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Abstenção: privação ou desistência voluntária de um direito político, cívico ou social*

“Os partidos tradicionais ficaram desfeitos, muitos eleitores vão abster-se”: França vai este domingo a eleições - novamente - e o mundo permanece vigilante (e preocupado)

Joana Azevedo Viana (texto), Reuters, Getty, EPA (fotos)

* in Dicionário Priberam

Se as sondagens mais recentes em França estiveram corretas, Emmanuel Macron vai tornar-se este domingo o 25.º Presidente da República. Aos 39 anos, vai ser o mais jovem Presidente da História de França. Vai dever a vitória ao fracasso dos partidos tradicionais e ao seu desempenho na campanha, mas também à fraca prestação da rival, a líder da extrema-direita Marine Le Pen, no único debate que os colocou frente a frente antes da última volta presidencial.

No rescaldo desse debate, na quarta-feira à noite, 828 dos 1314 franceses que foram inquiridos pela Elabe tinham declarado que o ex-banqueiro de tendência centrista e fervoroso apoiante da União Europeia foi “mais convincente” do que a rival nacionalista. Agora, a dois dias da ida às urnas, uma nova sondagem da Elabe avançou que 62% do eleitorado está prestes a votar em Macron, contra 38% favorável a Le Pen — um aumento de três pontos para o primeiro em relação à semana que precedeu o duelo televisivo.

Cédric Villani vai integrar esses 62%. Classificado pela New Yorker como “a Lady Gaga da matemática francesa”, há dois dias publicou um artigo apaixonado no jornal “Libération” a apelar aos conterrâneos que não fiquem em casa e que não votem branco ou nulo. “Absterem-se corresponde a darem metade dos votos a Marine Le Pen”, alertava no título. Um dia depois, uma sondagem do Instituto Odoxa para a rádio France Info antecipava que a taxa de abstenção vai superar os 30%, a mais alta algum dia registada numa segunda volta presidencial em França desde 1969.

“Esta campanha foi a mais divisora de sempre e os partidos tradicionais ficaram desfeitos, muitos eleitores vão abster-se, especialmente os de esquerda”, antecipa Villani em conversa com o Expresso. Quando lhe perguntamos se vai votar Macron porque apoia o candidato ou simplesmente para impedir uma vitória da extrema-direita, responde sem pudores: “Eu apoio o candidato do Em Marcha!, acima de tudo porque é um verdadeiro europeísta, porque quer afastar-se das querelas destrutivas entre a direita e a esquerda e porque está comprometido com uma maior integração de políticos não-profissionais na política francesa.” Neste momento, acrescenta o génio da matemática sem entrar em pormenor, está “até a contemplar a possibilidade de reforçar o apoio” ao partido.

reuters

Este domingo será a primeira vez que nenhum dos partidos que dominaram a política moderna francesa vai constar dos boletins de voto. Sinal dos tempos, numa altura em que, aponta Villani, “a sociedade está stressada, por vezes até desesperada” e em que “alguns gostariam que o sistema implodisse”.

Depois da vitória do Brexit no Reino Unido e da eleição do populista “antissistema” Donald Trump nos EUA, as presidenciais francesas acabam por marcar este momento de viragem que não é exclusivo de França - “é global”, aponta o diretor do Instituto Henri Poincaré. “Não posso falar pelo instituto, que é apolítico, mas posso dizer-lhe que entre os intelectuais e os académicos há uma grande facção que, temo, vai optar pela abstenção.”

É uma tomada de posição do eleitorado, que em parte não se revê nem no nacionalismo xenófobo e antiUE da Frente Nacional (FN) nem no percurso de Macron, ex-banqueiro de investimento que esteve filiado ao Partido Socialista entre 2006 e 2009 e que, antes de se afastar do movimento defunto para lançar o Em Marcha!, foi nomeado por François Hollande para secretário-geral adjunto da presidência em 2012 e que foi ministro da Economia de Manuel Valls entre 2014 e 2016.

Cristóvão Fonseca, realizador e filho de lusodescendentes, ainda não sabe se o Em Marcha! vai propor “esse outro caminho” que a sociedade deseja depois de décadas de crescente desilusão com os partidos instituídos. No domingo vai votar Macron porque considera “o direito de voto uma coisa muito importante” (“raramente falhei uma eleição”) mas também para “afirmar a oposição a Marine Le Pen”, uma pessoa que “odeia” e cujo partido, a seu ver, “não devia sequer ser considerado um partido”.

Num português perfeito, num pausa de filmagens, explica ao Expresso o que as sondagens têm previsto. “O voto de colère [de raiva] está muito mobilizado, as pessoas estão fartas dos partidos habituais e do sistema, têm vontade de mudança.” Até podem não gostar da alternativa, “mas votar em branco vai privilegiar Marine Le Pen” — e é por isso que ele, Cristophe à francesa, vai votar Macron.

Esta sexta-feira, o líder da corrida concluiu a campanha com mais do que uma boa notícia. Não só lhe é atribuída a vitória no domingo como uma sondagem do “Les Echos” mostra que, se as legislativas fossem hoje, o Em Marcha! conquistaria entre 249 e 286 deputados, muito perto da maioria absoluta, muito à frente dos restantes partidos, da direita à esquerda — Os Republicanos de Nicolas Sarkozy com a UDI conseguiriam entre 200 e 210 assentos parlamentares e os partidos do centro para a esquerda seriam duramente castigados, com o PS a eleger entre 28 e 43 deputados e a Frente de Esquerda de Jean-Luc Mélenchon entre seis e oito. Previsões negras, sobretudo considerando que, apesar de tudo, a Frente Nacional conseguiria eleger, segundo o mesmo inquérito, entre 15 e 25 deputados (neste momento tem dois).

Aos jornalistas em Paris, Macron explicou esta sexta-feira de manhã que já decidiu quem vai ser o seu primeiro-ministro, dando a entender que é uma pessoa que os media não conhecem, em linha com a tal vontade referida por Cédric Villani de acabar com o carreirismo político. A sua escolha, garante Macron, vai refletir o espírito de renovação que ele próprio construiu — renovação que, adiantou, vai passar por “introduzir um elemento de representação proporcional para as eleições à Assembleia Nacional francesa” no seu primeiro ano no poder. Antes já tinha garantido que metade dos candidatos do Em Marcha! ao parlamento vão ser mulheres — o potencial problema, apontava esta semana a BBC, é que nem elas nem eles vão ser “nomes conhecidos” da política.

Seria um problema maior no passado, não tanto agora que a sociedade francesa exige mudança a várias vozes. Neste momento, parte dos eleitores, como Villani, já se renderam ao Em Marcha! e às suas promessas, entre elas lutar por uma maior integração europeia, baixar a taxa de desemprego dos 10% para os 7% e acelerar o que, até agora, tem sido uma lenta recuperação económica desde a crise de 2008 — através da supressão de 120 mil postos de trabalho na função pública, do corte de 60 mil milhões de euros na despesa e de uma aposta forte no investimento.

Os críticos de um extremo ao outro dizem que, no fundo, é mais do mesmo. E muitos eleitores ainda não estão convencidos de que Macron represente realmente a mudança que promete. “Ainda não sei em quem vou votar nas legislativas”, explica o realizador franco-português quando questionado sobre se pondera repetir o voto deste domingo nas eleições de junho. “Não sei se o Em Marcha! vai propor esse outro caminho que as pessoas desejam. Só na altura é que saberei.”

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