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Internacional

Conflito no Sudão do Sul já roubou os lares a dois milhões de crianças

Paula Bronstein

Dos 1,8 milhões sul-sudaneses atualmente refugiados no Sudão, no Uganda, no Quénia e na Etiópia, 62% têm menos de 18 anos. A par deles, mais de um milhão de crianças foram deslocadas internamente pela guerra civil, em curso há quatro anos

A guerra civil no Sudão do Sul já forçou mais de dois milhões de crianças a abandonarem as suas casas, de acordo com dados atualizados da agência da ONU para os Refugiados (ACNUR) e do Fundo das Nações Unidas para as Crianças (Unicef).

Neste momento, dos 1,8 milhões de sul-sudaneses que já se refugiaram noutros países, sobretudo no Uganda, no Quénia, na Etiópia e no Sudão, 62% são menores. A par desses, mais de um milhão de crianças sul-sudanesas estão internamente deslocadas no seu país.

"Nenhuma crise de refugiados hoje é mais preocupante que a do Sudão do Sul", diz Valentin Tapsoba, diretor da ACNUR para o continente africano. "O facto de as crianças refugiadas estarem a tornar-se o rosto definitivo desta emergência é incrivelmente preocupante", acrescentou citado pela Al-Jazeera.

O Sudão do Sul, um país que nasceu em 2011 após se tornar independente do Sudão, está mergulhado numa sangrenta guerra civil desde dezembro de 2013, na sequência de divisões políticas entre a fação que apoia o atual Presidente, Salva Kiir, e o seu ex-vice no governo, Riek Machar. Desde então, dezenas de milhares de pessoas já perderam a vida e mais de 3,5 milhões de sul-sudaneses perderam as suas casas.

Os novos dados das agências da ONU foram avançados no mesmo dia em que um grupo que monitoriza o conflito avisou que a população de um terceiro condado do Sudão do Sul está em risco de morrer à fome. Neste momento, cerca de 100 mil pessoas estão sem acesso a comida e pelo menos um milhão de civis estão à beira da fome.

De acordo com a Rede de Sistemas de Aviso Prévio contra a Fome, o condado de Koch está prestes a entrar em colapso alimentar, numa altura em que a ONU já declarou oficialmente que há uma situação de emergência por causa da escassez de comida em dois outros condados do país, Leer e Mayendit.

No seu mais recente relatório, a organização não-governamental diz que é provável que a fome se alastre a outras partes do país entre julho e setembro, altura em que a ausência de chuva e as elevadas temperaturas impossibilitam as atividades agrícolas na região. Sem ajuda humanitária urgente, alerta o grupo, a fome pode ser oficialmente declarada em várias outras áreas do Sudão do Sul.

Na guerra civil em curso há quatro anos, a distribuição de ajuda humanitária tem sido bloqueada em algumas partes do país. As lutas intensivas no terreno a par da crise alimentícia criaram uma das piores crises humanitárias atualmente registadas em todo o mundo.

Há uma semana, os Estados Unidos responsabilizaram Kiir pela fome "provocada" pelo conflito, pedindo ao governo que cumpra a promessa de implementar um cessar-fogo unilateral de um mês. "Temos de ver sinais de que é possível alcançar progressos", declarou Samantha Power, embaixadora da administração Trump na ONU, num encontro do Conselho de Segurança dedicado à situação no Sudão do Sul na terça-feira da semana passada. "Temos de ver um cessar-fogo implementado."