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O messias

FOTO Chesnot/Getty Images

Emmanuel Macron entrou de rompante na corrida ao palácio do Eliseu. Para muitos eleitores franceses é o único candidato capaz de salvar o país da deriva populista da extrema-direita. O que acontecer em França pode ser crucial para o futuro da Europa

Olhar iluminado em direção ao céu, sorriso franco e venturoso, braços e mãos abertas num largo abraço aos milhares de verdadeiros fiéis, que visivelmente o adoram. É estonteante, muitas pessoas parecem hipnotizadas, mas é de facto assim que as coisas se passam em cada um dos muito concorridos comícios de Emmanuel Macron. É preciso ver para crer. “Amo-vos ferozmente”, lança por vezes o candidato presidencial à assistência, que lhe agradece, boa parte dela em delírio. Muitos dos presentes, alguns deles “convertidos” ao ‘macronismo’ muito recentemente, parecem quase em êxtase. “Macron pensa que é um guru político”, acusam alguns dos seus adversários. Ele é, sem dúvida, o fenómeno da primeira fase da campanha presidencial francesa.

As suas reuniões públicas são completamente diferentes das de todos os outros concorrentes ao Eliseu porque tocam a transcendência e o seu estilo é único. Apesar da diminuta experiência política que tem, Macron é por agora, o favorito para o Eliseu. Mas tudo pode ainda acontecer nesta campanha, que tem sido pródiga em sobressaltos e surpresas.

O candidato Emmanuel Macron tem um carisma inegável e assume de forma desassombrada a dimensão messiânica, por vezes até crística (no mínimo, marcadamente mística), que a sua postura transmite. “A política é mística, não procuro ser um pregador crístico, mas não renego a dimensão crística, embora não a reivindique”, diz numa surpreendente entrevista ao “Journal du Dimanche”.

Mítico. Emmanuel Macron tem um carisma inegável e assume de forma desassombrada a dimensão messiânica, por vezes até crística

Mítico. Emmanuel Macron tem um carisma inegável e assume de forma desassombrada a dimensão messiânica, por vezes até crística

FOTO CHARLET/AFP/Getty ImageS

“Como se constrói o poder carismático? Com uma mistura de coisas sensíveis e de coisas intelectuais. Assumi sempre a dimensão da verticalidade, da transcendência (…). Não creio na transcendência etérea. É preciso misturar as duas, a inteligência e a espiritualidade porque, senão, a inteligência é sempre infeliz, as pessoas sentem sensações mas apenas no sentido de paixões tristes, tais como o ressentimento, o ciúme, etc. É preciso dar uma intensidade às paixões felizes”, acrescenta.

O antigo ministro da Economia dos socialistas Manuel Valls e François Hollande, suspeito de ter traído ambos quando decidiu candidatar-se ao Eliseu, tem algo de impressionante e intrigante. É mesmo preciso assistir ao vivo a um dos seus muito longos shows, que são um misto dos dos políticos americanos e dos pregadores religiosos brasileiros, para se perceber o que aqui se descreve. Termina quase todos os seus discursos com os braços cruzados sobre o peito. Mesmo quem não assiste aos seus meetings e os segue apenas pela TV, fica baralhado. Jean-Luc Mélenchon, candidato da esquerda radical, diz que ele é um “cogumelo alucinogénico”. Já François Fillon, o concorrente da direita que está atolado num processo judicial de alegados empregos fictícios da família mais próxima, fica-se pela acusação de que ele é “um guru”. Macron é verdadeiramente uma figura ímpar no mundo político francês e europeu. Reparem: “Deus fala-lhe?”, pergunta-lhe a jornalista do “Journal du Dimanche”. Ele responde: “Não (...). Não tenho a certeza que Deus tenha algum dia falado. No fim, são vozes que nós próprios criamos (...). Eu sei dizer o que se pode dizer sem nada revelar (...). Não separo Deus do resto. Faço a ligação entre a transcendência e a imanência.”

