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Benjamin Stora: “Tenta-se fazer crer que a Argélia foi a primeira guerra Islão-Ocidente”

Rui Cardoso

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Nuno Botelho

Nuno Botelho

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É considerado um dos melhores historiadores do período colonial francês. Esteve recentemente em Lisboa, a convite do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, para uma conferência intitulada “A ascensão da extrema-direita e as memórias coloniais”. Nascido em 1950, em Constantine, na então Argélia francesa, publicou três dezenas de livros sobre a colonização francesa e em particular a Guerra da Argélia. Apoiou as candidaturas presidenciais de Ségolène Royal e de François Hollande de quem foi conselheiro. Em entrevista ao Expresso denuncia o revisionismo histórico em França, alerta para a desagregação da direita que renega De Gaulle e critica o desinvestimento dos intelectuais na ação cívica.

A crise dos refugiados na Europa é uma vingança da História contra as ex-potências coloniais?
Para ser uma vingança teria de haver ressentimento da parte das pessoas que tentam chegar à Europa. Ora o que têm é mais um desejo de igualdade, não satisfeito na época colonial e agora pedido. Talvez haja algum regresso da História, mas falar em vingança parece-me um exagero.

Há uma dívida de sangue para com os senegaleses, argelinos, etc., mortos pela França em 1914 e 1940?
Dívida? Ninguém em França pensa nestes termos. Os franceses têm o sentimento de ter levado a civilização aos outros povos. O nacionalismo francês foi construído em grande parte no século XIX com base numa república que se esforçava por levar as luzes ao mundo. Logo, quem resistisse a esse esforço civilizacional era forçosamente um selvagem que era preciso dominar ou aniquilar. Que sentido fazia falar numa responsabilidade moral se estávamos a levar a felicidade aos outros povos? Mesmo contra a vontade destes... Relativamente ao processo de descolonização, que começa grosso modo após 1945, a França chega com bastante atraso. E vai ter duas grandes guerras, a da Indochina (primeira Guerra do Vietname) e a da Argélia. Às vezes esquecemos que a primeira foi muito mais violenta, tendo causado o dobro dos mortos franceses, à volta de 80 mil. Estas guerras representam um arcaísmo francês relativamente à descolonização. E porquê? Por causa da visão que os franceses e toda a classe política, tirando a extrema-esquerda, que era muito minoritária, tinham do assunto. Mesmo a esquerda nunca compreendeu os nacionalismos. Ao implicarem uma reação contra a pátria dos direitos do homem eram vistos como forçosamente reacionários. O surgimento das novas nações era, portanto, negativo. Durante muito tempo a esquerda francesa achou que os nacionalismos conduziam forçosamente ao fanatismo e ao obscurantismo. A base do nacionalismo nos países do Magrebe seria, desde a origem, forçosamente reacionária. Até já há gente em França a apresentar a Guerra da Argélia como o primeiro conflito entre o Ocidente e o Islão.

Assim mesmo?
Tal e qual. Claro que quem fala assim não conhece a realidade argelina, muito menos quem eram os principais líderes independentistas que, na sua esmagadora maioria, não eram religiosos e seguramente não eram integristas no sentido que hoje se dá à palavra. Mas é mais do que um mero anacronismo. É uma forma de dizer ‘nós tínhamos razão na guerra da Argélia, o resto do mundo é que não nos ouviu e esteve contra nós’. Veja-se, dizem eles, como está o mundo 60 anos depois... Era o prenúncio de um choque de religiões.

Mas isso não equivale a renegar De Gaulle?
Claro. Durante muito tempo, na base ideológica da direita gaullista estava a ideia de que a descolonização tinha sido a opção certa. Essa direita via o general como libertador em 1940 [apelo à continuação da luta contra a Alemanha nazi] e como unificador em 1960 [acabando com a Guerra da Argélia que ameaçava desagregar a França]. O drama, na minha opinião, é um apagamento deste segundo De Gaulle no ideário da direita republicana que começa a derrapar para teses próximas da extrema-direita. Esta é que nunca mudou. Foi pétainista em 1940, antigaullista em 1960... Sarkozy, no ano passado, escreveu um artigo dizendo que era contra os acordos de Evian [independência da Argélia], logo contra o general De Gaulle. Mesmo a esquerda nunca soube apanhar a bandeira de De Gaulle. Viu-o sempre como um bonapartista, um tradicionalista...

