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Desenha-se 
o ocaso do “califado” sírio

DELIL SOULEIMAN/GETTY

Forças curdas apoiadas pelos EUA consolidam domínio de Tabqa antes de fecharem o cerco de Raqqa, “capital” do Daesh

Apesar de mais uma ronda de conversações de paz esta semana em Astana (Cazaquistão) sob a égide russa, que, de resto, não levaram a resultados de maior, a guerra na Síria não para e tornou-se mais multipolar que nunca.

Um dos aspetos principais é a luta para erradicar o Daesh e lhe arrancar as últimas zonas do território sírio onde ainda tem implantação (o que coincide com o avanço das forças governamentais iraquianas em Mossul, no Norte do Iraque, último bastião local do grupo).

A ofensiva sobre Raqqa, “capital do califado”, prossegue a bom ritmo e a chave das operações é a infantaria ligeira do YPG, milícia predominantemente curda mas integrando assírios, sunitas, cristãos e outros, com apoio militar norte-americano. Esse apoio revestiu-se de características inéditas a 22 de março, quando helicópteros americanos fizeram o envolvimento vertical das posições do Daesh, largando combatentes do YPG na retaguarda inimiga junto à albufeira de Tabqa.

No início desta semana, mais de 90% da cidade de Tabqa já se encontrava nas mãos da coligação liderada pelos curdos, restando apenas uma bolsa de resistência em torno da barragem e da central elétrica homónimas. Daqui o YPG poderá avançar sobre a margem sul do rio Eufrates e concluir o cerco da “capital do califado”, onde se estima haver 4000 jiadistas dispostos a uma resistência fanática como em Al-Bab e Mossul.

Os sucessos do YPG em Tabqa e Raqqa não estão a ser bem recebidos em Ancara, e no dia 25 de abril a força aérea turca lançou ataques contra posições curdas em Manbij (enclave curdo junto ao troço oriental da fronteira síria) e também no enclave de Efrin (zona oeste da mesma fronteira). Só uma estreita faixa de 40 km de largo dominada pelos turcos e seus aliados separa os dois cantões curdos fronteiriços.

Perante os ataques do seu aliado informal turco, o Kremlin decidiu seguir o exemplo dos EUA em Manbij e enviou forças para Efrin, estreitando a colaboração com os curdos daquela região. Agora, um dos cantões curdos é tutelado pela Rússia e outro pelos EUA, para embaraço de Erdogan.

A luta por Raqqa também está a ter um efeito secundário noutro teatro de operações. Com a necessidade de reforços para a defesa de Tabqa e de Raqqa, a capacidade militar do Daesh na província de Homs caiu a pique. Perante esta fragilidade, o regime de Assad e os rebeldes sírios (que combatem tanto o governo como o Daesh) aproveitaram para realizar avanços significativos numa zona desértica e favorável à movimentação de viaturas.

Durante as últimas semanas o exército governamental reconquistou diversos campos de gás e petróleo em redor da cidade histórica de Palmira, preparando-se para seguir pela estrada M20 na direção de Deir Ezzor, cidade onde uma guarnição do governo se encontra sob cerco desde 2014 e cuja posse é fundamental para controlar a fronteira com o Iraque.

Esta terça-feira, a corrida por Deir Ezzor ganhou uma nova dinâmica, após forças rebeldes apoiadas pelos Estados Unidos terem avançado dezenas de quilómetros através do deserto. Estas forças partiram de bases junto à fronteira com a Jordânia e alcançaram posições a menos de 70 km de Deir Ezzor, elevando a competição pelos despojos do “califado” e aumentado a tensão.

Regime ganha terreno

Assad e seus aliados russo-iranianos averbaram sucessos no norte de Hama e continuam a eliminar enclaves rebeldes em redor de Damasco. Zabadani e Madaya renderam-se. Em Ghouta Oriental, principal bastião da oposição no Sul, o Jaysh al-Islam, apoiado pelos sauditas, entrou em conflito com uma coligação que inclui o Ahrar al-Sham (antiga frente Al-Nusra).