Viver em pecado

Estas declarações parecem espantosas, mesmo para um político moderado de esquerda, ou mesmo num social-democrata, centrista de esquerda ou de direita, como ele também já foi qualificado. Neste aspeto, sobre a sua difícil caracterização política, ele prefere dizer que nem é de esquerda nem de direita e que é o homem que quer acabar com as divisões entre os franceses e unir a França. Diz que a bipolarização tradicional entre a esquerda e a direita está ultrapassada e baralha ainda mais os traços do seu perfil com as referências ao sagrado na formação da sua personalidade. Ele parece acreditar a sério que é o homem providencial, aquele que vai travar Marine Le Pen e o seu nacionalismo exacerbado e resolver os problemas da França e da Europa. É um europeísta convicto, defende o euro e as regras europeias sobre os défices.

Na realidade, intimamente, Macron dá a entender que vive com temor a Deus e até, segundo parece, receia ter vivido em pecado, no passado. Na mão esquerda exibe a aliança de homem casado com a sua antiga professora de teatro e de literatura, Brigitte Trogneux, hoje reformada, 24 anos mais velha do que ele (Macron tem 39 anos). Na mão direita tem um outro anel. Que significa? “Vivi longo tempo fora do casamento”, responde.

Macron casou-se com Brigitte Trogneux em 2007 e é hoje um jovem avô de seis netos. Quando se apaixonou pela professora, ainda no liceu e pouco depois se tornou seu amante, ela era casada, tinha três filhos, um deles colega de Macron na escola, e um marido — daí o pecado que sugere e a que ele vagamente alude. Os seus netos são descendentes dos filhos, todos eles já adultos, do primeiro casamento de Brigitte. Esta relação, alguns anos clandestina, com a professora valeu-lhe problemas sérios com as famílias de ambos e a censura social. É o próprio Emmanuel Macron que conta este momento-chave da sua vida no seu livro “Révolution”, publicado em 2014 pelas edições XO. Nesta obra, evoca o amor quase à primeira vista e a grande “cumplicidade intelectual” entre ambos. Brigitte é, ainda hoje, sublinha o seu staff, uma das suas principais conselheiras, corrigindo designadamente os seus discursos. Ela e um barítono, este último pago, ensinaram-no também a aprender a colocar a voz para os seus discursos públicos serem mais eficazes. Aparentemente, o amor entre ambos continua, apesar das recentes notícias, desmentidas por Macron, de que ele seria homossexual.

Emmanuel parece ter sido tocado pela graça e, provavelmente, encontrou o seu próprio caminho político ao decidir sair do Governo socialista em 2016. Acreditou num destino mais elevado e lançou o Em Marcha, o movimento que fundou logo depois de se ter demitido do Executivo, em conflito com o primeiro-ministro, Manuel Valls, e o Presidente, François Hollande. Estes tinham-no tirado do anonimato do sector da grande banca de negócios e investimentos (ele era um quadro superior no banco Rotschild) e do lugar cinzento de conselheiro económico e de secretário-geral-adjunto do Eliseu para o nomearem ministro da Economia, em 2014.

Apesar de ‘vallsistas’ e ‘hollandistas’ o apelidarem em privado de “o pequeno traidor”, as suspeitas sobre a sua desmesurada ambição e estas insinuações pesam pouco junto dos franceses. A história das carreiras políticas está recheada de traições em França e no mundo, e Macron não é o primeiro nem será o último dos traidores. Ele está sem dúvida em marcha acelerada e arrasta muita gente com ele. Mesmo no PS as críticas ao candidato ouvem-se pouco. Algumas dezenas de socialistas, mas de segundo plano, até o apoiam agora publicamente, porque ele está na mó de cima, evidentemente. Os planetas da galáxia política francesa parecem, de momento, posicionados a favor de Macron — o descalabro de François Fillon e a eleição do ‘esquerdista’ Benoît Hamon como candidato do PS abriram-lhe aparentemente uma autoestrada centrista, sem portagens nem controlo de velocidade, para atingir o Eliseu.

