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Hino à Alegria sob a batuta de Emmanuel Macron

PHILIPPE WOJAZER / AFP / GETTY IMAGES

Eleito com cerca de 65% dos votos, o novo Presidente francês quer uma maioria de Governo nas legislativas de junho, que se anunciam fragmentadas. A xenófoba Marine Le Pen reconhece a derrota, com 35%, mas vai refundar a Frente Nacional e promete continuar a dar luta.

A Europa democrática suspirou de alívio este domingo, quando as urnas encerraram em França e as primeiras projeções à boca da urna indicaram que Emmanuel Macron vencera folgadamente as presidenciais. O resultado do ex-banqueiro centrista ficou acima das melhores sondagens: 65,05%, contra os 34,95% da candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, numa altura em que estavam contados 93% dos votos.

Quando falou aos seus apoiantes, reunidos no pátio do museu do Louvre, o Presidente eleito fez soar o Hino à Alegria, andamento coral da Nona Sinfonia do alemão Ludwig van Beethoven, adotado em 1972 como Hino da Europa. Acompanhado da mulher, Brigitte Trogneux, e dos filhos e netos desta, tinha atrás de si bandeiras de França, mas também da União Europeia.

“Esta noite é a Europa e o mundo que nos olham”, declarou Macron, acrescentando que a Europa e o mundo “esperam que possamos defender em toda a parte o espírito das luzes, as liberdades, que protejamos os oprimidos”. E ainda que “tragamos uma nova esperança de um mundo mais seguro, de liberdades defendidas, de mais justiça, de mais ecologia”. Nesta intervenção, e noutra mais curta e formal, designou como prioridades moralizar a vida pública, defender a democracia e a economia, refundar a Europa, lutar contra o terrorismo, combater as alterações climáticas e proteger a paz. “Nenhum obstáculo me deterá”, garantiu, recordando que os franceses são herdeiros “de uma grande história e de uma mensagem humanista”.

Não deixou, porém, de ter uma palavra para os que votaram nele “apenas para defender a República contra o extremismo” e para os que preferiram a sua adversária. “Sei que temos diferenças e respeitá-las-ei, mas manter-me-ei fiel perante o meu compromisso. Defenderei a República!”, prometeu aos primeiros. Sobre os eleitores de Le Pen, disse: “Expressaram a sua cólera. Farei tudo durante os próximos cinco anos para que não tenham mais razões para votar nos extremos.”

Legislativas: a terceira volta

É que o triunfo do mais jovem chefe de Estado da França republicana, com 39 anos e nunca antes eleito para cargos políticos — foi apenas ministro da Economia entre 2014 e 2016 —, não se deve principalmente ao seu programa nem à sua personalidade. O instituto Ipsos indica que 43% dos 19 milhões que escolheram Macron o fizeram para travar Le Pen, ao passo que 33% indicam a necessidade de “renovação política” como motivo para a sua escolha. Seguem-se o programa de Macron (16%) e a sua personalidade (6%).

O debate de quarta-feira passada, em que a agressividade de Le Pen não vergou Macron, pode ter ajudado a estes resultados, melhores para o centrista do que os estudos de opinião auguravam. Sem ter sido brilhante, Macron conseguiu expor inconsistências da candidata da extrema-direita, a quem acusou de “só dizer idiotices”

A complicar a vida ao novo Presidente num país muito dividido, só 39% dos inquiridos pelo Ipsos dizem querer que o seu movimento En marche! (EM) vença as legislativas de 11 e 18 de junho. As escassas sondagens para esse ato eleitoral preconizam 24% a 26% de votos e 250 a 290 deputados, em 577, para o EM e o Movimento Democrático (MoDem) de François Bayrou, seu aliado.

Perto ficam o bloco de centro-direita formado por Os Republicanos (LR) e a União de Democratas e Independentes (UDI), com 22% e 200 a 210 deputados, e, com idêntica percentagem mas apenas 15 a 25 assentos (fruto de um sistema de círculos uninominais a duas voltas que lhe trava o passo), a Frente Nacional de Marine Le Pen. Em todo o caso, o partido da extrema-direita poderá mudar de nome no âmbito da refundação defendida, na noite eleitoral, pela sua líder.

Os mesmos estudos de opinião, das firmas Harris e Kantar Sofres e com trabalho de campo entre 4 e 7 de maio, preveem 13% a15% para o bloco esquerdista França Insubmissa/Partido de Esquerda e deixam o Partido Socialista com magros 8 a 9%. Esboça-se, pois, um cenário de grande fragmentação parlamentar que pode dificultar a governação futura. Muitos descrevem as legislativas como a “terceira volta” das presidenciais hoje concluídas. O sistema de círculos uninominais a duas voltas em que passam à segunda todos os candidatos com 12,5% ou mais dos votos é prenúncio de disputas em várias frentes.

