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Marine, a mulher que cresceu num castelo

foto Christian Hartmann/REUTERS

Chamavam ao pai “monsieur Le Pen”. À filha, Marine, sua sucessora na liderança da Frente Nacional, não chamam sequer “madame”. Ela parece já fazer parte da família de toda a gente. Raramente se assistiu em França a tamanha familiaridade com uma personalidade política

Estamos no fim de fevereiro, no muito concorrido Salão da Agricultura de Paris. “A direita e a esquerda prometeram-nos muito, estiveram sempre no poder, nunca fizeram nada do que prometeram. Desta vez vamos votar em Marine, porque ela não pode ser pior do que eles”, afirma um criador de gado. Na multidão que a acompanha todos a ouvem com atenção e muitos a aplaudem. Marine já faz parte da paisagem francesa, a desdiabolização da FN, fundada pelo extremista patriarca da família Le Pen, Jean-Marie, foi feita por ela em pouco mais de cinco anos, desde a sua ascensão à liderança partidária, com evidente sucesso. Ao longe, no recinto da feira, apenas um homem bate num tacho. Diz que o faz por causa dos “empregos fictícios de Marine” — até o contestatário lhe chama desse modo! — no Parlamento Europeu, que teriam servido para financiar ilegalmente a FN. A seguir, aparecem duas militantes do movimento FEMEN. Os seios nus das feministas, onde se lê “fascistas nunca mais”, não incomodam Marine. Tranquila no meio da agitação que a sua visita à feira provoca, apenas sorri ao vê-las.

Foi tudo o que se viu, como contestação a Marine Le Pen, no Salão da Agricultura. Muito menos do que contra François Fillon, o candidato da direita tradicional, acusado de ter dado empregos fictícios à família mais próxima e de ter aceitado fatos de luxo pagos por um obscuro homem de negócios. Em matéria de problemas com tachos e com as feministas, Fillon está muitos furos à frente de Marine.

A Fillon ninguém o ousa tratar por François. Disputa o mesmo eleitorado da direita radical a Marine, mas é muito mais conservador do que ela. Ele defende as famílias estáveis, a Igreja Católica e a França profunda e patrimonial. Fillon vai à missa todos os domingos, Marine não. Ela é incomparavelmente mais moderna do que ele. Formada em Direito, é mãe de três filhos (Jehanne, Louis e Mathilde), já foi casada duas vezes, vive agora em regime de união livre com Louis Aliot, dirigente da FN, e, ao contrário de Fillon, nunca pôs sequer em causa o casamento homossexual, o direito ao aborto, e mesmo sobre a adoção plena é mais moderada do que ele.

Jean-Marie Le Pen não aprecia que a filha, hoje com 48 anos, seja tão ousada nos costumes e neste género de temas. Já disse que ela deveria vestir mais saias e vestidos e aparecer menos vezes em público com calças. Mas ela não liga aos seus conselhos e até o afastou dos cargos políticos decisórios da FN, o partido que ele fundou em 1972 com a marca clara da extrema-direita herdeira de Philippe Pétain, o marechal francês colaboracionista com o nazismo. A FN era sem dúvida, com Jean-Marie, um partido racista e antissemita, muito perto de ser fascista. Era também um partido machista. Hoje, Marine Le Pen, que chefia a FN desde 2011, até tem um homossexual, Florian Philippot, como número dois e principal conselheiro estratégico e ideológico. “Florian Philippot foi colaborador de Jean-Pierre Chevènement, referência do socialismo francês e ‘soberanista’ de esquerda, e ele destoa de facto dos princípios fundamentais que distinguiam a FN”, esclarece Mário Barroso, cineasta, de esquerda e residente em França há cerca de 50 anos.

Viragem. O nome da dinastia Le Pen metia medo até há alguns anos mas, hoje, com Marine, a nova chefe do clã familiar não assusta muita gente

Viragem. O nome da dinastia Le Pen metia medo até há alguns anos mas, hoje, com Marine, a nova chefe do clã familiar não assusta muita gente

foto Sylvain Lefevre/Getty Images

As razões da ascensão fulgurante de Marine Le Pen na cena francesa têm muito que ver com a sua modernidade pessoal apesar de ela, no discurso político, manter muitos dos mesmas temas que outrora caracterizavam a FN: a prioridade aos franceses no emprego, na habitação e no acesso aos subsídios e serviços sociais, a luta contra a imigração e a globalização, contra as elites e a classe dirigente francesa do poder, que ela acusa de estar vendida a Bruxelas, à banca e às multinacionais. No entanto, com ela, desapareceram todas as referências, ao racismo e ao antissemitismo. O pai era useiro e vezeiro neste tipo de provocações, ela despreza-as e combate-as. Tem mesmo expulsado do partido todos os que ousam repetir este género de asserções que eram tão caras a Jean-Marie Le Pen.

