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Novo De Gaulle precisa-se. Pode ser Macron?

Os cartazes eleitorais sugerem todas as combinações possíveis para a segunda volta. E alguém escreveu enigmaticamente: “Quem tem medo do cor-de-rosa?” (cor associada ao PS, internamente dividido)

FOTO JOEL SAGET/ AFP/ GETTY IMAGES

Ironia. Hollande prefere Macron para impedir “um cenário mau para a França e a UE”, ou seja, um duelo Mélenchon-Marine à segunda volta

A pouco mais de uma semana da primeira volta das presidenciais, a incerteza é total e sente-se preocupação nas classes dirigentes francesas. Essa preocupação é extensiva às instâncias europeias que sabem que a UE, abalada pelo ‘Brexit’ e pelas incertezas da era Trump, não resistiria ao afastamento da segunda economia europeia e da única potência do Velho Continente que resta com força militar credível. Isto na hipótese de uma vitória de Le Pen à segunda volta. Ou de um cenário não totalmente impossível que seria uma concentração de votos no esquerdista e antieuropeu Mélenchon (para evitar a vitória da candidata ultranacionalista e xenófoba) que o levasse ao Eliseu.

Segundo as sondagens, destacam-se quatro dos 11 candidatos. Estão separados por quatro a seis pontos. Logo, descontada a margem de erro, podem aspirar à segunda volta. O centrista Emmanuel Macron e a nacionalista Marine Le Pen alternam no primeiro lugar e por vezes são dados como empatados com 23%. São seguidos por François Fillon, da direita, e por Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, que também têm alternado nos terceiro e quarto lugares, com 17 a 19%.

Com mais de um terço dos franceses ainda indecisos e o candidato socialista, Benoît Hamon, virtualmente afastado da segunda volta (menos de 10%), muitos eleitores apenas decidirão à boca da urna. Os institutos de sondagens não afastam nenhum cenário, incluindo uma segunda volta entre Mélenchon e Marine. Em todos os cenários a candidata da Frente Nacional perde à segunda volta, a 7 de maio. Mas mesmo isto é dito com cuidado. “Tudo pode acontecer porque se uma campanha eleitoral serve para esclarecer, esta tem suscitado sobretudo confusão e ceticismo”, indica François Miquet-Marty, diretor do instituto Viavoice.
Hollande quebra o silêncio

Quinta-feira, o Presidente-cessante, François Hollande, saiu da sua reserva para manifestar fortes receios sobre “o populismo e as simplificações” e dizer que “esta campanha tem sido doentia”. Não revelou a sua escolha mas parece evidente que votará em Macron e que desaprova os dois concorrentes radicais que são que mais o irrita: Marine e Mélenchon.

Esta posição de Hollande a favor do seu antigo ministro da Economia foi mais uma deceção para Benoît Hamon, o candidato oficial socialista que derrotou o ex-primeiro-ministro Manuel Valls nas primárias da esquerda. Hamon tem estado nos últimos dias a ser pressionado para desistir a favor do seu rival da esquerda radical, Mélenchon.

Muito abatido, Hamon já indicou que, perante um eventual duelo entre Macron e Mélenchon, na segunda volta, apelará ao voto neste último. A única divergência importante é a União Europeia. Hamon defende a renegociação dos tratados e a continuação da França na UE e no euro; Mélenchon quer a refundação dos tratados e garante que, se não a conseguir fazer, a França sairá da UE e da moeda única. “Não acredito no plano A de Jean-Luc Mélenchon porque ele coloca demasiado alto a fasquia da exigência de negociação dos tratados. Não é realista e portanto ele só tem um plano B, que é a saída da União Europeia, coisa que não defendo”, explica Benoît Hamon. Entre os quatro favoritos, só François Fillon e, sobretudo, Emmanuel Macron, são europeístas.

O enfraquecimento repentino dos partidos tradicionais que têm alternado no poder — PS e Os Republicanos (ex-UDF e RPR) — parece contribuir para a imprevisibilidade a poucos dias do escrutínio. Durante esta longa campanha, precedida de duas primárias (direita e esquerda) e da desistência forçada do impopular François Hollande, já caíram algumas figuras de proa: o antigo presidente Sarkozy, o ex-PM Manuel Valls e Alain Juppé da direita moderada, uma das últimas figuras desta área a defender a herança de De Gaulle.

Hollande receia uma nova surpresa: que os franceses manifestem nas urnas “a tentação de abater os favoritos ao Eliseu”. O ainda chefe de Estado teme que a “emoção se sobreponha à razão” e, segundo o jornal “Le Monde”, vê com preocupação a “moda Mélenchon”. Hollande decidiu falar a poucos dias da primeira volta para evitar um cenário que, segundo ele, seria “catastrófico” para a França e a Europa: uma segunda volta entre Jean-Luc Mélenchon e Marine Le Pen. De repente, tudo se pode decidir entre uma espécie de herdeiro de Maio de 68 e uma ultradireitista que ainda recentemente quis afastar responsabilidades do Estado francês na deportação de judeus para a Alemanha em 1942. O que significa que o consenso político que levou De Gaulle ao poder em 1958, que radicava nos valores da Resistência e da liquidação da herança colonial e impedia a França conservadora, provinciana e católica de resvalar para o ultradireitismo, implodiu.

Emocionante reta final

Jean-Luc Mélenchon, candidato da chamada “França insubmissa” (Partido Comunista e Partido de Esquerda), provocou sensação nos últimos dias ao subir 6% nas sondagens numa semana. Culto e grande tribuno, Jean-Luc Mélenchon surge com uma dinâmica fortíssima. Os seus mais fervorosos apoiantes, tidos como utópicos, já acreditam no Eliseu.

A ascensão de Mélenchon, favorecida pelo colapso de Hamon, volta a baralhar tudo quando os dois favoritos, Marine e Macron, marcam passo nas sondagens. Têm menos 2 ou 3% do que há 15 dias. Também François Fillon, muito enfraquecido pelo escândalo dos empregos fictícios da sua família mais próxima e por ter aceitado fatos de luxo pagos por um obscuro homem de negócios, não consegue sair dos 19%. Depois de ganhar as primárias da direita, era favorito ao Eliseu. Terá caído com os escândalos, mas nem assim pode ser liminarmente afastado da segunda volta ou da vitória.

Mesmo a vitória de Marine não deve ser excluída, até porque, segundo as sondagens, é quem mais penetra no eleitorado jovem, formatado para votar antissistema. Há dias, no jornal “Le Monde”, o escritor marroquino, Tahar Ben Jelloun, imaginava-a na noite da vitória, evocava a depressão que provocaria nos franceses e europeus e concluía que a resistência teria de começar nesse mesmo dia, ainda que no respeito das regras da democracia e do direito. A incerteza é tal que um analista fala numa partida de póquer na qual os franceses poderão jogar o tudo ou nada, ou seja, apostam e... depois se verá.

JOGOS FLORAIS

“Se os elegerem 
[Fillon, Le Pen
ou Macron] 
hão-de amargá-las...”
Jean-Luc Mélenchon
Candidato presidencial (esquerda radical)

“A dez dias das eleições recuso-me a alimentar 
o folhetim das calúnias”
François Fillon
Candidato presidencial (direita)

“É como na Volta 
à França. 
Quem conquiste 
a camisola amarela 
não a pode largar”
Emmanuel Macron
Candidato presidencial (centro-esquerda)

“Ergamo-nos contra 
os que querem fazer 
da França 
uma república islâmica”
Marion Maréchal-Le Pen
Sobrinha e apoiante de Marine Le Pen
 (extrema-direita)