“O programa não é o coração 
de uma campanha”

No entanto, o candidato tem alguns problemas importantes pela frente para continuar a manter-se na crista da onda da campanha policial. Um deles é que ainda não apresentou o programa da sua candidatura ao Eliseu e os seus adversários e alguns analistas não se cansam de o sublinhar. “É só conversa sobre a união dos franceses, dos gaullistas aos socialistas, mas isso não chega para ganhar a presidência”, dizem em resumo diversos comentadores. O candidato promete publicar a plataforma programática no fim de fevereiro, início de março, mas ele sabe que os eleitores ligam pouco aos programas políticos, que são quase sempre rasgados depois de se ganhar e de chegar ao poder. Também neste domínio, Macron tem uma posição muito particular. “É um erro pensar que o programa é o coração de uma campanha. A comunicação social passa de um comentário sobre um pequeno pormenor do programa às piores polémicas, e daí em diante.”

Tem a trabalhar com ele, para escrever o programa, conselheiros de grande nomeada, como os economistas Jean-Pisani Ferry e Pascal Lamy, ou dois conceituados sherpas de presidentes, ambos mais ou menos ligados à política e à economia, Jacques Attali ou Alain Minc. O primeiro já falou sobre o programa que ainda não foi divulgado e foi esclarecedor: “O nosso projeto não é socialista.” Quanto a Attali, antigo conselheiro especial do falecido presidente socialista, François Mitterrand, é um homem controverso, mas é um amigo pessoal que Macron ouve atentamente. Attali é um conceituado intelectual francês que nos últimos anos se tem mantido numa certa reserva porque o seu nome chegou a estar envolvido no “Angolagate” (escândalo de comissões ocultas a diversas personalidades francesas num caso de venda de armas russas ao regime angolano). O seu processo foi arquivado por falta de provas. Attali recebera do Governo angolano um milhão de dólares em pagamento de um parecer de algumas páginas sobre o microcrédito em Angola, escrito depois de uma viagem a Luanda de menos de 24 horas. Já Alain Minc vê em Macron um destino fora do comum. Também dissera o mesmo sobre Nicolas Sarkoy, que ele apoiou no passado. Um dia, numa entrevista ao Expresso, chegou a prever que Sarkozy seria o Bill Clinton da Europa.

Paixão. Macron é casado com a sua antiga professora de teatro e de francês que conheceu quando tinha 15 anos. Brigitte Trogneux, hoje reformada, é 24 anos mais velha

Paixão. Macron é casado com a sua antiga professora de teatro e de francês que conheceu quando tinha 15 anos. Brigitte Trogneux, hoje reformada, é 24 anos mais velha

FOTO MARTIN BUREAU/AFP/Getty Images

Emmanuel Macron, social-democrata liberal que se diz “não conformista”, reúne apoios dos mais variados sectores políticos e económicos, excluindo os da extrema-direita e da extrema-esquerda. O seu telefone, dizem, não para de tocar. Quase toda a gente “que conta” diz-se fascinada com ele — de banqueiros a patrões e a muitos idosos intelectuais, antigos animadores da revolta de Maio de 68 e aos filhos destes últimos. A dois meses da eleição, o Eliseu parece ao seu alcance e ele é uma força centrípeta, jovem, atraente, sedutora, moderna, nada agreste. Mas, neste domínio dos apoios, enfrenta também alguns problemas que não tem conseguido resolver. Um deles é importante e está relacionado com o PS. Manuel Valls, o antigo primeiro-ministro derrotado (e humilhado) pelo ‘esquerdista’ Benoît Hamon, pediu aos seus apoiantes para não abandonarem o PS e para não irem já a correr ajudar o candidato que não concorreu às primárias socialistas. A realidade é esta: Valls não gosta de Macron e será o PS, e não o Em Marcha, que vai nomear os candidatos às legislativas de junho, que se seguirão às presidenciais de abril e maio (primeira e segunda voltas).

Até agora, só algumas, poucas, figuras históricas socialistas, como Gérard Colomb (presidente da Câmara de Lyon, 70 anos e que já não tem nada a perder na política), decidiram oficialmente passar de armas e bagagens para o campo de Macron. A “máquina” do PS resiste a deslocar-se para o lado de Macron. A larga maioria dos socialistas está à espera das sondagens e dos próximos desenvolvimentos de uma campanha que tem sido recheada de surpresas, que podem ainda não ter terminado. Desde as primárias socialistas, Benoît Hamon ganhou repentinamente oito pontos nas sondagens, está neste momento em quarto nas intenções de voto para a primeira volta das presidenciais, atrás de François Fillon, e continua a negociar — dificilmente, mas está a negociar — com os ecologistas e os comunistas uma espécie de “programa comum” para as presidenciais e, sobretudo, a constituição das listas eleitorais… para as legislativas, as eleições que verdadeiramente vão dar empregos a centenas de pessoas de esquerda. Ora, todo este sector — Hamon, em conjunto com os ecologistas e Jean-Luc Mélenchon (apoiado pelos comunistas e pela esquerda radical) — tem, somadas todas as intenções de voto das sondagens, mais do que Macron e chega ao empate com Marine Le Pen, que continua firme em primeiro lugar... No PS, poucos querem dar passos em falso porque são os empregos e a sua sobrevivência pessoal — bem como a do partido — que estão em jogo.

