Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O futuro da Europa começa a decidir-se hoje

Uma análise de Daniel Oliveira, publicada na Revista do Expresso ainda antes da primeira volta das eleições presidenciais francesas, mostra os caminhos que a Europa e o euro podem seguir a partir de hoje

Esta campanha está poluída pelo dinheiro”, disse o socialista Benoît Hamon no debate televisivo com cinco candidatos, a 20 de março. “Pas moi!”, respondeu Jean-Luc Mélenchon, o candidato mais à esquerda. “Aqui há duas pessoas que estão preocupadas: o senhor Fillon e a senhora Le Pen. Os outros três não têm nada a ver com isso. Não nos metam no mesmo saco.”

De cada vez que se fala de um escândalo, a câmara foca em François Fillon, o antigo primeiro-ministro de Sarkozy. Um casamento perfeito entre a escola de jesuítas e a Harvard Business School, onde estudou: família e dinheiro, como garante a constelação de homens do poder financeiro e de beatos que ainda o cercam. Mas foi essa conjunção — família e dinheiro — que o tramou. Depois da suspeita de utilização de dinheiros públicos para empregos fictícios da mulher e dos filhos, a imagem de Fillon levou um enorme abalo. Laurent Joffrin, editorialista do “Libération”, resumiu assim a contradição de um candidato que usou casos judiciais contra Sarkozy: “‘Não imaginamos o general De Gaulle indiciado’, disse François Fillon. Nós também não imaginamos Yvonne de Gaulle acusada de ter um emprego fictício.” Marine Le Pen também foi acusada de usar o Parlamento Europeu para financiar funcionários da Frente Nacional. Mas, como se viu com Trump, este tipo de escândalos não afeta a performance eleitoral deste tipo de candidatos.

Abatido por semanas de massacre, Fillon apareceu apagado nos debates. As suas propostas económicas e laborais são mais audazes, mas muito do que ele propõe já Macron começou. As suas posições sobre imigração são encostadas à direita, mas sempre mais tímidas do que as de Le Pen. Fillon não consegue mais do que ser uma cópia desbotada de Le Pen ou uma cópia berrante de Macron. Mas seria um erro pensar que Fillon está fora de jogo.

Impulsionada pela versão francesa do Tea Party, que liderou a “Manif pour Tous” na resistência à legalização do casamento entre pessoas do mesmo sexo, a vitória deste conservador nas primárias significou um ressurgimento da direita do ancien régime.

“Merkron”. Depois de ter recebido Fillon, a chanceler Angela Merkel desafiou as regras de camaradagem entre partidos irmãos e, em plena campanha, a 16 de março, também recebeu Emmanuel Macron em Berlim, longe das câmaras de televisão. O “Markozy” (a aliança entre Merkel e Sarkozy que permitiu à chanceler alemã reforçar o seu poder na União) ameaça tornar-se o “Merkron”

“Merkron”. Depois de ter recebido Fillon, a chanceler Angela Merkel desafiou as regras de camaradagem entre partidos irmãos e, em plena campanha, a 16 de março, também recebeu Emmanuel Macron em Berlim, longe das câmaras de televisão. O “Markozy” (a aliança entre Merkel e Sarkozy que permitiu à chanceler alemã reforçar o seu poder na União) ameaça tornar-se o “Merkron”

FOTO JOHN MACDOUGALL/AFP/Getty Images

No outro pilar da política francesa, o PSF, Hamon não teve a sorte de contar com infiltrações exteriores. Só teve direito a fugas. Ao contrário de Jeremy Corbyn, a vitória de Benoît Hamon nas primárias não resultou de um movimento de revolta contra a elite socialista. O PS está demasiado enfraquecido para reagir. E é por isso que parte do establishment socialista não teve dificuldade em ignorar o resultado das primárias. Não foi apenas Manuel Valls. O antigo presidente da Câmara de Paris Bertrand Delanoë, o presidente da Assembleia Nacional Claude Bartolone, o ministro da defesa Jean-Yves Le Drian, o ministro da Agricultura e porta-voz do Governo Stéphane Le Foll e o ministro dos Negócios Estrangeiros Jean-Marc Ayrault (este decidiu manter-se neutro) seguiram o mesmo caminho. Para Hamon, deixaram um partido em ruínas e uma herança política que ninguém quer.