Assimilação dos emigrantes

É moderna, é inegavelmente diferente e mais moderada do que o pai, mas também pode ser dura e firme. Por exemplo, numa longa entrevista ao Expresso, há dois anos, revelava-se muito clara e intransigente sobre a imigração em França, mesmo a europeia. Defendia então a assimilação e não a integração dos imigrantes estrangeiros, com as suas culturas de origem, em França. Para os portugueses — de quem diz ser “muito amiga” e que garante apreciar por serem trabalhadores e respeitadores das leis e do modo de vida francês (“os imigrantes portugueses são bem mais duros do que eu contra os imigrantes abusadores”, afirma) — continua a enviar na atual campanha eleitoral a mesma mensagem sobre o ensino de línguas e culturas estrangeiras na escola primária francesa: “Vamos acabar com esse tipo de ensino que não favorece a harmonia na nossa sociedade, mas sim o comunitarismo, o qual evidencia alguns desvios muito perigosos. Os filhos dos imigrantes precisam de saber falar bem francês desde a primária e o que devem aprender sobretudo são disciplinas fundamentais como a língua francesa, a história e a geografia de França. Não sou contra que as crianças aprendam a história dos países dos pais, a sua língua, mas no seio da família, não no sistema escolar nacional. A escola deve ser a âncora republicana, deve precisamente fabricar franceses de corpo inteiro e não remeter as crianças para as suas diferenças. Pelo contrário, a escola pública deve apagar essas diferenças, de modo a que cada um se sinta no seu lugar, dentro da sociedade francesa”.

Amigos, amigos, negócios à parte. “Os portugueses também serão abrangidos por essa medida?”, pergunto-lhe. “Sim, todos serão abrangidos, é lógico”, responde Marine Le Pen.

Não há exceções no domínio da assimilação dos estrangeiros em França. “Eu sei que há muitos portugueses e seus descendentes que apoiam Marine Le Pen, mas eu acho que eles deveriam ler bem o programa dela, designadamente sobre o ensino das línguas estrangeiras na escola primária, mas também para perceberem as consequências da política da preferência nacional e da saída do euro e da União Europeia que ela propõe. O que eu aconselho é que leiam o programa dela e que, depois, não votem nela!”, exclama Hermano Sanches Ruivo, autarca socialista na Câmara de Paris, fundador da associação de lusodescendentes, Cap Magellan.

De facto, muitos portugueses de França gostam dela. Sentem-se valorizados e orgulhosos por ela os ter designado como os melhores imigrantes. Na sede da FN, em Nanterre, arredores de Paris, todos os funcionários conhecem o “Domingos”, proprietário do Chez Tonton, restaurante franco-português modesto, onde não se come nada mal para o preço barato que aí se paga, e que é a cantina quase diária de Marine Le Pen, dos seus adjuntos e secretários, motoristas, porteiros e seguranças. No passado, este era também um dos restaurantes preferidos de Jean-Marie Le Pen, que hoje, devido à idade (88 anos), sai menos de casa do que outrora.

Manuel Domingos é amigo da família (sobretudo do pai de Marine) e até para festas de aniversário dos Le Pen — avôs, filhos, netos — é de vez em quando convidado. Domingos foi um dos poucos portugueses que entraram como convidados no “château” de Montretout, onde Marine foi criada. “É uma linda propriedade e eles são pessoas, todas muito simples, nada racistas”, sublinha o português, emigrante simples e afável, mas com cartão de filiado na FN. A imensa e magnífica mansão senhorial, que inclui jardins e vasto terreno em Saint-Cloud, na chique zona oeste de Paris, pertence à dinastia Le Pen desde 1976, quando Jean-Marie a recebeu na sequência de uma polémica e sulfurosa herança do rico industrial Hubert Lambert, apoiante e financiador da extrema-direita francesa. Lambert deixou toda a sua fortuna, em testamento, ao pai de Marine e a família Le Pen ficou desde essa data muito rica. Os familiares de Hubert Lambert nunca aceitaram o testamento, contestaram-no, mas em vão.

