Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

O abril sangrento que lançou um país no caos

Perante o aumento da tensão social, a oposição não vai mudar de tática: rua e mais ru

RONALDO SCHEMIDT/ Getty Images

A repressão dos protestos contra a tentativa de Nicolás Maduro de anular o Parlamento provocou 34 mortos e mais de 500 feridos

Daniel Lozano, em Caracas

No imaginário revolucionário, abril é o mês das vitórias, como a que o regime venezuelano averbou com o falhanço, em 2002, do golpe de Estado contra Hugo Chávez. Ou, após a morte deste, a polémica subida ao poder de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais de 2013.

A história de invencibilidade do Governo bolivariano choca, agora, com uma nova realidade: a Venezuela vive há um mês uma vaga de protestos gerada pelo “Madurazo”, ou seja, a emissão pelo Tribunal Supremo de sentenças contra o Parlamento (onde a oposição é maioritária). A Mesa da Unidade Democrática (MUD), que junta as forças opostas ao Presidente, considera que foi um “autogolpe”.

O gesto do chavismo foi tão mal executado que provocou uma reação em cadeia de desfecho desconhecido: a rebelião dos deputados, convertidos agora em heróis, a reunificação da oposição; a indignação internacional; a demarcação da procuradora-geral, um dos poderes da revolução; e o regresso das massas à rua como forma de protesto.

O cenário político venezuelano mudou radicalmente e de forma inesperada, empurrado sobretudo pelo crescendo de manifestações pacíficas da oposição que o Governo decidiu combater com “repressão brutal” (nas palavras do Parlamento Europeu) levada a cabo pelas forças de segurança. Houve inúmeros episódios de violência, com participação destacada dos famosos Coletivos Revolucionários (mescla de paramilitares e radicais chavistas), principalmente em Caracas, Lara, Barinas, Mérida e Táchira.

Até ao momento, foram contabilizados 34 mortos (incluindo quatro menores), mais de 500 feridos e 1289 detidos dos quais 65 ficaram presos. O número de presos políticos na Venezuela ascende, assim, a mais de 180. Estes números aumentam todos os dias: a penúltima vítima é o estudante Juan Pablo Pernalete, de 20 anos. Um guarda nacional atingiu-o mortalmente no coração durante um protesto em Caracas, ao disparar uma granada lacrimogénea a um metro de distância.

“O Governo decidiu pagar o altíssimo preço da repressão violenta porque sabe que ceder teria um custo ainda maior”, conclui o politólogo Ángel Álvarez. Um relatório do Ministério Público sobre as manifestações acrescenta mais 11 mortos, ocorridos durante pilhagens no bairro de El Valle, na capital, durante a madrugada de 21 de abril, que se seguiram a horas de distúrbios que afetaram vários comerciantes portugueses.

Nessa noite de fúria misturaram-se o desespero e o vandalismo, num clima de degradação económica e social que esboroou as bases do chavismo. A inflação galopa de novo sem controlo, depois de ter sido a maior do mundo em 2016. Os preços subiram entre 500% e 800%, segundo analistas e organismos internacionais. Como se isto não bastasse, a escassez de alimentos e medicamentos agravou-se nas últimas semanas, depois de o Executivo ter pago mais de 2000 milhões de dólares de dívida externa e reduzido a importação de produtos básicos.

O futuro joga-se nas ruas

A evidente tensão social e as novas circunstâncias levaram a MUD a tomar a decisão de se manter nas ruas. Graças aos erros do chavismo, o jogo está de novo em marcha. Mesmo que o regime convoque para o final deste ano as eleições regionais que estão suspensas desde dezembro de 2016, como admitem certos rumores políticos, a oposição não mudará de tática: rua, e mais rua. Não só está convencida de não ter outra saída, como sabe que a resistência pacífica permite preservar a união nas suas fileiras, quebrada após o fiasco da Mesa do Diálogo no ano passado.

As sondagens asseguram que 7 a 8 de cada 10 venezuelanos exigem mudanças a curto prazo. “A oposição precisa de fortalecer o apelo à mudança, intensificar essa aspiração e tomar iniciativas para continuar a conquistar”, defende John Magdaleno, diretor da firma Polity. A maioria opositora é tão sólida que o conjunto dos estudos de opinião lhe augura uma vantagem de mais de 30 pontos percentuais: 68% para a MUD, 32% para o Governo.

O braço de ferro mantém-se nos organismos internacionais, sobretudo na Organização dos Estados Americanos (OEA). Depois de ter sido convocada uma reunião urgente de ministros dos Negócios Estrangeiros, Maduro tomou uma decisão tão esperada como relevante: sair da OEA, um marco histórico. “A Venezuela bolivariana, revolucionária e chavista prosseguirá a sua marcha rumo à nossa verdadeira independência e nada nem ninguém nos travará”, arengou o sucessor de Chávez depois de comunicar a sua resolução ao país. O processo poderá prolongar-se durante 24 meses, mas “nesse altura já a narcocorrupta cúpula estará no caixote de lixo político da História”, vaticina o opositor Henrique Capriles, governador do Estado de Miranda.

“Os erros do Governo parecem aproximar o país de uma mudança, mas temos de ter sentido das proporções. A oposição leva a cabo uma luta complexa face a um regime autoritário”, prognostica o politólogo Magdaleno. “Será um combate muito longo, desgastante e perigoso”, conclui Luis Vicente León, presidente do instituto Datanálisis.

  • Papa quer fim da violência na Venezuela

    Já morreram mais de 30 pessoas nos confrontos entre a oposição e o governo de Nicolás Maduro e Francisco defende o fim da violência, apelando à conciliação de posições

  • Manifestações fazem bem ao comércio venezuelano

    Nem tudo na Venezuela vai de mal a pior, o aumento das manifestações incrementou o comérico de rua. Em alta estão as comidas rápidas e quem tem mais fome é a oposição. Os defensores do governo querem apenas saber os preços dos produtos