Sinal da crise dos partidos, até a esquerda de origem marxista teve de deslaçar as amarras orgânicas. A França Insubmissa, base de apoio de Jean-Luc Mélenchon, conta com 2800 grupos espalhados pelo país, 290 mil signatários e uma impressionante e crescente capacidade de mobilização. Apesar de grande parte da máquina ser garantida pelos partidos tradicionais da esquerda radical que apoia Mélenchon, a adesão é fluida, como parece ser a tendência de todos os movimentos que tentam crescer. Uma desvinculação que se faz sentir em propostas políticas de estilo basista, como uma Assembleia Constituinte parcialmente composta por delegados e pessoas escolhidas por sorteio, um referendo revogatório que permita afastar eleitos a meio do mandato ou a transformação dos votos brancos em lugares vazios no parlamento. Mas o seu súbito crescimento não se deve a nenhuma destas bizarrias. Nem às suas simpatias bolivarianas ou aos seus discursos dúbios sobre Putin e Assad, que agradam aos que desejam o regresso da autonomia diplomática francesa. Deve-se às dificuldades de Hamon e ao carisma de Mélenchon, que o fez brilhar nos debates e na campanha. Ao abandonar a postura arrogante e zangada das eleições de 2012, começou a assustar menos os franceses. Até já cita De Gaulle ou Mitterrand.

A Frente Nacional foi a única que pouco ou nada se esforçou para maquilhar o seu espaço político. Esse trabalho foi feito quando Marine Le Pen sucedeu ao seu pai. Poliu o discurso, retirou-lhe a ganga antissemita e importou a agenda social da esquerda. Sem ter de se preocupar com o risco de ser apeada, num partido dinástico, ela teve e vai continuar a ter o tempo necessário para tornar a extrema-direita cada vez mais “respeitável” aos olhos dos franceses mais cansados.

Seja qual for o resultado, as eleições francesas já dão todos os sinais de desconforto. A crise da imagem dos partidos é só um deles. No limite, pelo menos até há uma semana, a segunda volta poderia vir a ser disputada pelos dois candidatos das margens do sistema (Marine Le Pen e Jean-Luc Mélenchon). De resto, temos um Presidente (Hollande) que não se recandidatou, o anterior presidente e o anterior primeiro-ministro (Sarkozy e Valls) derrotados nas primárias, dois candidatos que fizeram parte de um governo (Macron e Hamon) que não o querem assumir como seu, dois candidatos da direita (Fillon e Le Pen) atingidos por escândalos, a possibilidade de nenhum dos dois campos ideológicos tradicionais (os republicanos, de Fillon, e os socialistas, de Hamon) chegarem à segunda volta e um dos principais candidatos à vitória (Macron) com um “partido” acabado de estrear e sem um apoio parlamentar futuro muito claro. Os sinais de desconforto em relação ao sistema são de tal forma perturbadores que é possível que, no meio da cacofonia, tudo pareça mudar para que tudo vá ficar na mesma. E o “na mesma” é a grande novidade desta campanha: Emmanuel Macron.

Uma startup política

“En Marche!”, o movimento que suporta a candidatura de Macron, é uma espécie de startup política, composta por muitos empresários, jovens dinâmicos e com imenso dinheiro. Ludovic Mendes, responsável por uma rede de jovens do movimento, citado numa investigação do jornalista Allan Popelard no “Le Monde Diplomatique”, explica: “Tradicionalmente, os empresários estão ausentes das organizações políticas. Ora, como homens livres que fazem escolhas livres, eles contribuem com a sua experiência, o seu sentido de organização, a sua maneira de agir.” A expressão startup é deles e o mesmo Ludovic Mendes aponta o caminho: “Se queremos lutar contra a abstenção temos de liberalizar os partidos.” A forma do movimento corresponde à imagem que Macron quer passar de si mesmo. Logo a abrir o debate de 20 de março, o ex-ministro fez questão de sublinhar que chegou há poucos anos à política: “Estou aqui porque trabalhei, evolui, fui funcionário, banqueiro e decidi servir o meu país.”

