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Internacional

Alemanha. Polícia prende mais um militar de extrema-direita

CLEMENS BILAN

Autoridades judiciais investigam conspiração de militares de extrema-direita que pretenderiam assassinar um antigo Presidente

A polícia alemã anunciou esta terça-feira a detenção de mais um suspeito de envolvimento numa conspiração para assassinar altos responsáveis políticos. Depois de um tenente do Exército e de um estudante sírio, as autoridades prenderam mais um militar.

Os dois militares já detidos, que pertencerão, alegadamente, a grupos de extrema-direita pretendiam culpar os refugiados pelos homícidios de altas individualidades. O tenente, por exemplo, conseguiu registar-se como refugiado sírio chegando mesmo a receber apoio financeiro do Estado alemão.

Segundo os procurados que investigam este caso, na lista de alvos a abater por parte dos extremistas está o antigo Presidente Joachim Gauck e o atual ministro da Justiça Heiko Maas.

Há cerca de cinco anos que a proliferação de radicais de extrema-direita nas Forças Armadas da Alemanha está a ser investigada. Entre 2012 e 2016, dos 280 militares alvos deste processo, 18 foram expulsos.

Na semana passada, a ministra da Defesa alemã, Ursula von der Leyen, decidiu mesmo avançar para uma reestruturação. “O Wehrmacht – o exército nazi – não tem nada em comum com o Bundeswehr – o Exército atual", sublinhou, de acordo com a agência EFE, a ministra ao visitar o quartel onde estava destacado Franco A., o tenente registado como requerente de asilo originário da Síria.

A detenção de Franco A. pôs em evidência as fragilidades dos serviços de imigração da Alemanha, que não detetaram a fraude e chegaram a pagar-lhe subsídios como refugiado.

Ursula von der Leyen cancelou uma viagem aos Estados Unidos para ir até à localidade de Illkirch, perto de Estrasburgo (França), e reunir-se com os superiores e camaradas do tenente, destacados numa brigada franco-alemã aí sedeada.

No quartel, a ministra visitou uma divisão com objetos do Wehrmacht. "O exército não pertence à tradição do Wehrmacht", afirmou Ursula von der Leyen, lembrando que que está a decorrer uma grande investigação, paralelamente à do Ministério Público, para qual é necessária "muita força e serenidade".

O porta-voz da chanceler Angela Merkel, Steffen Seibert, garantiu numa conferência de imprensa que Ursula von der Leyen, criticada no meio militar por questionar a competência do Exército na erradicação deste tipo de casos, tem o "apoio total" da chanceler.

Steffen Seibert defendeu que a grande maioria dos elementos das forças armadas realizam o seu trabalho exemplarmente, mas considerou "absolutamente correto" abrir-se uma investigação para esclarecer se a ideologia "racista e ultranacionalista" ou os abusos sexuais denunciados noutros quartéis são ou não casos isolados.

De acordo com dados do Ministério da Defesa, os serviços de informação militares investigam 280 casos de presumíveis militantes de extrema-direita elementos do Exército, motivo pelo qual 18 militares foram expulsos nos últimos cinco anos.

"Ainda que houvesse apenas um caso, seria demasiado", disse o porta-voz adjunto do ministério, Boris Nannt, que confirmou haver em 2014 provas de que Franco A. apoiava ideias de extrema-direita.

Nesse ano, Franco A. apresentou uma tese de mestrado com "expressões claramente extremistas" – chegava a falar do "genocídio" da população europeia ocidental devido à imigração –, mas os seus superiores decidiram dar-lhe uma segunda oportunidade para apresentar um novo trabalho, não foi aberto nenhum inquérito e o sucedido não ficou registado na ata militar do tenente.

A ministra da Defesa mostrou-se decidida a averiguar "como é possível que Franco A. tenha feito carreira durante tanto tempo no Exército" e a investigar as suas relações e ligações nas Forças Armadas.

A 26 de abril, o ministério confirmou a demissão do chefe de instrução do Exército por negligência na investigação de repetidas denúncias de abusos sexuais e outros rituais a que alegadamente os recrutas eram sujeitos pelos instrutores durante o processo de admissão.

Perante estes casos, o Ministério da Defesa encomendou um relatório exaustivo sobre assédio e discriminação no Exército, que deve esclarecer nos próximos meses se existem nas Forças Armadas "áreas escuras" ou se falta a necessária sensibilidade para detetar situações anómalas, denunciá-las e corrigi-las.

Por outro lado, o ministério do Interior também encomendou uma investigação à Agência Federal para as Migrações e os Refugiados, para esclarecer como pôde autorizar-se o pedido de asilo de Franco A., que não falava árabe, e perceber se poderá haver casos semelhantes.