foto Jeff J Mitchell/Getty Images

Foi neste casarão gigantesco que Marine Le Pen viveu, rodeada de criados, amas e jardineiros, desde os oito anos de idade. Foi habitar para lá depois de um misterioso atentado à bomba ter atingido a residência da família, em Paris. Saiu da imponente mansão apenas em 2014 quando se zangou e divorciou politicamente do pai. Nesse ano, ambos andaram à pancada (verbal, mas violenta) na praça pública — e mesmo nos tribunais franceses — por causa da FN, da sua orientação ideológica e do lugar de cada um nos postos de decisão. A filha ganhou a batalha política com o pai e, hoje, diz que Montretout foi um pesadelo e que nunca gostou da sua vida no “château”. Há quem afirme que o palácio está assombrado e Marine fez saber que os cães de ataque do pai lhe mataram um dos seus gatos preferidos. Além das divergências políticas, ela gosta de gatos e o pai prefere os cães.

Assombrado ou não — Pierrette Le Pen, mãe de Marine e divorciada de Jean-Marie, que provocou escândalo ao posar quase nua para a revista “Playboy” em 1987, chegou a dar a entender que sim, bem como Yann, irmã de Marine — facto é que, no passado, se organizaram aí festas, segundo se conta memoráveis, com centenas de convidados, entre eles estrelas do mundo do espetáculo, como o ator Alain Delon, cantores, pianistas, pintores, aristocratas e políticos. Montretout, com as suas dezenas de salas, salões, quartos, corredores, escadas, caves e outras dependências, foi o mundo ultraprotegido em que viveu Marine até aos 45 anos. O domínio será mais parecido, certamente, com o palácio da série televisiva “Dowton Abbey” do que com o rancho da família Dallas, com o qual alguns chegaram no passado a compará-lo.

Hoje, Pierrette não revela nada sobre os possíveis fantasmas que nele habitam. Diz a lenda que um deles seria o de Hubert Lambert, o amigo e financiador do seu antigo marido, que faleceu no casarão aos 42 anos, há mais de 40 anos. Jean-Marie perdoou a Pierrette a fuga dos anos 80, as suas declarações espetaculares contra ele — “o ditador” — e as fotos inacreditáveis na “Playboy”. A mãe de Marine regressou ao domicílio familiar 15 anos depois de o ter abandonado e vive atualmente em Montretout, que foi construído nos anos de 1830 a pedido de Napoleão III, que depois o ofereceu ao seu chefe de gabinete. O pai, que reside atualmente numa casa em Rueil-Malmaison, só lá vai de vez em quando para trabalhar no escritório, consultar a biblioteca e os seus arquivos, instalados no subsolo. Parte do soberbo conjunto estará desabitado e a necessitar de obras de restauro. Desde há três anos, a candidata ao Eliseu autonomizou-se do pai, mesmo fisicamente: comprou casa não muito longe de Montretout, onde se instalou com Louis Aliot, ele também divorciado, e os três filhos do seu primeiro casamento. “Tenho muita pena de ver os meus filhos menos vezes do que desejaria, todas as mulheres me compreendem”, diz.

foto Robert Pratta/REUTERS

Algumas pessoas alcunharam depreciativamente Marine de “a castelã”, por ela ter vivido mais de três dezenas de anos no “château”. Jovem, estudou Direito em Paris (faculdade de Assas — Universidade de Paris II) e, até aos 30 anos, levou uma vida que desagradava ao pai. Apesar de ligada à FN desde os tempos de estudante no liceu, saía regularmente à noite e tinha a reputação de ser uma “curtida”, frequentadora assídua de discotecas e clubes noturnos. Deve ter sido devido à sua vida algo desbragada que as duas irmãs, Marie-Caroline e Yann, também por vezes partilharam que Marine ainda hoje tem uma imagem de mulher bastante descontraída, descomplexada e, até, atrevida.

Pragmática q.b.