Depois de passar pelos meios intelectuais da terceira via (ou da “segunda esquerda”), de ser relator-geral adjunto de um relatório da Comissão para a Liberalização do Crescimento do governo de Sarkozy e de trabalhar na Inspeção de Finanças, Macron saltou para a banca de investimento Rothschild e regressou depois à política, reciclado e com o currículo guarnecido, com lugar direto no gabinete de François Hollande. Tudo rápido, sempre a subir, até chegar, em 2014, quase anónimo e com 36 anos, ao poderoso cargo de ministro da Economia. Saiu em 2016, quando a popularidade de Hollande caiu para níveis que punham em causa o seu futuro, para começar a sua caminhada para a Presidência. Sempre a passo de corrida, sempre como coqueluche mediática. Se o sistema existe, o sistema apostou todas as suas fichas no jovem que soube criar, na sua carreira meteórica, uma boa rede de contactos na poderosa “aristocracia de Estado” francesa, na finança e na política. Ele é, isso ninguém contesta, o candidato do regime.

Na educação, na segurança ou no nuclear, todas as propostas expressas por Macron parecem milimetricamente medidas para não desagradarem a possíveis eleitores. “Um bocadinho à esquerda, um bocadinho à direita”, acusou Fillon. Candidato “pisca-pisca” ou “zebra política”, diz a imprensa, que até o trata com simpatia. Tirando naquilo em que tem provas dadas — liberalização da economia e do mercado de trabalho —, Macron nunca se compromete. Palavras como “eficácia”, “rigor”, “coordenação” substituem qualquer posição mais clara. “Pragmatismo no lugar dos grandes princípios”, descreve o que alguns poderiam chamar de cálculo eleitoral. Numa França fortemente dividida, Macron aparece como o voto capaz de ultrapassar as fraturas. Um voto que não dói nem magoa.

infografia carlos esteves

Mas Emmanuel Macron deixou uma marca na política francesa. A lei que mereceu o seu nome correspondeu a medidas de desregulamentação da economia, dos transportes, do comércio, do trabalho e de proteção social. As suas reformas não impediram a continuação dos resultados medíocres da economia francesa nem mudaram substancialmente as taxas de desemprego. Mas mudaram a política: a Lei Macron, tal como a contestada lei de trabalho, que ele pretende aprofundar, passou através da utilização do artigo 49-3, sem votação no Parlamento, onde uma parte da bancada socialista se recusou a aprovar o seu programa liberalizante. Entre as vozes críticas esteve Martine Aubry, antiga secretária do Partido Socialista e filha de Jacques Delors, e Benoît Hamon. A questão já não é saber como conseguiu Emmanuel Macron apresentar-se como “revolucionário” e “antissistema”. É como conseguiu refazer a sua imagem de forma a não ser visto como legítimo herdeiro do que de mais impopular houve no governo. Ao ponto de François Hollande ter dito: “Emmanuel Macron c’est moi.” Conseguiu o feito de ter contribuído de forma decisiva para a decadência eleitoral e ideológica do Partido Socialista e depois beneficiar dela.