Aos cinco anos recitava 
em voz alta textos eruditos

Emmanuel Macron constata que o PS não implodiu depois das primárias e que a procissão eleitoral para as presidenciais ainda não saiu do adro da igreja. Nesta situação, tem sido aconselhado, até à divulgação do seu programa, a prosseguir na via que até agora lhe possibilitou uma fulgurante notoriedade e surpreendente ascensão. Em termos de conteúdo, tudo se tem resumido, nos seus comícios, à enumeração de alguns grandes princípios. Ecologia: “Somos ecologistas, não queremos bloquear o progresso, mas somos ecologistas porque somos fraternos com os nossos semelhantes.” Política: “Não digo que a direita e a esquerda já não existem, mas as clivagens não serão ultrapassáveis?” Economia: “Temos de limitar os excessos do capitalismo.” O candidato não abre o jogo, mas não poderá manter-se eternamente neste registo demasiado vago e ambíguo.

Seja como for, o nome de Emmanuel Macron está em todo o lado, só se fala nele em França e no estrangeiro. De momento, a sua estratégia funciona bem: não diz mal de ninguém, mesmo sobre François Fillon ou Marine Le Pen fala com pinças, evoca a honra dos funcionários públicos, discorre sobre temas unânimes em França, como a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Defende a “revolução democrática”, enunciação que desenvolve no seu livro. Por vezes, a palavra “revolução” aparece nos ecrãs dos seus comícios, mas nunca com fundo vermelho. Ele prefere a revolução engalanada com cores como lilás ou turquesa.

Um barítono ensinou-o a projetar a voz e alguém lhe terá dito que nunca deve baixar o olhar. Quando discursa, olha sempre para cima, quando fala com as pessoas fixa-as olhos nos olhos, com os seus, azuis, bem abertos. Apresenta-se sempre como um sonhador, um naïf um pouco angélico que, no entanto, galvaniza plateias. Os media adoram-no. Falta-lhe experiência e autoridade, como tinha por exemplo Manuel Valls, quando fala sobre assuntos como terrorismo — o antigo primeiro-ministro disputava com ele o eleitorado de centro-esquerda — mas, por enquanto, o seu projeto tem estado em inegável marcha meteórica para tentar chegar à vitória.

Emmanuel Macron é inteligente e tem uma formação cultural sólida. Estudou num liceu privado de jesuítas (chamado La Providence) em Amiens (norte da França), onde nasceu no seio de uma família burguesa e rica. Foi quando era adolescente e estudante liceal, por volta dos 15 anos, que ele se apaixonou por Brigitte, então sua professora de teatro e de francês. Ela própria recordou recentemente o aluno brilhante, numa entrevista: “Era um adolescente que não era como os outros, discutia com os professores, andava sempre carregado de livros, não era na verdade um adolescente, já tinha então uma relação de igual para igual com os adultos.”

O candidato presidencial — que tem um Diploma de Estudos Aprofundados em Filosofia, cursos no Instituto de Ciências Política e na Escola Nacional da Administração, duas instituições que são verdadeiras “fábricas” de políticos e altos funcionários franceses — começou cedo a gostar de literatura e de filosofia. No livro “Révolution”, que é dececionante em termos de ideias e pobre do ponto de vista político, escreve algumas coisas curiosas. Revela que aos cinco anos de idade passava todos os dias horas com uma avó, cujo nome não revela, a estudar gramática, história e filosofia, bem como a ler e a recitar em voz alta textos de Molière, Racine, Mauriac, Colette e Giono.

