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“Prometeram tanto ao povo britânico que estão destinados a falhar”

A eurodeputada Martina Anderson (à direita na foto) durante uma manifestação em Belfast

getty

Martina Anderson, David Martin e Alyn Smith representam a Irlanda do Norte e a Escócia no Parlamento Europeu. Pertencem a famílias políticas diferentes mas partilham a mesma desilusão sobre o Brexit. Não excluem a visão de um Reino Unido em pedaços

Martina Anderson é a voz de uma Irlanda do Norte que continua a não se conformar com o resultado do referendo que ditou a saída do Reino Unido da União Europeia. Esta eurodeputada, do Sinn Féin, fala numa subversão da democracia, porque na Irlanda que ela representa a maioria votou para ficar no projeto europeu.

O Brexit ameaça agora voltar a formar uma barreira entre as duas partes da ilha e esse é um problema que está em cima da mesa para ser resolvido. "Todos os dias 22 mil pessoas atravessam a fronteira criada artificialmente para trabalhar ou para estudar. Não podemos ter um acordo em que parte da Irlanda está na UE e a outra parte está fora", defende a eurodeputada, que pertence à bancada da Esquerda Unitária no Parlamento Europeu.

No sábado passado, os 27 membros da União Europeia concordaram que é preciso encontrar soluções "flexíveis e imaginativas" para evitar uma "fronteira difícil" entre as duas Irlandas, mas Martina Anderson vai mais longe e pede "um estatuto especial" para a Irlanda do Norte. Ao contrário da primeira-ministra britânica, Theresa May, a eurodeputada não quer abandonar o Mercado Único.

"Parece que há mais consciência e apoio ao povo da Irlanda do Norte por parte da União Europeia do que no Reino Unido", adianta ao Expresso, referindo-se ao conteúdo da resolução aprovada pelo Parlamento Europeu e pelas linhas de orientação acordadas pelos chefes de Estado e de Governo dos 27.

Martina Anderson lembra que a reunificação com a República da Irlanda está prevista no acordo de paz (Sexta-Feira Santa) e que através dela, o Norte poderia continuar a pertencer à União Europeia. "O que é agora preciso é que o Governo irlandês avance com um plano detalhado para a unidade da Irlanda e que pressione para um referendo sobre este assunto", diz.

O eurodeputado escocês Alyn Smith (à direita na foto) quando ganhou o lugar de deputado, em Edimburgo

O eurodeputado escocês Alyn Smith (à direita na foto) quando ganhou o lugar de deputado, em Edimburgo

reuters

Também o escocês Alyn Smith vê a independência da Escócia como meio para ficar no Mercado Único e no projeto europeu. Este eurodeputado, do Partido Nacional Escocês, que tem assento na bancada dos Verdes no Parlamento Europeu, recorda que aquando do referendo de 2014, os escoceses decidiriam ficar no Reino Unido porque, na época, sair significava também deixar a UE. "Fizeram-nos promessas que agora deixaram de existir, por isso temos outras opções".

Uma solução já defendida pela primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon - também do Partido Nacional Escocês -, passa por fazer um novo referendo que abra a porta à independência.

"Gostaríamos de ver todo o Reino Unido permanecer no Mercado Único, celebramos as quatro liberdades, e a imigração tem sido ótima para a Escócia", diz Alyn Smith, lamentando que Londres não pense da mesma maneira. Assim, não esconde a alternativa. "Estamos empenhados num referendo sobre os detalhes do Brexit e não podemos travar o Brexit no seu todo, mas ao escolhermos ser um estado independente na União Europeia podemos travar o Brexit para a Escócia".

O eurodeputado escocês mostra-se ainda muito cético quando ao sucesso das negociações. Entende que o Governo britânico tem "expectativas totalmente irrealistas" e que não está a levar o processo a sério.

"Ativar o artigo 50 e depois convocar eleições está para além do absurdo", diz, acusando os Conservadores britânicos e Theresa May de estarem preocupados apenas com a própria agenda política, não com o interesse nacional. "Não temos qualquer fé no Governo britânico para representar os nossos interesses", conclui.

David Martin

David Martin

d.r.

O ceticismo de Alyn Smith é partilhado por um outro escocês. David Martin, eurodeputado do Partido Trabalhista, é duro na crítica à posição negocial de May. "Prometeram tanto ao povo britânico que estão destinados a falhar", diz ao Expresso, acusando o Governo britânico de acreditar num "Brexit fantasioso", em que o Reino Unido fica apenas com as partes que lhe agradam da UE, vendo-se livre das obrigações difíceis.

"Se conseguissem isto seria o fim do projeto europeu", observa o eurodeputado da família socialista europeia. E numa altura em que os britânicos se preparam para ir às urnas, lança esperanças ao próprio partido. "Espero que os Trabalhistas estejam em posição de capitalizar o descontentamento do povo e proponham uma solução sensata para a dor de cabeça que é o Brexit".

Tanto o Governo britânico como os 27 prometem colocar os interesses dos cidadãos no topo das prioridades e das negociações. Do lado europeu, existe o compromisso de defender mais de 4 milhões de pessoas - europeus que vivem no Reino Unido e britânicos que vivem noutros estados membros - permitindo-lhes que não percam no futuro os direitos atuais.

David Martin fica satisfeito que as duas partes queiram "alcançar um acordo sobre os direitos dos cidadãos", mas diz que se a primeira-ministra britânica quisesse mesmo este objetivo "não estaria a seguir um Brexit desastroso que retirará aos escoceses o direito de trabalhar e estudar na UE como se estivessem em casa".

O trabalhista vai ainda mais longe no descontentamento: "fico profundamente triste ao pensar que as novas gerações não vão desfrutar dos mesmos direitos que temos agora enquanto cidadãos europeus".

David Martin, tal como Martina Anderson e Alyn Smith, esperava que o referendo de 23 de junho de 2016 tivesse um outro desfecho. Acredita ainda que possa haver um mecanismo que mantenha a Escócia no Mercado Único, mas admite que o cenário mais provável é que a Escócia seja forçada a escolher entre o Reino Unido e a UE.