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Se Marine perder, as sondagens recuperam credibilidade?

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É preciso ver as coisas como realmente são e tentar perceber as razões de fundo, dizem André Freire e Rui Oliveira Costa

Luís M. Faria

Jornalista

Se no este domingo se confirmar aquilo que é esperado, as eleições francesas não terão sido apenas a grande oportunidade para deter o avanço da extrema-direta na Europa. Também serão, para muita gente, o momento em que a indústria das sondagens recupera definitivamente a sua credibilidade, depois de na primeira volta já ter acertado nos resultados quase ao ponto. Um contraste com o que aconteceu no referendo britânico do Brexit e, sobretudo, em novembro passado nos EUA, quando, contra o que as sondagens aparentemente indicavam, Donald Trump venceu a eleição presidencial.

Na véspera dessa eleição, sites de referência (por exemplo, o do "New York Times") baseavam-se nas sondagens para atribuir a Hillary Clinton percentagens de favoritismo que chegavam a ultrapassar 90%o. Porém, a candidata democrata perdeu. Seguiram-se longos debates sobre os motivos do revés, e houve quem explicasse que os resultados finais das eleições tinham ficado – à justa – dentro da margem de erro das sondagens. As interpretações demasiado otimistas do favoritismo é que deram uma impressão errada.

A maioria das pessoas terá achado que as consultas de opinião, um instrumento cada vez mais utilizado por politicos e não só, afinal tinham uma fiabilidade bastante discutível. Mas Rui Oliveira Costa, da empresa Eurosondagens (responsável pelos estudos que o Expresso publica), diz que não é assim. "As sondagens estimam votos. A média delas dava dois milhões de votos a mais para Hillary. Ela teve 2,9. Em percentagem, davam 1,7 a mais. Ela teve 2,1". Garante que nenhuma empresa de sondagens apresentou um vencedor. "O problema foram as extrapolações", explica.

Em vinte anos, a única vez que as empresas anunciaram antecipadamente um vencedor nos EUA foi em 2012, aquando da reeleição de Barack Obama. Em 2016 não o fizeram. Os números davam 41 estados atribuídos – 24 a Trump, 17 a Hillary e o resto era "campo de batalha", ou seja, podia ir para um lado ou para o outro: sete estados acabaram por ir para Trump e três para Hillary. "As sondagens estavam certas. Foram mesmo das mais certeiras na história americana", conclui Oliveira Costa.

Quanto à excelente performance de há duas semanas em França. o mesmo especialista não ficou surpreendido. Em geral, afirma, "as sondagens cada vez são melhores. O erro que ainda não consegui esclarecer foi o falhanço da boca de urna no Brexit. Na boca de urna, não há desculpa com a abstenção. O Brexit foi parecido com o primeiro referendo sobre o aborto em Portugal. Foi a única boca de urna que falhou em Portugal. Estamos a falar num caso em cada trinta. As regionais em França bateram certas em 22 regiões. Em Espanha, nas dezassete".

Se as sondagens são assim tão fiáveis, qual é o motivo? "Há uma técnica que se vai aprimorando. Todos estamos a aprender uns com os outros. Não quer dizer que amanhã não falhem". Rui Oliveira Costa insiste na distinção entre os diversos tipos de sondagens. "Uma sondagem pré-eleitoral não é uma previsão. Previsão só no dia. A não ser, eventualmente, num país como o Brasil, onde o voto é obrigatório. Nas eleições europeias, com uma abstenção que anda pelos 60%, tanto pode dar uma coisa como outra qualquer".

Em França, sendo tradicionalmente elevada a taxa de participação nas eleições presidencias, o risco de erro é mais pequeno. "As hipóteses de Marine le Pen ganhar, a meu ver, são inexistentes", diz Oliveira Costa. "Se fosse no Placard, eu não apostava um euro. Na verdade, nunca existiram". Só por causa das sondagens? "Não. Eu olho para as sondagens como qualquer cidadão. Estou a falar como politólogo. Com aquele sistema eleitoral, acho uma impossibilidade".

É uma pura questão de maioria sociológica, ou, mais exatamente, de falta dela. "No Chile, o Allende foi Presidente com 36%. O sistema permitia que alguém com essa percentagem fosse Presidente, num país em que 63% votavam à direita. E acabou num desastre". A eleições em duas voltas, como existe em França, evita esses riscos.

