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Os primeiros 100 dias de Trump em tweets, discursos e entrevistas

Drew Angerer/Getty Images

Se há constatação inegável, é que o exercício da presidência mudou o famoso milionário pouco ou nada até agora

Luís M. Faria

Jornalista

Um dos primeiros sinais de que a presidência Trump ia ser diferente das anteriores surgiu logo a seguir às eleições, ainda em novembro. Após mais um episódio do programa Saturday Night Live, onde o ator Alec Baldwin compõe um feroz retrato satírico de Trump, o então presidente-eleito tweetou: “Vi partes do @nbcsnl Saturday Night Live a noite passada. É um programa completamente parcial, preconceituoso e sem graça nenhuma. Tempo igual para nós?”. Baldwin respondeu com outro tweet em que lembrava que a eleição já tinha acontecido, pelo que a ideia de tempo igual não fazia sentido. E acrescentava: “Agora v. tenta ser presidente e as pessoas respondem. É basicamente isso”.

Essa troca de mensagens foi significativa pelo que teve de invulgar. Não há memória de um presidente dos EUA responder diretamente, e quase em simultâneo, a um retrato humorístico de si próprio. Trump, mesmo após o seu triunfo, continuava a acompanhar obsessivamente a sua cobertura da sua pessoa na televisão (embora ele tenha dito há dias que já não o faz como antes: “Nunca pensei ter a capacidade de não ver o que é desagradável, se for sobre mim”). E não é apenas na televisão, mas também nos jornais. Quando estes notaram que menos gente tinha assistido à sua tomada de posse do que à de Obama - uma diferença expectável, tendo em conta a natureza particularmente histórica da eleição de um presidente negro - Trump obrigou o seu porta-voz a garantir o contrário aos jornalistas. “Foi a maior audiência que jamais assistiu a uma inauguração (tomada de posse). Ponto final”, afirmou Sean Spicer, comprometendo logo à partida a sua relação de confiança com a imprensa, que nunca recuperaria totalmente. 

Trump insistiu depois, vezes repetidas, que a multidão tinha sido extraordinariamente enorme em 20 de janeiro, acusando os media de mentirem sobre o assunto: “Tentam menosprezar-me injustamente, porque tivemos uma multidão maciça”, disse numa entrevista. “Eu olhava para aquele mar de pessoas e dizia para mim, 'wow'. E já vi multidões antes. Multidões grandes, grandes. Aquilo era uma multidão e tanto (...) Eles mostraram imagens nada lisonjeiras, tiradas em certos ângulos ou antes. Se quiser mostro-lhe uma fotografia de uma multidão maciça”, propôs aos jornalistas.     

A obsessão de Trump com a quantidade de gente que assistiu à sua tomada de posse vai a par de uma outra, obviamente relacionada: a obsessão com o número de votos que ele recebeu. Embora a contagem oficial, não contestada oficialmente, diga que Hillary Clinton recebeu mais três milhões de votos do que Trump, ele garante que na realidade teve mais votos, pois aqueles que fazem a diferença a favor de Hillary são fraudulentos: pessoas que já morreram, imigrantes ilegais, etc. Nunca apresentou provas, mas volta periodicamente ao assunto, muitas vezes a meio de reuniões e conversas que nada têm a ver com esse assunto. 

Ainda há dias se fez fotografar na sala oval da Casa Branca rodeado por mapas dos EUA com os estados onde venceu marcados a vermelho - para mostrar que tem a maioria do país consigo. Muitos desses estados são em zonas com densidade populacional bastante inferior à de Nova Iorque ou da Califórnia, mas de facto a área deles é maior. Quando percebe que ninguém acredita que ele teve mais votos, Trump vira a conversa para o Colégio Eleitoral. Não lhe basta lembrar que teve maioria lá e por isso foi eleito. Também sublinha que venceu contra todas as probabilidades: “Os Democratas tinham uma tremenda oportunidade porque o Colégio Eleitoral, como eu disse, é muito distorcido a favor deles”. Uma conclusão desmentida tanto pela sua vitória como pela de George W. Bush em 2000, ambas contra a maioria do voto popular.       

Trump chega a acusar os Democratas de quererem investigar os contactos de gente da sua campanha com gente intimamente ligada ao governo russo - algo que já foi confirmado - apenas para compensar o facto de que terem sido derrotados. “Os Democratas estão a usar essa faux - ou falsa - história da Rússia para se fazerem sentir melhor por perderem uma eleição que é muito difícil um Democrata perder”.

“América primeiro, sempre”

Questões de triunfo ou legitimidade à parte (e é ele que põe essas questões, para negar o que implicam), Trump é presidente. Logo no seu discurso eleitoral, descreveu a América de hoje quase em termos apocalípticos e a sua própria eleição como o início de uma nova fase histórica: “Uma visão nova governará a nossa terra. A partir desde momento, vai ser sempre América primeiro”.                    

