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Trump acusado de tentar encobrir alegadas ligações à Rússia com troca no FBI

Realidade distante: Comey saúda Trump dois dias depois de o empresário ter tomado posse em janeiro

Pool

Oposição e ativistas dizem que despedimento do diretor do FBI põe em causa o sistema de freios e contrapesos da democracia e exigem nomeação de um procurador especial para investigar ingerência russa nas eleições e alegado conluio da equipa do Presidente norte-americano com o governo de Vladimir Putin

O líder da minoria democrata no Senado, Chuck Schumer, e outros legisladores democratas estão a exigir a nomeação de um procurador especial para investigar as ligações da equipa de Trump à Rússia de Vladimir Putin, após Donald Trump ter despedido o diretor do FBI, James Comey, na terça-feira — um afastamento abrupto e inesperado que está a preocupar até os republicanos no Capitólio.

Sem uma investigação independente, "cada americano vai suspeitar com razão que a decisão de despedir o diretor Comey faz parte de uma tentativa de encobrimento" dessas ligações, disse Chuck Schumer. Em declarações aos jornalistas, o democrata voltou a pedir ao vice-chefe do Departamento da Justiça, Rod Rosenstein — que está a supervisionar a investigação federal ao caso Trump-Rússia após o procurador-geral, Jeff Sessions, se ter afastado do inquérito por causa de contactos duvidosos que manteve com o chefe da embaixada russa nos EUA — que escolha um procurador especial independente para liderar esse inquérito.

"A confiança do povo americano no nosso sistema de justiça criminal está nas mãos de Rosenstein. Sr. Rosenstein, a América depende de si para que restaure a fé no nosso sistema de justiça criminal, que vai ficar gravemente destruído com as ações da administração hoje", pediu o democrata.

O afastamento do chefe do FBI está a ser criticado também por alguns membros do partido pelo qual Trump foi eleito em novembro e que atualmente controla não só a Casa Branca como as duas câmaras do Congresso. "Estou perturbado pelo timing e a argumentação por trás do despedimento de Jim Comey", declarou Richard Burr, o republicano que atualmente lidera a comissão de serviços informação do Senado. O senador do Nebraska Ben Sasse, um dos principais críticos de Trump dentro do Partido Republicano, concordou: "O timing do despedimento é muito preocupante."

Justin Amash, representante republicano do Michigan, garantiu entretanto: "Os meus funcionários e eu estamos a rever a legislação em vigor para que se crie uma comissão independente sobre [o caso] Rússia." Aos jornalistas, acrescentou que é "simplesmente bizarro" que, na carta de despedimento, Trump diga que Comey o informou "por três vezes" que ele não estava sob investigação.

Comey recebeu a carta de despedimento depois de saber da decisão pela televisão

Comey recebeu a carta de despedimento depois de saber da decisão pela televisão

MANDEL NGAN

Ativistas e grupos sem fins lucrativos estão alinhados com os legisladores. É o caso da União Americana pelas Liberdades Civis (ACLU), que em comunicado sublinhou que "o despedimento de um diretor do FBI pelo Presidente Trump faz soar os alarmes no nosso sistema de freios e contrapesos", a base das democracias modernas. "A independência do diretor do FBI tem como objetivo garantir que o Presidente não opera acima da lei. O facto de o Presidente Trump ter despedido o homem responsável por investigar as ligações da sua própria campanha aos russos põe em risco esse princípio fundamental. Os mandatos dos diretores do FBI estão propositadamente estruturados para abranger presidências consecutivas para garantir a independência do FBI e insular a agência da política partidária. O despedimento de Comey pelo Presidente Trump levanta questões sobre a ingerência inapropriada da administração nas operações da agência – precisamente numa altura em que a agência parece estar a investigar o Presidente, os seus conselheiros e a sua campanha por potencial conluio com agentes russos nas últimas eleições."

O caso já está a ser comparado ao chamado Massacre de Sábado à Noite, quando em 1973 o então Presidente Richard Nixon despediu um procurador especial independente que estava a cargo da investigação ao escândalo de Watergate, que levaria o republicano a abdicar da presidência por ter ordenado escutas à sede da campanha democrata no complexo de Watergate.

De acordo com o "Politico", num artigo intitulado "Por trás do despedimento de Comey: um Trump enraivecido, a deitar fumo por causa da Rússia", o chefe do FBI soube que tinha sido despedido pela televisão, antes de ser formalmente notificado pela Casa Branca.

"O Presidente ponderou despedir o seu diretor do FBI durante mais de uma semana", aponta o site. "Quando finalmente premiu o gatilho na terça-feira à tarde, não telefonou a James Comey. Enviou um seu segurança privado de longa data entregar a carta de fim de contrato, dentro de uma pasta de papel pardo, na sede do FBI. [Trump] tinha vindo a ficar enraivecido com a investigação à Rússia, avançam dois conselheiros, frustrado pela sua impossibilidade de controlar a narrativa crescente em torno da Rússia. Por várias vezes perguntou aos assessores porque é que a investigação à Rússia não desaparecia e exigiu-lhes que falassem por ele. Por vezes gritava para a televisão quando via peças sobre o inquérito, diz um conselheiro. O despedimento do notório diretor do FBI ao seu 110.º dia no poder marca mais uma reviravolta súbita numa administração que já despediu a procuradora-geral interina [Sally Yates], o conselheiro de segurança nacional [Michael Flynn] e agora o diretor do FBI, que Trump elogiava até há poucas semanas e a quem chegou até a enviar um beijinho durante um evento público em janeiro. A notícia chocou Comey, que viu o seu despedimento ser noticiado na televisão enquanto falava aos funcionários do FBI no escritório da agência em Los Angeles."

O despedimento de Comey acontece no rescaldo da importante audiência de Yates na comissão de assuntos jurídicos do Senado, durante a qual a ex-chefe interina do Departamento de Justiça informou os legisladores que tinha avisado a administração Trump sobre os perigos de contratar Flynn para dirigir o Conselho de Segurança Nacional (CSN) por causa das suas ligações à Rússia.

Esta terça-feira, antes de Comey ser despedido, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, defendeu o silêncio do governo sobre as declarações de Yates, dizendo que o Presidente não quer denegrir a imagem de "um homem bom" e argumentando que a administração não teve em conta os conselhos da procuradora então em funções por ela ser uma "opositora política".