É poético quando escreve que foi com esta avó, aparentemente determinante para a sua vida, que “com Colette aprendi o que é um gato ou uma flor, e com Giono o vento frio da Provence e a verdade dos carácteres”. No livro, cita mais sete pessoas que o influenciaram: Brigitte, a mulher; o filósofo Paul Ricouer, com quem estudou e trabalhou como assistente em Ciências Políticas; Henry Hermand, rico homem de negócios que lhe ensinou “concretamente as coisas”, lhe emprestou dinheiro para comprar o seu primeiro apartamento em Paris e lhe apresentou Michel Rocard, figura histórica do socialismo reformista francês, com quem ele conviveu durante 15 anos; Jacques Attali, que conheceu em 2007, quando foi inspetor-geral das Finanças; David de Rotschild, com quem trabalhou no banco de negócios com o mesmo nome e no qual, diz, “aprendi uma profissão, ganhei bem a minha vida, sem ter feito uma fortuna que me dispensaria de trabalhar”; cita por último também François Hollande. Deixou o banco em 2012 para trabalhar com o Presidente então recentemente eleito, como secretário-geral-adjunto do Eliseu, em particular na gestão das pastas da zona euro e da economia. Teve aí, na altura, problemas para encontrar o seu espaço entre os diversos conselheiros do Eliseu, entre eles o jovem lusodescendente, Philippe l’Église Costa, que era o encarregado dos Assuntos Europeus.

A “traição”aos socialistas e os “pequenos arranjos entre subalternos”

Passou a ministro da Economia, substituindo o ‘esquerdista’ Arnaud Montebourg, em 2014. Saiu do cargo menos de dois anos depois, alegando divergências, mas ele não gosta muito de se alongar em explicações sobre este período conturbado da sua curta carreira política. Sobre a alegada traição a Hollande e a Valls, apenas escreve: “Quando se diz que eu deveria obedecer ao Presidente como uma máquina, renunciar às minhas ideias simplesmente porque ele me nomeara ministro, o que se quer dizer? Que a ideia do bem público deve apagar-se perante a do serviço prestado.” Já sobre uma famosa declaração do Presidente Hollande a seu respeito na altura da sua demissão — “ele (Macron) sabe o que me deve”— é um pouco mais claro: “Atribuo à distração a frase do Presidente sobre a dívida que eu teria para com ele. Sei que ele defende a dignidade das funções públicas e os valores da vida política republicana para aderir, nem que fosse por um instante, a uma conceção deletéria de pequenos arranjos entre subalternos.”

Carisma. Os seus seguidores parecem ficar hipnotizados com o tom do seu discurso. “Macron pensa que é um guru político”, acusam alguns dos seus adversários

Carisma. Os seus seguidores parecem ficar hipnotizados com o tom do seu discurso. “Macron pensa que é um guru político”, acusam alguns dos seus adversários

FOTO Jean-Paul Pelissie/REUTERS

Sabe tocar piano muito bem — obteve o terceiro prémio como pianista no conservatório de Amiens. Os pais eram médicos e professores e ele aderiu ao PS aos 24 anos. Deixou de pagar as cotas poucos anos depois e hoje não é do partido. Se fosse teria sido expulso por ter recusado disputar as primárias organizadas pelos socialistas, ganhas por Benoît Hamon, um dos líderes da ala esquerda, que ele abomina. Hamon retribui-lhe a aversão política e pessoal. “Ele deveria divulgar quem são os seus financiadores, para as coisas ficarem claras”, diz o candidato socialista. “Macron é suspeito de ser o candidato da finança”, garante ao Expresso Pascal Cherki, um dos porta-voz de Hamon, que acrescenta: “Hamon quer unir a esquerda, está a falar com toda a gente e também discutirá com Emmanuel Macron, se ele disser que é de esquerda.”

Na sua equipa mais próxima tem poucos socialistas de primeiro plano, alguns antigos conselheiros gaullistas, membros do seu gabinete no ministério da Economia e diversos patrões e intelectuais. Alain Minc diz que votará nele por “ser o único candidato verdadeiramente europeu”. No entanto, este empresário e escritor acrescenta: “Se Alain Juppé tivesse vencido as primárias da direita não existiria o assunto Macron.” Para este conhecido conselheiro de muita gente da área do poder, o candidato deseja, tal como Juppé, “fazer a aliança de pessoas razoáveis dos dois campos mas ele não deve deixar-se submergir pela esquerda, seria comprometedor, tem de prestar muita atenção porque não pode transformar-se no pneu sobressalente, de socorro, da esquerda”.

