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A tentação de uma ‘geringonça’ à francesa

Ganhe quem ganhar em maio, das legislativas de junho sai um xadrez inédito, possibilitando as mais inesperadas alianças

Nas eleições legislativas que se seguirão, em junho, às presidenciais, o mais provável é nenhuma força política ter maioria no Parlamento, obrigando o futuro Presidente a complicadas negociações para conseguir formar Governo. A França pode ficar ingovernável durante algum tempo, porque a paisagem político-partidária pode ser totalmente subvertida pelas presidenciais de 23 de abril e 7 de maio (primeira e segunda voltas).

O eleitorado demonstra grande indecisão e, se os partidos tradicionais do poder — o PS e Os Republicanos (novo nome da UMP e do antigo RPR) — perderem, como é provável, implodirão com estrondo logo a seguir à proclamação dos resultados. No PS, a implosão já está em curso, porque o seu candidato, Benoît Hamon, pode ter uma votação desastrosa, abaixo dos dois dígitos. O mesmo acontecerá a Os Republicanos se François Fillon, atualmente em terceiro ou quarto lugares segundo as sondagens, sair derrotado da corrida ao Eliseu.

Hamon, ainda que introduzindo temas inovadores, como o do salário universal e o do imposto sobre a robotização, não conseguiu espaço entre o centrista Emmanuel Macron e o gauchiste Jean-Luc Mélenchon. Em caso de vitória, nem Macron nem Mélenchon conseguirão, em junho, maioria absoluta na Assembleia Nacional que permita formar um Governo coeso e estável. O primeiro — que reuniu, para as presidenciais, apoios desde a direita aos socialistas moderados passando pelos centristas — está a formar listas de candidatos a deputados com o seu novel movimento “Em Marcha!”, para tentar vencer as legislativas graças à dinâmica que a sua eventual chegada ao Eliseu provocaria. Mas o PS também vai concorrer e, mesmo em crise e na iminência de uma nova derrota histórica, irá apesar de tudo ter votos que faltarão a Macron. No caso da vitória deste último para o Eliseu, provável se for ele a disputar a segunda volta das presidenciais frente à ultranacionalista Marine Le Pen, Macron não terá outra solução senão negociar a formação de um Governo com uma maioria instável que integrará deputados do “Em Marcha!”, socialistas moderados e deputados de Os Republicanos. Ou seja, uma solução de Governo alargada mas com riscos de incoerência interna, na linha da portuguesa, ainda que esta se desenvolva unicamente à esquerda.

Já Jean-Luc Mélenchon, se vencer as presidenciais, dificilmente terá maioria para governar. Mesmo que os partidos Comunista e de Esquerda, que o apoiam, se aliem na segunda volta das legislativas a um PS residual e de esquerda que sobreviva ao descalabro nas presidenciais, o candidato da “França Insubmissa” muito dificilmente somará deputados suficientes.

Macron, Mélenchon e os outros dois favoritos às presidenciais, François Fillon e Marine Le Pen, terão o mesmo problema. O partido da direita, Os Republicanos, está em crise, e dezenas de dirigentes afastaram-se do candidato depois dos escândalos que o atingiram. É por isso improvável que Fillon alcance uma maioria absoluta que lhe permita, em caso de vitória nas presidenciais, formar um Governo coeso. Fillon também teria de negociar com os parlamentares do “Em Marcha!”

Com Marine Le Pen, se fosse eleita, verificar-se-ia provavelmente o caos, porque o sistema eleitoral francês, maioritário a duas voltas, também para as legislativas, a impediria de ganhar esta outra eleição. O chamado “teto de vidro” da segunda volta travará Le Pen, porque não tem aliados que lhe permitam vencer a corrida ao Parlamento. Marine Le Pen não conseguirá estabelecer acordos com outras forças políticas e, por esse motivo, a candidata da Frente Nacional nunca conseguirá constituir uma maioria negociada com os restantes partidos. Com a sua eventual vitória, a França cairia certamente numa grave crise política, agravada por uma muito provável contestação radical nas ruas logo a seguir à sua chegada ao Eliseu, que, de resto, nenhuma sondagem prevê.

Entre todos os cenários possíveis, Emmanuel Macron surge como o candidato mais consensual e menos abrasivo, como aquele que, se for eleito, poderá mais facilmente formar um Governo apoiado numa possível ‘geringonça’, ainda que mais à direita do que a portuguesa.

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