Este correspondente falou com ela algumas vezes, desde 2012. Numa das entrevistas mais longas, em 2015, recebeu-me em jeans. É uma pessoa enérgica, com ar normal: fuma, ri, gosta de boas conversas, de piadas, é direta e sem papas na língua e pontua as frases com gestos largos. Herdou certamente do pai o mesmo modo de falar, mas recorre muito menos do que ele a referências históricas. Por exemplo, o nazismo, o colonialismo ou a guerra da Argélia são temas que lhe dizem pouco. Para ela são combates do século passado. Para Jean-Marie, mais culto e apaixonado pela História, eram assuntos privilegiados. Mas, tal como ele, ela é uma pragmática. O pai combatia frontalmente também o “comunitarismo”, mas isso não o impediu de dar entrevistas à imprensa portuguesa, para elogiar os emigrantes lusos. Durante a campanha para as presidenciais de 2002, durante a qual surpreendeu o mundo ao qualificar-se para a segunda volta, Jean-Marie Le Pen chegou a deslocar-se aos estúdios da Rádio Alfa, a emissora portuguesa de Paris, que no entanto emite essencialmente em língua portuguesa para a comunidade lusófona da região parisiense. Foi nessa altura, nessa rádio “comunitarista”, que fez uma declaração que deu que falar: “Os portugueses são nossos primos, são primos dos franceses, gosto deles, mas eu, antes dos primos, defendo os meus filhos, só depois defendo os primos, os vizinhos e os outros”. Recorrendo a outras palavras, Marine Le Pen apregoa mais ou menos o mesmo com a sua “preferência nacional”.

Estilo. Marine Le Pen é uma pessoa enérgica, com ar normal: fuma, ri, gosta de boas conversas, de piadas, é direta e sem papas na língua e pontua as frases com gestos largos

Estilo. Marine Le Pen é uma pessoa enérgica, com ar normal: fuma, ri, gosta de boas conversas, de piadas, é direta e sem papas na língua e pontua as frases com gestos largos

foto Regis Duvignau/ REUTERS

“É uma mulher decidida, firme e hábil, com carácter e lucidez política e enfrentou na FN tensões políticas e ideológicas violentas, designadamente devido ao exorcismo sobre as ideias frentistas do passado, exorcismo a que se dedicou Philippot”, explica Mário Barroso. “No entanto, se perder estas eleições a sua linha poderá ser contestada na FN e, tal como acontecerá com Fillon e Emmanuel Macron (candidato independente do centro-esquerda liberal, que disputa com Marine o primeiro lugar nas sondagens), se ela perder as presidenciais, isso poderá significar o fim da sua carreira política”, acrescenta o cineasta. Possível, mas mesmo que perca as eleições há quem preveja que, se for à segunda volta e conseguir cerca de 40 por cento dos votos, ganhará as presidenciais seguintes. O escritor francês mais famoso da atualidade, Michel Houellebecq, evoca a possibilidade de uma vitória futura dela no livro “Submissão”.

Philippot, o ideólogo de Marine que chega a reivindicar a herança política do general Charles de Gaulle, é detestado por Jean-Marie Le Pen e por uma parte da base militante tradicional do partido. “Receio que a FN se transforme num partido como os outros”, diz o pai de Marine. Ela mudou de facto o partido e a sua linguagem. A zanga pública com o pai ajudou-a imenso a modificar a sua imagem extremista. Quer chegar ao poder, o pai apenas queria possuir um partido importante, com peso na vida política, mas somente contestatário. Marine Le Pen normalizou o discurso da FN para alargar mais a sua base eleitoral e conta, agora, com votos de antigos eleitores comunistas e socialistas, de operários, de pobres e de muitos jovens. Ao contrário de François Fillon, Marine garante o respeito pela famosa proteção social francesa, defende os direitos dos franceses à educação, à saúde, ao emprego e à reforma aos 60 anos. Fillon tem sido contraditório sobre alguns destes assuntos e, por vezes, nas questões sociais, Marine chega a parecer ser militante da esquerda radical, próxima de um dos candidatos desta área — Jean-Luc Mélenchon — e também do socialista de esquerda, Benoît Hamon.

É um pouco inacreditável mas é verdade: Marine, “a castelã”, que cresceu e foi educada num ambiente só acessível a uma elite muito especial, é atualmente a figura mais emblemática que, aos olhos de boa parte dos franceses mais desfavorecidos, mais bem combate… as elites. Tal como o pai, a líder frentista é contra o euro, a União Europeia e os burocratas de Bruxelas, mas com alguns matizes importantes no discurso: defende a saída da França da UE mas só depois de negociações duras com a Comissão Europeia e de longos debates e referendos nacionais. O discurso xenófobo de Jean-Marie continua igualmente presente mas, com ela, é dirigido sobretudo contra os muçulmanos e o radicalismo islâmico. Pessoalmente, diz ser contra a pena de morte, mas admite repô-la — “como arma dissuasora do arsenal jurídico nacional”, explica — contra os crimes graves que atingem crianças e idosos ou os terroristas. Defende o patriotismo em todos os domínios, incluindo o protecionismo económico, mas afasta-se do nacionalismo exacerbado, demasiado inquietante, do pai. Diz-se patriota — “como De Gaulle”, realça — e pensa que a luta decisiva nas eleições presidenciais será entre ela e Macron, ou seja, como refere, “entre o patriotismo e o globalismo”. “Quero ganhar este combate!”, exclama.

