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Três meses depois, Obama volta “ao ativo”. E promete luta ao “gerrymandering”

Obama na segunda-feira passada, na universidade de Chicago

epa

O ex-Presidente dos EUA regressou “ao ativo” numa sessão com estudantes em Chicago. Em maio, estará em Berlim

Luís M. Faria

Jornalista

Durante três meses, desde que Donald Trump lhe sucedeu no cargo de Presidente, Barack Obama praticamente não se fez ouvir em público. Seguindo a tradição nos EUA, deixou o caminho livre ao novo presidente para fazer o que bem entendesse sem ficar sujeito aos comentários do seu predecessor imediato. Mesmo nos momentos em que as medidas de Trump lançaram a confusão no país, em especial com uma ordem executiva que excluía a entrada nos Estados Unidos a pessoas oriundas de sete países muçulmanos - ordem que gerou caos e angústia nos aeroportos e rapidamente foi declarada inconstitucional pelos tribunais -- Obama absteve-se de falar, com uma ou outra exceção discreta, em termos vagos.

A certa altura, apareceu uma imagem dele com um sorriso enorme e de capacete na cabeça, com o mar por trás. Tirada na ilha privada do milionário Richard Branson nas Caraíbas, era o retrato eloquente das férias paradisíacas que Obama oferecera a si mesmo. Na altura houve quem perguntasse: porquê? O que sabe ele para estar tão contente, quando uma parte substancial do país se afligia com Trump?

d.r.

Das Caraíbas, Obama seguiu para a Polinésia Francesa, com passagens pelo seu Hawai natal, num total de três meses de férias tropicais. Agora as férias acabaram. Este domingo Obama reuniu-se com um grupo de adolescentes envolvidos num programa que visa criar oportunidades de trabalho para jovens em risco ("ouviu as histórias dos jovens e partilhou alguns dos desafios que enfrentou quando estava a crescer", disse o seu porta-voz, Kevin Lewis) e esta segunda-feira foi à Universidade de Chicago falar na presença de três centenas de estudantes, dos quais seis, incluindo um republicano, subiram ao palco para conversar com ele. O evento, transmitido em direto na net, é apresentado como um debate sobre organização comunitária e envolvimento cívico.

Obama ainda é o líder?

O 44º presidente do EUA nunca prometeu que ia ficar em silêncio quando deixasse o cargo. "Acho que Barack Obama é provavelmente o líder do Partido Democrata, embora esteja numa espécie de hiato neste momento", disse este domingo na CNN Alyssa Mastromonaco, que foi sua vice-chefe de gabinete.

As afirmações dela têm razão de ser. No sistema político americano, e em particular nos dois principais partidos, o líder é normalmente o Presidente, quando o partido ocupa a chefia de Estado; ou então, o candidato presidencial do momento. Obama não deixou um sucessor óbvio no Partido, nenhum dos nomes normalmente referidos, incluindo o do senador Bernie Sanders, que concorreu contra Hillary Clinton nas primárias, parece ter o peso necessário para ocupar esse lugar. Na ausência de um eleição formal para secretário-geral que tenha o peso decisivo das que acontecem na generalidade dos países europeus, a situação pode ser ambígua.

Tendo apoiado a candidatura de Hillary Clinton, Obama sofreu um revés pessoal com a vitória de Donald Trump. Ele próprio tinha explicado aos votantes que eleger Hillary era essencial para proteger o seu legado. Trump não demorou a confirmar isso mesmo. Embora o contacto inicial entre os dois tenha sido em tom de cordialidade - após a sua primeira visita à Casa Branca, o presidente-eleito disse que tencionava recorrer com frequência aos conselhos de Obama - depressa a realidade provou outra coisa. Trump rapidamente atacou o legado de Obama, a começar pelo seu elemento mais importante - a lei do sistema de saúde, que leva o nome Obamacare -- e o facto de ter falhado no Congresso não o impedirá de voltar a tentar.

Obama continuará em Washington

Quer queira quer não, Obama fará parte da resistência. Quando a CNN perguntou a Mastromonaco se ele regressará à política, a resposta foi: "Bem, ele tem de o fazer, certo?". O casal Obama, ao contrário de presidentes anteriores, vai continuar a viver em Washington, alegadamente para não interromper o percurso escolar de uma das suas filhas (que só termina o liceu em 2019), mas talvez também para permanecer junto aos centros do poder. A família instalou-se numa casa antiga com largas centenas de metros quadrados, situada num bairro de luxo. Com os alegados sessenta milhões de dólares que Obama vai receber pelo livro de memórias que já está a preparar, não haverá problemas em pagá-la.

d.r.

Para já, ele manifestou expressamente o seu empenho em trabalhar nalguns assuntos. Por exemplo, a mobilização dos eleitores (se os apoiantes de Hillary tivessem o mesmo entusiasmo dos de Trump, ela vencia as eleições) e o combate ao chamado 'gerrymandering''. Este último, muito usado pelos republicanos mas não só, é uma prática de demarcação abusiva dos distritos eleitorais, com vista a maximizar as vantagens de um partido sobre a concorrência. Outros temas e outras formas de envolvimento cívico devem estar na agenda de Obama. Ao debate desta segunda-feira segue-se, no próximo mês, um evento com Ângela Merkel junto às Portas de Brandenburgo.

Pelo caminho, outras cerimónias e sessões, públicas e privadas, algumas das quais pagas a peso de ouro. Não é invulgar antigos presidentes dos EUA receberem centenas de milhares de dólares por uma aparição.