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Internacional

Familiar de Trump usa vistos Gold para aliciar investidores na China - usando o nome do Presidente

Donald Trump e o genro

Win McNamee/Getty Images

É o último exemplo de como a familia alargada do atual ocupante da Casa Branca se aproveita para lucrar com essa posição

Luís M. Faria

Jornalista

Uma irmã de Jared Kushner, o genro de Donald Trump que é um dos seus conselheiros mais próximos, foi ontem a Pequim apresentar um projeto imobiliário a investidores e usou expressamente como argumento as ligações familiares ao presidente. Além disso, notou que um investimento minimo de meio milhão de dólares dá direito a um visto de residência nos Estados Unidos e, a prazo, a nacionalidade americana.

A história, que surgiu agora nos diários Washington Post e New York Times, parece confirmar a suspeita, levantada várias vezes nos últimos meses, de que Trump e os seus familiares estão a tentar lucrar com a presidência dele. Jornalistas dos dois jornais foram assistir a uma sessão no hotel Ritz-Carlton de Pequim e ouviram Nicole Meyer, irmã de Kushner, dizer a mais de 100 potenciais investidores as vantagens de entrarem no One Journal Square, um projeto em New Jersey que inclui dois arranha-céus e 1476 apartamentos de luxo. Está mesmo previsto um centro de saúde para animais domésticos, segundo o New York Times.

O dinheiro a investir seria canalizado através do programa EB-5, o equivalente americano dos vistos Gold portugueses, que atribui cerca de dez vistos por ano e é objeto de muitas críticas. Meyer explicou aos investidores que o One Journal Square tinha bastante significado "para mim e para toda a minha família" (o seu irmão surge expressamente referido nalguns dos materiais oferecidos). Um slide descrevia Trump como "um decisor-chave" no programa EB-5, e os investidores foram alertados para a possibilidade de as regras mudarem. Outro orador aconselhou: "Invista cedo e investirá segundo as regras antigas".

E se Trump for 'impeached'?

Embora Jared Kushner se tenha afastado formalmente da direção da sua companhia quando foi trabalhar com o sogro, sabe-se que mantém laços com investidores chineses, o que tem levado a especulações sobre a inesperada boa relação entre Donald Trump e a China, depois de ele ter passado grande parte da sua campanha a acusar esse país de "roubar" os Estados Unidos com as suas práticas comerciais e a alegada manipulação do valor da sua moeda.

Um investidor presente na sessão de ontem disse que a conexão familiar com o presidente dos EUA é um fator essencial na atração que o projeto possa ter. "Embora seja da familia do genro, claro que está afiliado", disse ao Washington Post. Mas isso também implica um risco, sugeriu o investidor. "Ouvimos rumores de que ele é o presidente na História americana que é mais provável ser 'impeached'. Por isso duvido deste projeto".

"Não é a história que queremos"

A apresentação no Ritz-Carlton era aberta à imprensa, mas os jornalistas dos dois diários americanos acabaram expulsos da sala. Um deles viu agarrem-lhe o telefone e a mochila para o obrigarem a sair. Os organizadores disseram que eles ameaçavam a "estabilidade" do evento e que "esta não é a história que queremos". No fim, impediram-nos fisicamente de falar com gente presente na sessão.

Os jornalistas já não deverão estar presentes nas sessões dos próximos dias em sítios diferentes. Mas vários especialistas em ética no governo deploraram a situação. Um chamou-lhe "altamente problemática" e outro disse ao Washington Post que era "incrivelmente estúpida e altamente inapropriada".

Segundo este último, um advogado responsável por questões éticas no governo de George W. Bush, "eles implicaram claramente que os Kushners garantirão que você recebe o seu visto. Claro que os chineses vão querer investir". Na brochura do evento lia-se a frase: "Invista $500,000 e emigre para os Estados Unidos".