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Extrema-direita americana espalha conteúdos retirados dos servidores de Macron

CHRISTIAN HARTMANN/REUTERS

No ciberataque ontem noticiado pela campanha de Macron, os 'hackers' podem ter sido russos, mas quem espalhou o conteúdo foi gente dos EUA

Luís M. Faria

Jornalista

Sexta-feira à noite, foi anunciado que a campanha de Emmanuel Macron fora atacada por 'hackers' e que cerca de nove gigas de informação roubada tinham sido postos na net. As estritas limitações legais em França impedem os candidatos e as suas campanhas de fazer quaisquer declarações públicas na véspera da eleição e no dia desta até ao fecho das urnas. Assim, Macron não pode defender-se de nada que esteja a correr sobre ele.

O organismo que supervisiona as eleições em França pediu responsabilidade aos media e aos cidadãos, lembrando que a divulgação das informações em causa é crime. Mas sabe-se que o 'hashtag' #MacronLeaks - usado para identificar e espalhar os ficheiros em causa - se tornou o mais visto em França nas últimas 24 horas. Em boa medida, graças ao esforço de gente nos EUA.

Independentemente de quem assaltou os computadores e os mails da campanha de Macron (a suspeita, como sempre, cai nos russos), sobre quem os divulgou originalmente parece não haver dúvidas. Um site chamado 4Chan, o mais visto da extrema-direita americana, fez notar a presença deles num outro site, o Pastebin, muito usado para divulgar informação anonimamente. A seguir a Wikileaks referiu o que a 4Chan dizia e garantiu circulação mundial à informação. Se o primeiro tweet tinha tido 87 retweets em cinco minutos, #MacronLeaks já ia nos 47 mil utilizadores umas três horas e meia depois.

Os antiglobalistas a tentarem ser globais

Macron disse que o que estava em causa era claramente uma tentativa de desestabilizar a campanha, e lembrou que algo semelhante aconteceu durante a última campanha presidencial americana. Ben Nimmo, investigador no departamento investigação forense digital do Atlantic Council, um 'think tank' norte-americano, sublinhou a ligação: "São os antiglobalistas a tentarem ser globais. Há um sentimento de tentar exportar a revolução", disse ele ao "New York Times".

Outro especialista reiterou o paralelo entre as duas eleições, mas pôs a ênfase na Rússia: "Se é de facto dirigida por Moscovo, esta fuga parece ser uma escalada significativa em relação às anteriores operações russas na eleição presidencial americana", disse Vitali Kremez, da Flashpoint, uma companhia de análise de risco. "Expande a abordagem e o âmbito dos simples esforços de espionagem para tentativas mais diretas de afetar o resultado".

Reconhecendo esse risco, a comissão eleitoral francesa apelou a todos os que usam a internet é as redes sociais, "principalmente os media, mas também todos os cidadãos (...) para não transmitirem este conteúdo", a fim de não distorcer a eleição.

Dúvidas não verificáveis a tempo

No último mês, a campanha de Macron já se tinha queixado de estar sob ataque de piratas informáticos. As investigações apontavam para o grupo APT28, o mesmo que terá pirateado os computadores da campanha de Hillary Clinton. A publicação dos ficheiros então obtidos pela Wikileaks causou um prejuízo substancial à candidata Democrata, havendo quem considere ter sido um dos fatores principais na sua derrota. Desde essa altura, vários países europeus onde há eleições este ano, incluindo a Alemanha, têm chamado a atenção para a necessidade de evitar acções semelhantes nos seus países.

Desta vez até defensores da Wikileaks concordam que as informações agora publicadas podem ter efeitos negativos. em declarações ao Le Monde, um aliado de Julian Assange criticou a #Macron Leaks em declarações no Le Monde. "A umas horas do fim da campanha, aproveitando-se do silêncio imposto aos candidatos, atiram-se em massa gigas inteiros de dados... para quê?", perguntou-se Juan Branco, conselheiro do fundador da Wikileaks. "Levantar a suspeita? Criar uma dúvida não verificável a tempo?".