Se Fillon é Thatcher, Macron é Blair. No seu “centrismo radical”, Macron não apaga as velhas clivagens. Não as apagou enquanto foi ministro da Economia, não as apaga quando promete baixar de 33% para 25% os impostos para as empresas ou, na prática, suprimir as majorações do trabalho acima das 35 horas semanais, mantendo a lei na mesma mas passando grande parte das alterações para as negociações nas empresas. Ao contrário de Fillon, Macron não apresenta a sua agenda social e económica como uma posição ideológica. Apresenta-a como uma evidência indiscutível, acima do debate político, mera questão técnica e pragmática. No entanto, está tão distante de uma opção ideológica como estavam Blair e Schroeder, os homens que protagonizaram a viragem ideológica da social-democracia europeia. Macron é apenas mais audaz: liberta-se das raízes do Partido Socialista, da sua militância e da sua história e assume de uma vez por todas a aliança entre a terceira via e os neoliberais. Deste ponto de vista, Macron é uma clarificação e apenas nisso, e não num discurso tecnocrático que até já passou de moda, uma novidade: ele assume que o “sistema” não é uma invenção de quem o diz combater. Ele é o sistema.

O menino de Schauble

Os socialistas não se podem queixar de nada: pela primeira vez na sua história, controlaram a Presidência, o Governo, a Assembleia Nacional, o Senado, 21 das 22 regiões metropolitanas, a maioria dos departamentos e quase todas as municipalidades com mais de 100 mil habitantes. E, no fim desta oportunidade única, o Presidente não se recandidatou, o primeiro-ministro perdeu em primárias e os dois candidatos que foram ministros (Macron e Hamon) preferiam que ninguém se lembrasse disso. O seu candidato oficial deverá ficar abaixo dos 10%, repetindo um padrão europeu de eclipse dos partidos socialistas. Isto chega como balanço.

Não é por acaso que Benoît Hamon trouxe o Rendimento Universal e outras novidades, como o imposto sobre os robôs, para o centro da sua campanha. Propostas mais profundas e corajosas para a regulação económica, laboral e social chocariam com um partido onde convivem correntes inconciliáveis e de que Hamon, apesar do enorme esforço para virar o PSF à esquerda, tenta fazer uma síntese impossível. E chocariam com aquilo a que Macron e Fillon chamam de “realismo”. Esse “realismo” tem um nome: União Europeia. A que existe, com as regras do euro e as suas instituições. E com os tratados que ele pretende renegociar, mas não faz ideia como conquistar a unanimidade entre Estados que é exigida para qualquer alteração. Com ajuda de conselheiros como Thomas Piketty, Hamon até avançou com propostas para mudar a União. Mas a forma como voltaria a colocar a França no centro de decisão europeia é tudo menos clara. Sem isso são tudo palavras ocas. Cheira a Hollande, a grande promessa monumentalmente frustrada de pôr a França no leme para mudar a Europa. A dificuldade de Hamon é a dificuldade de Jeremy Corbyn no debate do ‘Brexit’, quando foi incapaz de segurar uma parte significativa do eleitorado socialista no lado do “remain”. Mesmo quando tentam virar à esquerda embatem com uma União Europeia que ilegalizou programas socializantes, com as elites económicas e com as aristocracias partidárias.

A linha que atravessa todos os partidos socialistas europeus é a linha entre a sua tradição social-democrata, do Estado providência e da economia mista, e a aceitação de uma União que exige aos Estados “reformas estruturais” que representem, na prática, um recuo no modelo social europeu e total prioridade à concorrência. É o que Macron, com o apoio do euroentusiasta Daniel Cohn-Bendit (em divergência com os verdes franceses), propõe de forma clara: continuar o processo de liberalização da economia e do mercado de trabalho para ganhar “credibilidade aos olhos da Alemanha” e depois negociar mudanças na Europa. Nem Macron nem Fillon, os dois candidatos abertamente europeístas, fazem disto bandeira na campanha. Perante o ressurgimento do nacionalismo e do patriotismo em França, a defesa da UE surge envergonhada. Mas, no que toca ao futuro da Europa, Macron é o mais transparente. Alguma dúvida houvesse sobre quem é o “candidato da Europa”, Angela Merkel dissipou-a rapidamente. Depois de ter recebido Fillon, a chanceler desafiou as regras de camaradagem entre partidos irmãos e, em plena campanha, também recebeu Emmanuel Macron em Berlim, causando uma fúria calada do seu parceiro do PPE. Macron merece o aplauso de Merkel, de Shultz, de Sigmar Gabriel e, para quem tenha dúvidas sobre o que vai acontecer, de Wolfgang Schauble, que acha que “ele tem imenso charme”. Do velho “Markozy” (a aliança entre Merkel e Sarkozy que permitiu à chanceler alemã reforçar o seu poder na União) passaríamos para o novo “Merkron”.

