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“Parece que perdeu a cabeça”. As 24 horas de declarações “surreais” de Trump

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Historiadores e assessores do Partido Republicano estão “perplexos” com a maratona de entrevistas e tweets do Presidente na segunda-feira – entre outras, disse que “seria uma honra” conhecer Kim Jong-un e sugeriu que o Presidente Andrew Jackson ficou muito zangado com a guerra civil e que podia ter evitado o conflito se estivesse no poder (Jackson morrera 16 anos antes)

Ainda faltavam nove horas para o dia desta segunda-feira, 1 de maio, acabar em Washington DC e já Donald Trump tinha espalhado o caos entre os funcionários da Casa Branca e os membros do Partido Republicano, com uma série de declarações "sem sentido" sobre a guerra civil que estalou há 150 anos nos EUA, por causa da escravatura, e sobre líderes mundiais controversos como o Presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, e o líder da Coreia do Norte, Kim Jong-un.

O facto foi apontado pelo "Politico" num artigo publicado esta terça-feira sobre o comportamento errático do Presidente norte-americano no 1.º de Maio. Nesse dia, Trump começou por questionar porque é que a guerra civil teve de acontecer, dizendo no Twitter que o Presidente Andrew Jackson (1829-1837), seu declarado ídolo, ficou muito zangado quando percebeu que o conflito ia estalar e que, se estivesse no poder, podia tê-lo evitado. (Jackson morreu 16 anos antes de os estados do sul entrarem em conflito com os restantes porque queriam continuar a escravizar os negros).

De seguida, disse que seria uma "honra" conhecer pessoalmente Kim Jong-un, o ditador da Coreia do Norte cujo programa nuclear e de mísseis está na base das crescentes tensões na região – desde que "nas circunstâncias certas". Depois, sugeriu que podia criar um imposto extra sobre a gasolina, para logo a seguir afastar essa ideia. Também disse que está "a estudar" a possibilidade de dividir os grandes bancos, levando à queda dos preços das ações em bolsa.

Virou depois as atenções para o Presidente das Filipinas Rodrigo Duterte, elogiando o carrasco de toxicodependentes e alegados traficantes de droga pela sua elevada taxa de popularidade. E concluiu a série de entrevistas e tweets com a promessa de alterar o projeto-lei que os republicanos apresentaram para "revogar e substituir" o Obamacare, dando mostras de que não sabe o que é proposto nessa legislação de saúde.

Reações de "perplexidade"

"Parecem ter sido umas das mais bizarras 24 horas da história dos Presidentes americanos", refere Douglas Brinkley, historiador especializado nas sucessivas administrações dos EUA. "Foi tudo uma desordem surreal, um estado mental confuso do Presidente."

As entrevistas – à Bloomberg, ao programa "Face the Nation" da CBS News e à rádio SiriusXM – surgiram ao final dos primeiros 100 dias de Trump no poder, marcados no sábado, e pareceram ter sido agendadas para coincidir com a efeméride. Mas, como admitiu uma fonte da Casa Branca ao "Politico", "não nos ajudaram em nada. Não fez sentido [Trump] dar todas essas entrevistas."

Sob anonimato, essa e outras fontes da administração reconhecem que não foi delineada qualquer estratégia para orientar essas conversas com os media. E pessoas ligadas ao Partido Republicano no Congresso admitem que ficaram baralhadas e até "perplexas" com as coisas que o Presidente disse. "Não faço ideia do que é que eles [governo] consideram ser um sucesso com os media", diz uma das fontes, um consultor do partido pelo qual Trump foi eleito que, segundo o "Politico", mantém relações próximas com a administração. "Ele parece simplesmente ter perdido a cabeça hoje [anteontem]", acrescenta um assessor republicano.

"Supremacistas brancos, defensores de causas perdidas, ativistas dos direitos dos estados [secessionistas] podem agarrar-se a isto", diz David Blight, professor de História na Universidade de Yale dedicado a estudar a Guerra Civil, em relação às declarações do Presidente sobre "porque é que" essa guerra teve de acontecer. "Não sei se Trump sequer sabe o que está a fazer. É possível ser-se demasiado ignorante para se ter noção de que se é ignorante."

Nesse mesmo dia, e já depois de ter falado sobre a "honra" que teria em conhecer o líder norte-coreano, Trump recorreu ao Twitter para avisar que "ninguém está seguro" enquanto Pyongyang continuar a avançar com o programa nuclear e os testes de mísseis – numa altura em que os dois líderes continuam a trocar ameaças.

Spicer tentou explicar porque é que Trump se sentiria "honrado" em conhecer Kim Jong-un

Spicer tentou explicar porque é que Trump se sentiria "honrado" em conhecer Kim Jong-un

Alex Wong/GETTY

Numa conferência de imprensa ao final do dia, o porta-voz da Casa Branca, Sean Spicer, tentou defender o que Trump disse horas antes, referindo que Kim "assumiu o poder quando era muito jovem e levou o país para a frente". Apesar do tweet do Presidente, e do facto de outros assessores da administração terem sublinhado que o potencial encontro entre Trump e Kim só aconteceria se o líder norte-coreano mudasse a sua atitude, uma cenário improvável, muitos consideraram os comentários de Spicer uma espécie de elogio a Kim.

Demência?

Esta terça-feira, e depois de Trump ter saído a meio da entrevista com a CBS por causa da insistência do jornalista John Dickerson em questioná-lo sobre as alegadas escutas que ele diz terem sido ordenadas por Barack Obama à sua sede de campanha, alguns jornalistas disseram estar preocupados com a saúde mental do Presidente, que está prestes a completar 71 anos, sugerindo que ele pode sofrer de demência.

"[A entrevista com a CBS] foi realmente chocante", declarou Joe Scarborough no seu programa "Morning Joe". "Ele estava a balbuciar coisas, a divagar, incoerente, e de repente mesmo antes de parar de falar, levantou-se e foi-se embora. A minha mãe sofre de demência há dez anos", continuou o jornalista, para surpresa do co-apresentador do programa, Mika Brzezinski. "Isto [o que Trump disse] soa ao tipo de coisas que a minha mãe diria hoje... Vai para lá da realidade e com isto não estou a tentar mais nada que não ser muito direto. Isto é algo que uma criança de cinco anos poderia perguntar", referiu sobre a questão que Trump fez sobre os motivos da guerra civil. "Nenhum adulto dos que eu já conheci em toda a minha vida diria uma coisa daquelas."

Não há muito tempo, no final de abril, uma equipa de psiquiatras da Universidade de Yale já tinha declarado ser seu "dever" alertar para a falta de estabilidade mental do Presidente Trump que o torna incapaz de governar.