"Não falam para essas pessoas"

O politólogo André Freire, professor do ISCTE, também defende as sondagens da eleição presidencial americana, notando que Hillary Clinton, tal como elas previam, recebeu a maioria dos votos. "Na verdade, ela ganhou as eleições. A questão é que aquilo é um processo complexo, com o Colégio Eleitoral, e acabámos por ter um vencedor 'errado', como eu costumo dizer. Alguém que teve menos votos", diz.

"Pode haver limitações nas sondagens, mas nesse caso houve uma certa injustiça", continua. "Nas eleições francesas é mais simples, porque é um voto direto. Mas a eleição era difícil para as sondagens. À beira da primeira volta, o número de pessoas que ainda não tinham decidido o seu voto era muito grande. A situação era muito volátil. Há muitos protagonistas novos, com fraca ancoragem partidária, e isso batalhava muito. Apesar disso, as sondagens revelaram-se relativamente fidedignas", refere.

Para ele, uma preocupação básica, em especial após o debate desta quarta-feira entre Emmanuel Macron e Marine le Pen, é o simples facto desta última se encontrar naquele lugar. "Ela está ali a discutir taco a taco com o outro candidato. No fundo, é um elemento de normalização da extrema-direita". Quanto às propostas de Le Pen, por exemplo em relação à Europa, descreve-as como "um bocado gasosas. Quer sair no euro, e no limite da Europa. São soluções mal explicadas e com problemas. Macron mostrou isso bem", analisa.

Freire diz que as forças politicas e os comentadores deviam fazer um esforço maior para perceber a razão por que partidos como a Frente Nacional aumentam as suas votações. "Porque é que as pessoas na base da escala social cada vez votam mais nestes partidos de protesto, e nomeadamente na direita radical. Ela explicou isso. Tentou encostar o tipo à alta finança, e também a uma governação muito convergente com o neo-liberalismo. É isso que ela ataca. Mesmo em questões culturais, é muito mais fácil gerir os problemas da imigração islâmica num país como Portugal, onde ela é uma irrelevância estatística, do que em França", sustenta.

O politólogo invoca uma leitura recente para lembrar que a variável económica é determinante no modo como um cidadão é afetado pela imigração e outros assuntos. Ter dez mil euros de rendimento mensal não é o mesmo que ter mil. "Os partidos tradicionais têm descurado essas questões. No programa da Frente Nacional há muita coisa que é mais para a esquerda, ou centrista. A nível económico, de proteção social. Como acontecia com os nazis. Isto é um perigo. É o mais importante, e os partidos não estão a dar atenção. Não falam para essas pessoas", diz. Para Freire "isso é o ponto mais positivo das intervenções de Le Pen", mas logo avisa que Trump, outro populista com um discurso em muitos aspetos semelhante, "também diz que vai defender as pessoas na base da escala social, com um protecionismo económico, e depois tem uma administração que é só milionários, contra a escola pública, etc".

Poderão surgir fenómenos nessa linha em Portugal? "Acho que em Portugal os partidos mais à esquerda, sobretudo o Partido Comunista, têm conseguido falar um pouco para essas pessoas mais desprotegidas. Imigração não é um tema em Portugal. Claro que há imigrantes, mas os que há não são tão diferentes de nós como a comunidade islâmica em França. E lá existe também a violência. Nós não temos isso", responde André Freire.

Os partidos de esquerda, conclui, podem e devem fazer a aproximação às pessoas na base da escala social. Nos EUA isso não aconteceu. "Para a senhora Clinton, desigualdade era só desigualdade de género. As desigualdades económicas estão aí, as diferenças entre as classes, de novo, com uma força enorme. Não falam para estas pessoas, e depois têm surpresas".

O politólogo diz que isso é uma das razões da crise dos partidos socialistas, e acrescenta: "Apesar de tudo, em Portugal, com esta solução política, e já antes com os partidos da esquerda radical, sobretudo o Partido Comunista, que tem uma grande ancoragem social, tem sido feito esse papel".

No que respeita à Europa, André Freire diz que a crítica tem de ser mais assertiva. "Porque também é isso que nos traz aqui".