Quando enquadra uma saída do euro numa negociação com vista à restituição da soberania francesa, seguida de referendo sobre a permanência na UE, Le Pen sabe que a maioria dos franceses não a acompanha. Apesar de não se sentir um grande furor europeísta em França, uma sondagem recentemente publicada pelo “Libération” dizia que a maior apreensão dos franceses com uma vitória de Le Pen é a saída do euro e da UE (46%). Muito acima dos 30% que se preocupam com a perda de liberdades públicas. Le Pen está apenas a fazer um caminho e a garantir que o seu discurso não está limitado pelas impossibilidades “realistas” que facilitam a vida a Macron e Fillon e que prendem Hamon a generalidades bondosas. A caminhada de Le Pen é longa e ela sabe-o. Mas o seu eleitorado tem sido o mais estável de todos. E hoje já há 38% dos franceses que não acham a sua vitória um drama e só 49% pensam o contrário.

Depois de muita indecisão em relação à Europa, Melénchon arranjou um plano A e um plano B. O plano A parte de um princípio: a saída francesa do euro é o fim do euro e ninguém, a começar pela Alemanha, deseja isso. Seria essa ameaça que levaria a uma renegociação. Até lá, a França fica no euro enquanto quiser e recusa vergar-se a regras que considera inaceitáveis. O plano B, se a ameaça e a desobediência não resultarem, é a saída unilateral. Uma solução mais ou menos engenhosa que denuncia as dificuldades da esquerda para assumir uma posição que sabe não ter apoio maioritário. Mas não falta quem, perante uma improvável vitória de Melénchon, pergunte: não seria ele um Tsipras francês?

O sistema é o TINA

O debate europeu em França ajuda à tentação de continuar a desenhar dualismos simplistas: nacionalistas e europeístas, protecionistas e cosmopolitas, liberais e populistas, sistema e antissistema. O deputado socialista Richard Ferrand, redator da lei Macron, defendeu que a grande clivagem já não é entre esquerda e direita, mas entre conservadores e progressistas. Conhecemos o discurso: a grande divisão será entre os que estão abertos ao mundo e os que o temem, entre os que abraçam a globalização e os que se querem fechar nas fronteiras. Este discurso já foi feito sobre o ‘Brexit’ e sobre Donald Trump e Bernie Sanders, de um lado, e Hillary Clinton, do outro. Problema: se assim é, os sociais-democratas europeístas estão condenados a andar de braço dado com os mais agressivos neoliberais, que deveriam ser seus adversários naturais. Dirão que o mesmo problema se põe à esquerda eurocética de Melénchon, que na oposição à Europa pode ser acusada de cumplicidade com a direita xenófoba de Le Pen. Uma diferença: o campo europeísta partilha um projeto — a União com as suas regras escritas e não escritas —, os que a recusam só partilham essa recusa.

