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A “perigosa” decisão de Trump que pode alterar o rumo da guerra da Síria e as relações com a Turquia

Um peshmerga hasteia a bandeira curda após a reconquista de Sinjar, no Iraque, no final de 2015

John Moore / Getty Images

Contra fortes objeções da Turquia de Erdogan, o Presidente norte-americano aprovou um plano para armar as milícias curdas, para que possam participar na batalha pela reconquista de Raqqa ao autoproclamado Estado Islâmico

Donald Trump aprovou na terça-feira um plano para armar os curdos da Síria para que estes participem na reconquista de Raqqa ao autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) ao lado das forças árabes sírias — uma decisão estratégica que promete abalar as relações dos EUA com um dos seus principais aliados na NATO, a Turquia, e também ter grande impacto na sangrenta guerra que tem avassalado a Síria desde março de 2011.

No que o “New York Times” diz ter sido mais uma demonstração da elevada estima que o atual Presidente tem pelos generais do Pentágono, Trump decidiu avançar com a proposta das chefias militares norte-americanas — defendem há muito que a maneira mais rápida de reaver o controlo de Raqqa, capital de facto do autoproclamado califado na Síria, é armar as YPG, as milícias curdas que estão a combater o Daesh no terreno com o apoio aéreo da coligação liderada pelos Estados Unidos.

A decisão representa um dilema político, já que a Turquia sempre se opôs e vai continuar a opor-se ao reforço dos poderes dos curdos; para o governo de Recep Tayyip Erdogan, as YPG são um braço armado ligado ao Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), um movimento político turco ilegalizado que luta há várias décadas pela autodeterminação do povo curdo. Armar as milícias que Ancara tem estado a atacar “aumenta os receios de que os turcos suspendam a cooperação com Washington na luta contra o Daesh”, aponta o NYT.

“Mesmo que necessária, esta é uma decisão perigosa que pode ter efeitos abrangentes e de longo prazo na relação dos EUA com a Turquia e também moldar a Síria pós-conflito”, sublinha Andrew Exum, colunista da revista conservadora “The Atlantic”.

Para já a Turquia continua em silêncio, depois de uma delegação de representantes do país ter sido informada desta decisão pelo chefe do Conselho de Segurança Nacional (CSN) da Casa Branca, H. R. McMaster, na segunda-feira, um dia antes de o Pentágono fazer o anúncio público.

A decisão de Trump surge numa altura em que as forças iraquianas, apoiadas pela força aérea e pela artilharia dos EUA, continuam a avançar para o centro de Mossul, o último bastião urbano do Daesh no Iraque. Os comandantes americanos defendem que a reconquista de Mossul e a ofensiva para retomar Raqqa na Síria devem acontecer em simultâneo, para que os jiadistas sejam forçados a defenderem-se em múltiplas frentes de batalha.

A decisão também surge depois de os principais conselheiros de Trump terem recomendado o destacamento de entre 3000 e 5000 tropas americanas para o Afeganistão, um mês depois de os EUA terem usado pela primeira vez “a mãe de todas as bombas”, a bomba convencional mais poderosa do Exército norte-americano, para destruir um sistema de túneis do Daesh naquele país.

Em comunicado, a principal porta-voz do Pentágono, Dana W. White, defendeu que armar os curdos é necessário para garantir que Raqqa é reconquistada ao grupo extremista “num futuro próximo”.

“Ontem, o Presidente autorizou o Departamento de Defesa a equipar os elementos curdos das Forças Democráticas da Síria [YPG], uma medida necessária para garantir uma clara vitória sobre o ISIS [Daesh] em Raqqa, na Síria.” No mesmo documento, White acrescentou que os EUA vão dar os passos necessários para assegurar que a Turquia não tenha de vir a enfrentar “riscos de segurança adicionais”.

Para já, o governo turco, que considera as forças curdas um grupo terrorista, ainda não reagiu publicamente ao anúncio dos norte-americanos. Também ainda não se conhecem as garantias que a administração Trump vai dar a Erdogan, o Presidente turco que, na próxima semana, vai a Washington encontrar-se com o homólogo norte-americano pela primeira vez desde que Trump tomou posse em janeiro.