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“A relação com a Rússia não pode ser separada da sua interferência nas nossas eleições”

Di-lo Joshua Rubenstein, autor de um livro sobre a morte de Estaline. "A perversão da democracia no caso de Trump é ampla e profunda", explica

Luís M. Faria

Jornalista

Martha Stewart

Joshua Rubenstein, antigo dirigente da Amnistia Internacional, autor de biografias de Leon Trotsky e do escritor soviético Ilya Ehrenburg, acaba de publicar em Portugal "Os últimos dias de Estaline", uma obra que, ao contrário das anteriores, se centra num período relativamente curto.

Quando a editora da Universidade de Yale o convidou para escrever o livro, inicialmente não ficou entusiasmado.
Recusei. Disse-lhes que não havia história ali. Ele ficou doente, era velho, morreu. Tudo o resto era especulação e mitos impossíveis de verificar. Foi envenenado, tentaram matá-lo, houve uma conspiração... Não me parecia boa ideia o livro. Mas eles insistiram. Então falei com os meus colegas em Harvard e outras universidades, e vi que podia haver uma história se começasse no outono de 1952, com o último discurso público de Estaline, na 19.º congresso do Partido, quando ele deixa claro que vai reorganizar o governo e há fortes indícios de que vai lançar uma nova purga, como a dos anos trinta. Isso leva a história através do inferno, e então começa a nova administração americana, a de Eisenhower, que é toda uma história diferente. O que pensava Eisenhower quando Estaline morreu? O que pensou depois? Churchill, já velho e mal de saúde, pressiona Eisenhower para se encontrar com Estaline e depois com os seus sucessores, mas Eisenhower recusa.

É um livro centrado na morte de Estaline, mas metade dele passa-se depois. Depois de o ler, não fiquei com uma noção de como as coisas seriam diferentes se o conselho de Churchill tivesse sido seguido.
Tem razão. Não digo nada sobre isso. Tenho muito cuidado em não me meter pela história virtual. Mas dois indivíduos que eram então funcionários seniores do departamento de Estado, nenhum deles um liberal, lamentaram anos depois não terem feito mais para convencer Eisenhower a encontrar-se com os líderes soviéticos. Um momento crucial foi a 25 de abril, quando a imprensa soviética publicou o famoso discurso de Eisenhower. Deixaram os seus leitores ler as críticas dele. E os americanos não responderam.

A imagem que os Estados Unidos tinham da União Soviética, em grande parte não havia mudado desde o seu nascimento. Ela era o mal, mesmo antes de Estaline chegar ao poder. Alias, já nos anos 60 e 70 Soljenistin retoma essa ideia. O mal começou logo com Lenine.
Lenine e Trostsky queriam absolutamente realizar a sua revolução. Eram fanáticos. Chegaram ao poder e baniram todos os outros partidos políticos, incluindo os socialistas, que tinham sido seus aliados. Mas Lenine não era pessoalmente um ditador. Tinha de trabalhar com o Politburo, e vários vezes perdeu votações. Trotsky acreditava numa certa medida de democracia dentro do Partido. Não em geral, mas no Partido. Estaline não. Ele reforçou a falta de democracia, acrescentando-lhe a ditadura pessoal e o terror. O povo russo nunca recuperou. Só Gorbachov representou realmente os valores democráticos, e a ironia é ele ter sido o último líder comunista. Putin foi eleito, tem uma maioria democrática, e não representa valores democráticos. Quer derrotá-los, não apenas na Rússia mas na Europa.

Voltando a Estaline, o que explica o terror, na sua opinião?
Em primeiro lugar, é personalidade. Ele queria poder pessoal dentro ou fora do Partido, não importava. Em segundo lugar, era paranoico. E em terceiro, não tinha nenhuns escrúpulos morais. Lenine, ao fim e ao cabo, teve discordâncias com Kamenev e Zinoviev, seus associados próximos. Zangou-se com eles, mas recebeu-os de volta no Politburo, embora eles se tivessem oposto publicamente à tomada de poder em outubro. Estaline nunca teria perdoado.

E não perdoou.
Não. É verdade.

Na sua biografia de Estaline, Simon Sebag Montefiore nota que ele provém da zona mais violenta em todo o Império Russo.
Sim. Mas lembre-se também que os bolcheviques tomaram o poder depois da I Guerra Mundial, que foi um conflito terrível. A guerra civil russa foi incrivelmente violenta e desruptiva para a sociedade.

O que acha que ainda existe desse período na psique nacional russa?
O trauma, acho. Estaline morreu em 1953, mas há uma memória. Depois, o período de Ieltsin foi extremamente dececionante. ele tinha certos instintos democráticos, mas era um bêbado e era corrupto. A primeira experiência de democracia na russa está relacionada com corrupção, crime, pornografia... Durante setenta anos não tinham tido nada disso, publicamente. Havia bastante corrupção, mas era diferente. E no final, todos aqueles ex-burocratas comunistas acabaram por se apropriar dos recursos naturais. Sabem como os seus equivalentes ocidentais vivem, e querem viver da mesma maneira. Têm acesso ao níquel, ao ouro, à prata, ao petróleo, ao gás. Claro que o vão fazer. O povo russo viu e disse: isto é democracia?

Tendo esse cuidado que diz com a história virtual, imagino que também tenha bastante cautela em estabelecer paralelos com o presente.
Claro. Bom, hoje a situação é completamente diferente. A Rússia, mesmo sob Putin, não é a União Soviética, Putin não é Estaline. Apesar da repressão, a Rússia é parte da Europa, com o comércio, a internet, os estudantes que viajam. A religião é muito mais livre – não inteiramente livre mas muito mais do que no tempo de Estaline. Não há comparação. Mas há alguns pontos que devemos enfatizar. Um é a necessidade de sermos realistas. Eisenhower e o seu pessoal mostraram que não compreendiam o que era a Rússia. Ele chegou a dizer que as coisas iam piorar após a morte de Estaline. Não aceitava que os sucessores dele podiam querer melhorá-las, mas ele fizeram-no.

Em segundo lugar, foi iniciativa deles terminar a guerra na Coreia. E em terceiro, a Rússia queria ser tratada como igual. Se o merecia ou não é outra questão, mas a verdade é que tinham armas nucleares, estavam no conselho de segurança. A América nunca percebeu como lidar com a Rússia de forma dura quando é preciso, mas também capaz de estender a mão.

Cada novo Presidente americano que é eleito parece que quer mudar completamente a relação. George W. Bush, Obama, agora Trump. É quase um efeito perverso da democracia, essa necessidade de mostrar serviço rapidamente, antes da eleição seguinte...
Bom, no caso do senhor Trump a perversão da democracia é tão ampla, tão profunda, que a questão da relação atual com a Rússia não pode ser separada da sua interferência nas nossas eleições e da possível conspiração entre Putin e a equipa de Trump. A questão permanece aberta. Como ainda anteontem se viu nas notícias, é um fator de perturbação na nossa democracia.

Falando como alguém informado pela História, qual é a sua perceção de todo esse assunto?
O "New York Times" tem hoje uma coluna que lembra muitos assuntos em que Trump mentiu. Ele pensa que está acima da verdade. O nosso desafio é mostrar que não está acima de lei. Não pode estar. A questão é se os tribunais e o congresso o vão responsabilizar.