Antes de falarmos de movimentos antissistema (coisas tão diferentes como França Insubmissa, Frente Nacional, Podemos, Movimento 5 Estrelas, UKIP ou Syriza) temos de concordar sobre o que é o sistema. É a democracia? É o capitalismo? É a União Europeia? O historiador Perry Anderson defende que o “sistema” a que estes movimentos se opõem é a ordem política e económica aceite de forma quase indistinta por governos de centro-esquerda e centro-direita. Aquilo a que temos chamado de TINA (“There Is No Alternative”): desregulação dos mercados financeiros, privatização dos serviços públicos e adaptação quase acrítica ao processo de globalização. E o TINA tem, desde o início dos anos 90, um nome por estas bandas: União Europeia. Os movimentos que contestam este processo têm sido postos debaixo do mesmo chapéu: o do populismo. Se imaginarmos que o populismo é apenas uma forma de demagogia, não tem qualquer valor como definição política. É possível encontrá-la nos discursos de políticos de todas as áreas. Mas se o populismo se baseia na ideia de que há uma elite e um povo, e que isso implica um confronto entre os estratos inferiores e a elite económica, política e mediática, então poderíamos falar de um populismo de direita e de um populismo de esquerda. O de esquerda nada teria de novo: chamavam-lhe luta de classes. Concorde-se ou discorde-se desta leitura da realidade, ela distingue-se do populismo xenófobo de forma radical e inconciliável: superando a identidade étnica, a classe é um conceito inclusivo, que transcende os ódios nacionais, étnicos e religiosos. Não é por acaso que quando esse discurso desapareceu do imaginário popular a xenofobia, sempre presente mas secundarizada por outro sentimento de pertença, ressurgiu de forma vigorosa.

No debate a cinco, Le Pen deixou claro que a imigração é um assunto em que pode estar à vontade: “Eu quero travar a imigração legal e ilegal. Quero as fronteiras nacionais porque não sei como posso contar com a Grécia arruinada ou com a Itália submersa por não conseguir parar o fluxo ininterrupto de imigrantes. Não temos nada para lhes oferecer. Temos 7 milhões de desempregados, 9 milhões de pobres que devem concentrar todas as nossas energias. A melhor forma de enviar um sinal, que é um sinal honesto, é cortar todos os apoios do Estado aos aspirantes à imigração. Eu compreendo que eles venham. Ganham sem trabalhar cinco ou dez vezes mais do que ganhavam em casa.” E associa sem nenhuma reserva a imigração à insegurança: “No fluxo de imigrantes que chegam há terroristas escondidos.” O discurso não é apenas eficaz. Afasta Le Pen, na sua clareza, dos restantes candidatos. E, mais do que qualquer dos outros, de Melénchon, que respondeu: “Ninguém parte por prazer. A imigração é um exílio forçado. Temos o dever de os tratar como quereríamos ser tratados se tivéssemos no seu lugar, na sua condição.” Isto não quer dizer que a imigração seja um tema fácil para Melénchon. Ao contrário de Le Pen (protecionista em tudo) e de Macron (liberal em tudo), ele tem de casar a regulação social e o protecionismo económico com uma postura mais liberal quanto ao movimento de pessoas. E tem de casar o seu discurso solidário com o sentimento popular. Não é um problema novo para comunistas e socialistas. Mélenchon resolve-o com boa vontade mas pouca eficácia: “A primeira tarefa consiste em permitir que cada um viva no seu país.” Para Le Pen é tudo mais fácil: não perde um segundo com qualquer dever moral para o que está para lá das fronteiras. Às fronteiras fechadas acrescenta o óbvio para o seu espaço político: autoridade na escola, mais prisões, penas mais altas e perda de apoios sociais para os pais de menores que comentam delitos. Mas Le Pen conseguiu, ao contrário do seu pai, ir mais longe do que isto. Ela quer representar um sentimento popular que ficou órfão com a descaracterização social e política dos partidos socialistas.