Abstenção, brancos e nulos em alta

Ciente disso, Macron repetiu aos seus adeptos que o espera uma “tarefa imensa”, exortando-os a “construir uma verdadeira maioria”. Fundado em abril de 2016, o EM ainda está a organizar-se no país. A preocupação do Presidente justifica-se, ainda, pela elevada abstenção desta segunda volta (quase 25%). Foi a maior desde 1969, quando foi eleito Georges Pompidou, e também a primeira vez desde então em que os não-votantes sobem do primeiro para o segundo turno. Acresce que quase 12% dos eleitores terão optado, este domingo, por votos brancos (9%) e nulos (3%), recusando-se a escolher entre Macron e Le Pen.

É um valor recorde, para o qual pode ter contribuído (como, de resto, para a abstenção) a eliminação à primeira volta, a 23 de abril, dos candidatos dos que eram até agora os dois maiores partidos em termos históricos, o socialista Benoît Hamon (6,4%) e o republicano (centro-direita) François Fillon (20%), ambos os quais apoiaram Macron. O mesmo não fez o esquerdista Jean-Luc Mélenchon (19,6%), que não deu indicação de voto, o que poderá ter ido engrossar as fileiras da abstenção e dos nulos e brancos.

Também Le Pen falou aos seus adeptos com olhos postos nas legislativas. A candidata da Frente Nacional quer fazer uma “reforma profunda” do partido, fazendo dele uma “nova força política” que seja “a principal força de oposição ao programa do novo Presidente”. Marine somou cerca de 11 milhões de votos, o dobro dos que o pai, Jean-Marie Le Pen, conseguiu em 2002, quando passou à segunda volta contra o então Presidente Jacques Chirac. Este foi reeleito com 82%, contra os 18% do então líder da Frente Nacional.

O alívio de grande parte do mundo

A vitória de Macron foi, também, o alívio de líderes europeus. Após o trauma do referendo britânico de 23 de junho de 2016, cuja aplicação prática ocupará o Velho Continente durante grande parte dos próximos dois anos, a eleição de um europeísta convicto num país fundador da UE foi vista com agrado.

Este resultado inverte ou pelo menos interrompe tendências populistas e demagógicas que se traduzem não só no Brexit como na eleição de Trump nos EUA e no surgimento de partidos alternativos e de extremos, à esquerda e à direita, não raro de natureza basista e antissistema, como o espanhol Podemos, o italiano Cinco Estrelas, a Alternativa para a Alemanha ou o britânico UKIP. Le Pen no Eliseu teria feito as delícias do russo Vladimir Putin ou do turco Erdogan, reforçando ainda o impulso antiliberal dos governos polaco ou húngaro. A vitória de Macron afasta, ainda que não se saiba até quando, esses fantasmas.

Celebraram-na chefes de governo na Alemanha (Angela Merkel) e Reino Unido (Theresa May), o ex-primeiro-ministro italiano Matteo Renzi, os presidentes do Conselho Europeu (Donald Tusk) e da Comissão Europeia (Jean-Claude Juncker). Macron também foi parabenizado pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, que se disse (no Twitter, claro) “ansioso por trabalhar” com o recém-eleito. Suécia, Canadá, Irlanda são outros países cujos governantes se mostraram felizes.

Em Portugal, o primeiro-ministro António Costa chamou a Marcon “excelente parceiro” e o Presidente da República regozijou-se por “uma vitória da democracia e do Estado de Direito”. Derrotada a xenófoba Le Pen, Marcelo Rebelo de Sousa regista “com apreço” a “hospitalidade e a determinação das autoridades francesas em promover uma adequada integração” da imigração portuguesa. E aplaude a decisão tomada “sábia e soberanamente” pelo eleitorado gaulês.

Também os investidores se mostraram contentes, com o euro a subir face ao dólar logo após o anúncio das primeiras projecções. Em Paris, as autoridades religiosas assinalaram a importância da vitória de Macron. Para o Grande Rabino de França, Haïm Korsia, máxima autoridade judaica, tratou-se do “triunfo dos valores republicanos”, embora haja que considerar os votos em Le Pen um “grito de desespero e cólera dos eleitores”. Já a Grande Mesquita de Paris celebra “uma França reconciliada com todas as suas componentes espirituais e religiosas”, que respondeu “pela unidade em detrimento da divisão”.