Banalização da FN

Há dias, em Bordéus, falou para os jovens e voltou a surpreender: convidou-os a não terem medo dos outros povos, a viajarem pelo mundo inteiro, a estudarem no estrangeiro recorrendo a bolsas como o Erasmus, a contactarem com outras realidades. Mesmo na Bretanha, província de origem do pai, que é tradicionalmente a região francesa que menos vota na FN, é hoje relativamente bem acolhida. Marine Le Pen, que nasceu em Neuilly-sur-Seine, na periferia burguesa de Paris, é recebida mesmo nessas terras até há pouco tempo hostis ao seu partido, como, simplesmente… Marine.

A banalização de Marine Le Pen e da FN é uma realidade na sociedade francesa e, também, nos media gauleses e do mundo inteiro, que hoje telefonam às centenas para o seu serviço de imprensa a implorarem entrevistas com ela. Nos anos 80, a redação da TV estatal francesa tinha de votar para decidir por maioria se seria conveniente convidar ou não Jean-Marie Le Pen para uma entrevista… Hoje, a filha não consegue responder à avalanche de convites dos media. Marine Le Pen é uma máquina marcada pelo populismo, é certo, mas é inegavelmente uma máquina. O nome da dinastia Le Pen metia medo até há alguns anos mas, hoje, com Marine, a nova chefe do clã familiar não assusta muita gente. Muitas teses frentistas sobre a imigração e a identidade nacional tornaram-se quase consensuais em França, foram adotadas pela direita de Nicolas Sarkozy e de François Fillon e mesmo pela esquerda do Presidente François Hollande, que chegou a propor a perda da nacionalidade para os franceses implicados no radicalismo islâmico e no terrorismo — o que Marine aplaudiu naturalmente com largo sorriso. Na direita ouve-se falar das raízes cristãs da França e Fillon até invoca a sua religião católica como argumento eleitoral, o que Marine não fez até agora.

Família. Formada em Direito e mãe de três filhos, já foi casada duas vezes, vive agora em regime de união livre com Louis Aliot, dirigente da FN

Família. Formada em Direito e mãe de três filhos, já foi casada duas vezes, vive agora em regime de união livre com Louis Aliot, dirigente da FN

foto Stephane Mahe/REUTERS

As atuais eleições decorrem num bom momento para ela. Internamente, a decomposição em curso dos partidos tradicionais favorece-a e os atentados terroristas reforçam-na. Externamente, os populismos ganham terreno e o ‘Brexit’ e a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos demonstram que tudo é possível e que as sondagens, que não a dão vencedora na segunda volta contra Emmanuel Macron, podem ser desmentidas pelas urnas. Apenas mete medo a sério aos desfavorecidos muçulmanos das periferias das cidades, a uma certa camada de reformados ricos e à finança e ao grande patronato francês. Certos banqueiros e grandes patrões evocam uma “catástrofe” e um “pânico generalizado nos mercados” com a eventual saída da França do euro.” A perspetiva de um regresso ao franco levaria à rápida saída do país de capitais dos investidores franceses e estrangeiros, inquietos com o risco de desvalorização dos seus bens”, escreve o Instituto Montaigne, um clube liberal de reflexão. Marine Le Pen denuncia uma “estratégia para meter medo às pessoas”. “Negociaremos o tempo que for preciso, haverá debate e será organizado um referendo, a transição monetária far-se-á calmamente, se os franceses a desejarem”, garante. É inimiga da atual UE, e deseja o regresso à “Europa das nações” contra “a ditadura” dos funcionários “não eleitos” de Bruxelas, que acusa de imporem a sua vontade aos governos nacionais. “Os gregos e os portugueses sabem bem do que falo”, conclui, sobre a UE.

Parece não ter medo de nada. Mas já teve, no passado. Foi difícil assumir, em criança e na juventude, a hostilidade contra ela, a sua família e o seu apelido. “Sempre tivemos um sentimento de ataque permanente e de perigo”, diz Yann. Na sua autobiografia, Marine Le Pen diz ter sentido, muito jovem, o peso de “um mundo profundamente injusto”. Por isso adora, agora, que lhe chamem, simplesmente, Marine.