Novas surpresas são ainda possíveis

Devido à estranha conjuntura político-partidária francesa, Emmanuel Macron transformou-se na figura central da campanha eleitoral e parece de facto o último recurso da esquerda moderada, dos centristas e de uma certa parte da direita que se desligou de François Fillon. Também não mete medo aos patrões, ao contrário de Hamon, Mélenchon e Marine Le Pen. No mundo, o seu nome também não assusta ninguém apesar da sua nula experiencia em assuntos internacionais. Foi recebido na segunda-feira, 13 de fevereiro, em Argel, com toda a pompa e circunstância, como se fosse já o chefe do Estado francês.

Mas nada ainda pode ser dado como certo, apesar de todas as sondagens o darem como vencedor claro, na segunda volta das presidenciais, num eventual duelo com Marine Le Pen. A líder da Frente Nacional acusa-o de ser o candidato das elites, do sistema e do establishment. “Ele é um servidor zeloso das superpotências financeiras e da globalização”, diz Marine. Macron enfrenta também críticas de uma parte dos centristas. François Bayrou, chefe histórico deste sector, denuncia a “ambiguidade” em torno do seu programa, reconhece a afirmação do fenómeno mas pensa que ele será “uma bolha” que poderá rebentar a qualquer altura. Bayrou ainda não decidiu se concorre às presidenciais e, se o fizer, será um problema para Macron porque lhe disputará os votos dos centristas na primeira volta.

Certamente por ser pouco claro nas suas propostas, por não ter divulgado o programa e por a sua personalidade política estar ainda longe de uma límpida definição, Macron conhece uma pequena baixa nas mais recentes sondagens. Uma delas, publicada pela revista “Paris Match” no dia 13 de fevereiro dá-o quase taco a taco com Fillon para a primeira volta — 19,5% contra 18%. O mesmo estudo coloca Marine Le Pen largamente à frente de todos, com 26%. Hamon surge em quarto lugar com 14,5% e Mélenchon em quinto com 11,5%. E se Hamon e Mélenchon se entenderem num “programa comum”? E se Bayrou se candidatar? A dois meses do escrutínio, o jogo das presidenciais francesas está muito mais aberto do que por vezes se pensa e novas surpresas e sobressaltos ainda são possíveis até aos dias do voto — 23 de abril e sete de maio (primeira e segunda voltas).

Depoimentos

Marina Costa Lobo

Marina Costa Lobo

“Fim do sistema partidário”

Macron simboliza a degenerescência do sistema partidário francês. Apesar de ter sido ministro de Hollande, não disputou as primárias do PS, apresentando-se como um candidato independente, centrista e europeísta. Enquanto tal, a sua vitória nas presidenciais francesas seria simbólico do fim do sistema partidário francês enquanto tal. A serem ele e Le Pen os dois candidatos na segunda volta, tratar-se-ia de um realinhamento ideológico em torno de dois grandes polos — um nacionalista-conservador representado por Le Pen e outro cosmopolita e liberal representado por Macron. Até agora, a sua performance nas sondagens é também sinal do resultado de um mediatismo exacerbado da política europeia que depende de narrativas “pessoais” mais do que de percursos longos, partidários e ideologicamente consistentes.

Miguel Monjardino

Miguel Monjardino

“Corre como um outsider”

Emmanuel Macron tem tido um desempenho excelente e de certa maneira também tem sido uma surpresa o sucesso que tem tido e a popularidade que já alcançou. Isso deve-se em parte à fragmentação da esquerda francesa e que virou ainda mais à esquerda. É por isso que saiu do seu partido e concorre como independente. Corre como um outsider. Mas será que é possível em França ganhar sem ter o apoio de uma máquina partidária? Essa é a questão. Penso que tudo vai depender muito das figuras políticas que aceitarem agora dar a cara por ele. Confesso que inicialmente olhei para a candidatura dele como uma ambição de concorrer às eleições seguintes. Agora, temos todos de reconsiderar essa análise. Macron apresenta uma agenda otimista para a França e é o único político da nova geração a propor à sociedade uma nova visão para o futuro. Talvez tenha chegado a altura de o ouvir.