A França periférica

Graças ao trabalho metódico dos “sociais-liberais” nos partidos da esquerda tradicional, a sua tarefa está muito facilitada. Nos últimos 30 anos os socialistas já perderam o seu povo, sobretudo nas regiões que foram mais fustigadas pela crise. Segundo o Centro de Estudos Europeus da Sciences Po, 60% dos operários votavam, em 1978, nos partidos de esquerda. Hoje são 45%. Os 46% de empregados que votavam à esquerda passaram para 35%. Pelo contrário, a esquerda subiu no apoio de quadros dirigentes. Dirão que a agenda da esquerda já diz pouco a estas pessoas. Segundo um outro estudo publicado em 2017, a maioria dos franceses defende nacionalizações, coisa que nenhum partido de esquerda se atreve a propor. O problema é essa maioria social não ter representação política. Le Pen lá está, para ocupar o lugar deixado vago. O geógrafo Cristophe Guilluy criou um conceito que tem surgido frequentemente no discurso político francês e que pode ser útil para compreender este espaço que foi deixado sem representação política: a “França periférica”, que se opõe às elites urbanas da França metropolitana, preparadas para a globalização e mais protegidas dos efeitos concorrenciais da imigração. Essa França periférica não está distante da América que deu a vitória a Trump e da Inglaterra que deu a vitória ao ‘Brexit’: especialmente nas regiões socialmente deprimidas, nos subúrbios ou em zonas rurais. É nessa França periférica que a Frente Nacional cresce, eleição após eleição. Como explica o geógrafo, no Este e no Norte de França, por exemplo, há muito organizadas em torno do carvão e do têxtil, a desindustrialização e o desemprego criaram um sentimento de abandono numa parte crescente da população que favoreceu a implantação da FN. E é também a essa gente que Melénchon tenta, em alguns casos com sucesso, dirigir-se.

No entanto, a distância entre os eleitorados de Mélenchon e de Marine Le Pen é abissal. Segundo uma sondagem de março, do eleitorado de Mélenchon apenas 13% punham a possibilidade de votar Le Pen e, no sentido inverso, apenas 4% dos eleitores da líder Frente Nacional consideravam a hipótese de votar no candidato da esquerda. Como seria de esperar, as principais possibilidades de transferências de voto (na ordem dos 30%) são entre candidatos ideologicamente mais próximos: entre Mélenchon e Hamon, entre Hamon e Macron, entre Macron e Fillon e entre Fillon e Le Pen. Outra coisa bem diferente é dizer que o crescimento de Mélenchon travou um possível crescimento de Le Pen. Pode mesmo dizer-se que foi o único a consegui-lo.

Não se dirigindo ao eleitorado atual de esquerda, Le Pen dirige-se ao povo que a esquerda tradicionalmente representava. E isso é muito evidente na forma como ataca Emmanuel Macron. “Formados nas grandes escolas da República para serem altos funcionários do Estado, passam a banqueiros e depois regressam à política...”, disse a candidata num dos debates. “Acho que é outra vez para mim”, interrompeu Macron. Não é o único, garantiu a candidata com um sorriso. E insistiu: “Os interesses privados vão tomar o lugar dos candidatos para governarem a França.” Não ficando pela crítica moral, rematou: “E os interesses dos franceses são quase sempre contrários aos interesses dos grandes grupos comerciais.” Se parece um candidato de esquerda a falar não é coincidência. Apesar de se opor ao aumento do salário mínimo (nunca se esquece do voto dos pequenos empresários), defende diminuição da idade da reforma, o aumento dos salários da função pública, a manutenção da semana de trabalho de 35 horas, um Estado mais interveniente na economia, o aumento de rendimentos dos trabalhadores como forma de animar o consumo interno. Ao ponto de Fillon a acusar de ser, do ponto de vista social, de esquerda. A sua arte é tanta que até consegue puxar para si, depois de recusar a redução dos benefícios fiscais para o gasóleo, o discurso ecológico: “Não há nada de mais antiecológico do que o modelo ultraliberal, que vai buscar o que consumimos a 10 mil quilómetros.”

E Le Pen está a ser bem sucedida nessa representação política de classes que tradicionalmente votavam à esquerda. Num estudo mais recente da Sciences Po (de março), Macron era o candidato que mais apoio conquistava entre os quadros e profissionais intelectuais superiores (36%) e os profissionais intermédios (28%). Hamon só conquistava apoio acima dos 15% nos agricultores (19%), profissionais intermédios (19%) e quadros superiores (18%). Ficava-se abaixo de uns miseráveis 12% entre os operários. Era nos reformados que Fillon conquistava mais apoio (27%). Ainda antes da sua subida nas sondagens, Mélenchon tinha apoio mais forte nos profissionais intermédios (15%) e nos operários (15%). E Le Pen tinha o seu resultado mais alto nos operários (42%), empregados (34%) e profissionais independentes (30%). A esquerda, sobretudo o PSF, só não disputa o eleitorado de Le Pen porque já o perdeu há muito.

