das grandes diferenças" entre o despedimento do diretor do FBI e o despedimento do procurador Archibald Cox é que, há 44 anos, "os republicanos do Congresso não estavam dispostos a apoiar Nixon".

"Na altura, como agora, um Presidente despediu um oficial responsável por investigar potenciais transgressões pela sua equipa. Na altura, como agora, o ato levantou suspeitas imediatas sobre quão 'independente' uma investigação poderia ser depois disso. Mas é aí que os paralelismos acabam. Todos os críticos de Donald Trump que estão preparados para dançarem na sepultura da sua presidência, comparando os primeiros quatro meses de Trump no poder ao segundo mandato enfraquecido e condenado o Presidente Richard Nixon, deviam acordar. Em 1973, os astros políticos estavam alinhados em perfeita harmonia contra um Presidente em funções. Hoje esse contraste não podia ser mais nítido."

  • Caro diretor, você está despedido: o poder, as incertezas e as inquietações de uma carta

    Trump despediu o diretor do FBI e até os republicanos estão espantados. “Estou perturbado com o timing e a argumentação por trás do despedimento de Jim Comey”, diz o republicano Richard Burr, líder da comissão de serviços informação do Senado. E é normal que ouça falar muito sobre a Rússia no texto que há de vir - porque é precisamente isso que os americanos temem nesta trama