Nem Mitterrand?
Muito menos Mitterrand. Em 1943 ele ainda estava com Vichy [governo colaboracionista do marechal Pétain], enquanto De Gaulle estava em Londres desde 1940 [quando redigiu o Apelo do 18 de Junho]. E, mesmo depois, a sua matriz foi sempre antigaullista.

A direita quer mesmo enterrar De Gaulle?
Abandonar a herança de De Gaulle é estender a passadeira à extrema-direita que passa a poder dizer, ‘estão a ver, nós sempre tivemos razão, historicamente falando’. Veja-se a propósito o livro agora lançado em França por um ideólogo da extrema-direita, editorialista na BFNTV, Eric Brunet (“L’Obsession Gaulliste”, Albin Michel, 2016). Aí diz que é preciso acabar de vez com o general De Gaulle. Quando se começa a dizer isto, quem tem razão politicamente falando? Marine Le Pen...

Não há ninguém na direita moderada que possa contrariar isto?
Havia Alain Juppé, mas foi arrasado na campanha para as primárias da direita. Apresentaram-no como um muçulmano disfarçado. Até “Ali Juppé” lhe chamaram... E assim surgiu Fillon. E logo depois o escândalo com os empregos públicos da mulher e dos filhos. O grande problema político francês é esta derrocada política e ideológica da direita que abre a porta para a extrema-direita chegar ao eleitorado popular tradicionalista, ao patrão de tasca, ao comerciante, aos religiosos, mesmo àqueles que tinham uma cultura francesa tradicional, de resto gaullista. Todas estas pessoas se sentem traídas, não representadas e olham para a extrema-direita. Do outro lado há uma esquerda totalmente dividida e gera-se uma situação complicada e inédita em França.

Quando começaram os motins em Paris após as agressões policiais a Théo nenhum candidato disse grande coisa sobre ao assunto a não ser Marine Le Pen...
Hollande, apesar de tudo, foi visitá-lo ao hospital...

Mas não é candidato...
Não, mas tirando ele, a esquerda ficou muda e queda, paralisada por uma França que não consegue compreender. Já o caso Fillon é a revelação de que a corrupção de Estado é legal. Podem ganhar-se 10 ou 20 mil euros/mês. Durante anos e durante mandatos sucessivos. Qualquer deputado, qualquer senador, qualquer titular de cargo público pode enriquecer legalmente. É incrível! E quem levantou o caso não foram os políticos mas os jornalistas. Como podem ir ver Théo ao hospital se não levantaram o caso Fillon? É preciso reformar todo o sistema institucional. Os titulares de cargos públicos não podem fazer seja o que for.

Pode falar-se numa crise moral em França?
Sem dúvida! Perante esta corrupção institucionalizada, este desarmamento ideológico e histórico quem aparece com credibilidade? Marine Le Pen, claro. Mas, apesar de tudo, também há Macron. Vem do mundo dos negócios, nunca foi eleito para cargos públicos, logo é visto como alheio aos esquemas de corrupção dos políticos. E tem a vantagem de ser jovem, porque em tudo isto há um lado de revolta geracional. Os jovens estão fartos desta gente com 60 anos ou mais que é vista como ‘os do costume’. É errado dizer, como amigos meus de esquerda diziam sobre Hillary Clinton, que não votariam nela por estar ligada a Wall Street. Viu-se o resultado nos EUA. Dez milhões de pessoas que tinham votado em Obama não votaram e veio Trump. O mundo está a mudar muito depressa e sopram ventos maus da Hungria, da Áustria ou dos EUA. Entre a democracia liberal e o fascismo, para mim a escolha é evidente, portanto, cuidado com a armadilha da pureza ideológica... Não podemos lavar daí as nossas mãos.

Há muita incompreensão da História. Por ser mal ensinada ou por os historiadores não investigarem como deve ser?
É uma boa questão e não diz só respeito aos historiadores mas aos intelectuais de uma forma geral. Em França, os intelectuais desinvestiram da participação em assuntos que tenham que ver com a sociedade e a vida das pessoas. Ao arrepio da tradição do intelectual crítico e politicamente empenhado, que vinha do caso Dreyfus ou de Michel Foucault e que levava as pessoas a olharem para a França com admiração. Seja na história colonial, na do islão em França ou na da emigração há um tremendo desinvestimento, associado a uma vontade de socorrer um nacionalismo francês em apuros cada vez maiores. Como se pode querer que as novas gerações encontrem modelos de referência se, de um lado, na política é a corrupção e, do outro, a intelligentsia se refugia no academismo para não se empenhar na coisa pública? Daí que os jovens emigrem, se deixem atrair pela violência ou pelo integrismo religioso.