Insensível a estas minudências, o mantra dos media continua simples: de um lado estão populistas, nacionalistas e movimentos contra o sistema, do outro liberais, europeístas e defensores do sistema. No entanto, a França mostra que, com fronteiras nem sempre claras, há três caminhos à vista. O primeiro é o consenso europeu e neoliberal representado por Fillon e por Macron, que se tornou no voto útil contra uma grande mudança, à esquerda ou à direita. É um espaço político que se apresenta como autoevidente. É o espaço do TINA. O segundo espaço é o do nacionalismo xenófobo, representado por Marine Le Pen. Dirige-se sobretudo às classes médias e pequenos proprietários em perda e às classes populares excluídas da globalização. O terceiro é do soberanismo de esquerda e é representado por Mélenchon e por algumas franjas de Hamon. Sendo por vezes dominado por radicais, é o único espaço onde a social-democracia se pode bater pelos instrumentos institucionais e económicos do Estado para aplicar a sua agenda. Como se pode ver com Hamon, quem ficar no meio da ponte não terá grande futuro. A questão não é apenas ser mais à esquerda ou mais à direita. É uma clarificação que Macron e Mélenchon, dois antigos militantes socialistas, fizeram e que Hamon, amarrado às contradições do seu partido, não conseguiu. Fazendo um paralelismo perigoso, podemos dizer que nas últimas eleições americanas estes espaços eram ocupados, respetivamente, por Clinton, Trump e Bernie Sanders.

A acontecer, a vitória de Emmanuel Macron não mudaria nada em França e na Europa. Na realidade, reforçaria de forma extraordinária, ainda mais do que Fillon, o “consenso europeu”. E garantiria uma coordenação muito mais fácil entre a Alemanha e a França para aprofundar o tipo de integração europeia a que temos assistido. Para quem ache que o principal problema da Europa é a indecisão, Macron desbloqueia o impasse. Mas também será, como disse Benoît Hamon, “uma escada para a Frente Nacional”. Não para uma vitória de Le Pen numa segunda volta em que tem a derrota quase certa com qualquer um dos candidatos. Mas na destruição definitiva do espaço socialista. Oferecendo-lhe a aceleração do processo de degradação social que está a fazer crescer a extrema-direita e obrigando os franceses a escolher, já na segunda volta destas eleições, entre o neoliberalismo e a xenofobia.
Estas eleições, como a vitória de Trump ou o ‘Brexit’, são apenas mais uma réplica do terramoto de 2008. Para quem quiser resumir tudo a dicotomias políticas e sociais simples, a leitura será fácil: ou a liberdade ou as trevas. Para quem perceber que as clivagens são bem mais complexas, este é mais um momento em que se confirmam tendências evidentes, de que o estilhaçar do espaço socialista é o que já não carece de confirmação. Ainda assim, o anúncio de uma suposta vitória de um suposto populismo é francamente exagerado.

Assistimos apenas e mais uma vez à progressão de fenómenos que, à esquerda e à direita, recusam o “sistema” e a União que o representa. Só uma improvável passagem de Mélenchon e de Le Pen à segunda volta representaria uma mudança, para pior ou para melhor, cada um decide, no caminho que a Europa está a seguir. Com Macron ou Fillon, o mais provável é que, depois do ‘Brexit’, se acelere no rumo seguido até aqui, provavelmente a várias velocidades. Caso Macron vença, isso acontecerá com um presidente francês ativamente cooperante com o consenso de Berlim e de Bruxelas. É caso para dizer que a Europa, perante o precipício, dará finalmente o passo em frente. En marche!