Paulo Rangel

Paulo Rangel

“Reformista liberal”

Os dois acontecimetos do início do ano em França, a eleição pelos socialistas de um candidato muito à esquerda, e os escândalos ligados a Fillon, favorecem muito a retórica, estratégia e estilo de propaganda de Marine Le Pen. É nesse contexto que a figura de Macron emerge com mais força e com ela a ideia de que é preciso renovação. Ele não pertence ao establishment político francês, representa o centro geográfico desse sistema, situando-se entre os moderados socialistas republicanos. É um socialista reformista liberal que vai pegar em parte da agenda de Fillon, um europeísta convicto e, nessa matéria não faz qualquer concessão ao discurso de Le Pen, que também não o pode atacar com a ideia de um sistema corrupto. Defende que os problemas da França se resolvem no contexto da UE e defende a França como motor da UE. Se for eleito irá buscar pesos pesados à direita e à esquerda e com essa garantia colmatará a sua inexperiência.

Telmo Correia

Telmo Correia

“Personagem reunificadora”

Macron é um candidato atípico. Com um estilo e uma postura particular vai buscar elementos à esquerda e elementos à direita para criar um programa muito liberal e virado para uma sociedade moderna. Defende uma espécie de social-democracia moderna. Demarca-se dos conservadores, dizendo que a economia tradicional não é solução. Europeísta assumido, aposta em refazer o eixo franco-alemão e propõe como solução mais Europa. Tem uma imagem jovem, diferente da dos políticos tradicionais. E tem vindo a beneficiar de um conjunto de circunstâncias que lhe foram abrindo caminho. Hoje poderá mesmo ser visto como o candidato que fará frente a Marine Le Pen na clássica segunda volta das eleições presidenciais francesas. Acredito que possa ser o candidato que consiga criar consenso, que seja a personagem incomum e reunificadora.

Francisco Louçã

Francisco Louçã

“Tony Blair radical”

Macron é ainda um pouco um mistério. Surge com a dupla faceta de ter ganhado milhões no banco Rothschild e de ser o ministro da Economia de Hollande que provocou uma greve geral em França. Ele é uma espécie de Tony Blair radicalmente liberal. A sua ascensão no cenário eleitoral às presidenciais francesas só acontece e só será viável devido ao colapso do sistema político francês. Mas tudo é ainda muito volúvel. É um fenómeno como Trump. Ninguém diria que ele seria o candidato a concorrer com Marine Le Pen, toda a gente apostaria em Alain Juppé ou Manuel Valls. A sua eleição, contudo, cria uma situação única na V República: um homem sem partido que põe fim à configuração política que vem do pós-guerra e que pode associar-se a uma instabilidade fruto de uma visão tão radical. É preciso prudência e perceber o terramoto em que se está a mover a França. Macron é ainda o sonho para a finança francesa, capaz de ir mais além do que o Hollande mais radical.

Francisco Assis

Francisco Assis

“Falta de identidade política”

Estas eleições presidenciais são de tal forma estranhas e singulares que Macron tem reais possibilidades de ganhar. Tem a seu favor o problema grave da direita, com o candidato Fillon na sua obstinação de ir até ao fim e a perder toda a popularidade com a descredibilização de que foi alvo, mas também o facto de a esquerda se apresentar demasiado tradicionalista e ideologicamente demasiado à esquerda. Assim, é natural que o eleitorado de centro-esquerda apoie este independente. Mas Macron peca por uma insuficiência: não tem uma identidade política definida. Curioso é que essa indefinição programática e doutrinária não o esteja por enquanto a prejudicar. Apresenta propostas inovadoras e representa uma esquerda mais aberta do ponto de vista económico e até social. Mantém os valores da República. Mas chega a ir mais longe do que as reformas mais polémicas de François Hollande em matéria de liberalização do mercado de trabalho, por exemplo, ou na aposta económica dentro de um mundo global.

Depoimentos recolhidos por Alexandra Carita