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Famoso maestro venezuelano pede a Maduro que “ouça o povo”

Gustavo Dudamel com Hugo Chávez, numa foto de 2011

JUAN BARRETO

Gustavo Dudamel, em tempos acusado de não ser suficientemente crítico do governo socialista, recorreu ao Facebook para pedir o fim da repressão e da violência. “Nada pode justificar o derramamento de sangue”

O diretor musical da Orquestra Filarmónica de Los Angeles, Gustavo Dudamel, recorreu esta quinta-feira ao Facebook para pedir ao governo do seu país-natal que "ouça o povo" depois de mais de um mês de protestos contra o Presidente Nicolás Maduro e de violentos confrontos nas ruas de Caracas e de outras cidades, que já provocaram mais de 30 mortos e centenas de feridos e detidos.

No post, publicado no rescaldo da morte de um músico de 18 anos em confrontos renovados com a polícia em Caracas esta quarta-feira, o famoso maestro, que continua a dirigir a Orquestra Sinfónica Simon Bolívar da Venezuela, diz que "nada pode justificar o derramamento de sangue" que continua a manchar as ruas de várias cidades do país.

"Temos de parar de ignorar a justa exigência do povo sufocado por uma crise intolerável", escreve o músico de 36 anos na sua página de Facebook. "Nenhuma ideologia pode ir para lá do senso comum, a política deve ser exercida com consciência e respeitando totalmente a Constituição."

Amigo do falecido Presidente Hugo Chávez e em tempos acusado de não tecer críticas suficientes ao governo socialista da Venezuela, Dudamel pede a Maduro que "ouça a voz do povo venezuelano" e que crie um sistema "em que podemos caminhar livres na dissidência, com respeito, tolerância e diálogo".

Os protestos e confrontos que continuam a dominar a Venezuela tiveram início no final de março, quando o Supremo Tribunal tentou chamar a si poderes até então exclusivos da Assembleia Nacional, atualmente controlada pela oposição ao PSUV de Maduro.

O país está a sofrer uma severa escassez de bens essenciais, como comida e medicamentos, depois de a queda dos preços do petróleo terem atingido duramente a economia venezuelana, que tem nas exportações de crude uma das suas grandes fontes de receita. Neste momento, o Fundo Monetário Internacional (FMI) antecipa que a inflação vá atingir os 700% do PIB no ano fiscal corrente.

Apesar de o Supremo ter revertido a sua decisão três dias depois do anúncio, no início de abril, as pessoas continuaram a mobilizar-se nas ruas contra as políticas do governo e má gestão da crise. A revolta piorou esta semana, depois de Maduro anunciar que vai criar uma assembleia popular constituinte, barrada aos partidos da oposição, para "reescrever" a Constituição – no que os críticos dizem ser a derradeira tentativa para contornar o Parlamento.

O rapaz de 18 anos que morreu esta quarta-feira integrava o El Sistema, o famoso programa de educação musical das crianças e jovens venezuelanos que continua a ter em Dudamel a sua estrela-maior.

Esta quinta-feira, Caracas voltou a ser palco de novos confrontos, com jovens a atirarem pedras e bombas incendiárias contra a polícia, que respondeu com balas de borracha e canhões de água. De acordo com uma fonte da procuradoria-geral à AFP, o número de vítimas subiu após um líder estudantil ter sido baleado durante um encontro de opositores de Maduro no estado de Anzoategui.

O governo já avisou os manifestantes de que o seu direito a protestarem nas ruas não é absoluto, com o ministro da Justiça e do Interior Nestor Reverol a dizer, na quarta-feira, que o bloqueio de estradas prevê penas de até oito anos de prisão para os responsáveis.