Embora o seu governo tenha sido construído de forma um pouco improvisada, misturando pessoas genuinamente qualificadas com gente de segunda linha cuja principal qualificação será ter apoiado Trump, ele assegura que no conjunto é, “de longe, o Q.I. mais elevado de qualquer governo jamais reunido”. Os resultados iniciais não confirmaram isso. Pelo menos a julgar pelo fracasso espetacular da ordem executiva que proibia a entrada nos EUA de pessoas oriundas de sete países de maioria muçulmana. Quando um juiz suspendeu a execução dessa ordem, Trump emitiu um tweet caracteristicamente furioso: “A opinião deste chamado juiz, que essencialmente retira ao nosso país a aplicação da lei, é ridícula e será revogada”. Mas outros juízes invalidaram a ordem, e Trump teve de desistir dela, prometendo elaborar uma versão modificada.

O segundo fracasso notório, e o maior até agora, foi o da revogação do Obamacare (a lei de saúde do presidente Obama) no Congresso. Era uma das promessas essenciais de Trump, e correu tão mal que nem sequer foi a votos. Trump culpou... os Democratas. “Não nos iam dar um único voto (...) os perdedores são Nancy Pelosi e Chuck Schumer - os líderes Democratas no Congresso. porque agora a lei é deles (...) O melhor que podemos fazer é deixar o Obamacare explodir. Está a explodir neste momento”. De qualquer modo, explicou Trump, os beneficiários da lei “não são a gente republicana que os nossos representantes representam”.

Um bolo de chocolate e um bombardeamento

Abortada a revogação do Obamacare, Trump propôs-se mudar o sistema fiscal. Mas a agenda externa interpôs-se, como é habitual acontecer nos EUA. Um ataque do governo sírio a civis, usando armas químicas, levou o presidente a falar com uma emoção diferente: “Crianças pequenas a morrer, bebés a morrer, pais a segurar crianças mortas nos seus braços. Crianças mortas... não existe uma visão pior, e não podemos permitir”. Referindo-se à Bashar al-Assad, disse: “É um carniceiro. É um carniceiro”. 

A reação de Trump foi bombardear uma base síria. Mais tarde, numa entrevista, contou que tinha tomado a decisão durante a visita do presidente chinês, Xi Jinping, ao seu clube privado em Mar-a-Lago, a quem deu logo a notícia. “Estávamos à mesa. Tínhamos acabado o jantar, estávamos a comer sobremesa. E era o mais bonito bolo de chocolate que jamais se viu e o presidente Xi estava a gostar”. Quando Trump informou que tinha acabado de disparar 59 mísseis Tomahawk contra o Iraque (ele disse o nome do país errado), a reação do presidente chinês foi nenhuma. “Ele estava a comer o seu bolo. E estava em silêncio”.

O ataque levou a um esfriamento das relações com a Rússia, mas Trump preferiu enfatizar a “relação realmente ótima” que havia estabelecido com o presidente Xi. Sobre a promessa de declarar formalmente a China como manipuladora do valor da sua moeda (para ajudar as exportações): “O que hei-de fazer, dizer, ‘Podem-nos ajudar com a Coreia do Norte, e já agora, vocês manipulam a vossa moeda’? Não funciona assim”.

A questão da Coreia do Norte, mais precisamente do seu programa nuclear, que tem de ser parado antes que o país tenha mísseis capazes de enviar uma bomba nuclear para os EUA, tornou-se a principal preocupação do presidente americano. Ele diz que há “uma chance de acabarmos por ter um grande, grande conflito com a Coreia do Norte, absolutamente”. E avisa que os Estados Unidos vão “resolver” o problema, com ou sem ajuda da China. Mesmo sozinhos, resolvê-lo-ão “totalmente”.

Ao mesmo tempo, manifesta compreensão para com Kim Jong-un, o líder coreano. “Tem 27 anos. O pai morre, ele toma conta do regime. Diga-se o que se disser, não é fácil, especialmente naquela idade (...) Não estou a dar ou a deixar de lhe dar crédito, só digo que é uma coisa dura. Quanto a ele ser racional ou não, não tenho opinião. Espero que seja racional”.

“Relações espantosas”

Em geral, Trump não se cansa de mencionar as “relações espantosas” que tem vindo a criar com líderes estrangeiros. “Relações que serão usadas durante quatro ou oito anos, conforme o tempo que eu fique aqui (...) As pessoas dão-me crédito por ter uma grande química com todos os líderes”.  

Uma das melhores, disse recentemente, é com a chanceler alemã. Mas durante a visita de Angela Merkel à Casa Branca, houve pelo menos dois momentos embaraçosos. Um foi quando os jornalistas estavam a tirar fotografias. Alguém pediu aos dois governantes que apertassem a mão e Merkel dispôs-se a fazê-lo. Mas Trump ignorou-a (explicou mais tarde que não tinha ouvido, e de qualquer modo já tinha apertado a mão a Merkel quatro vezes…)  Ainda mais embaraçoso foi quando, falando ao lado da chanceler, Trump aludiu à sua acusação nunca provada de que Obama tinha andado a espiá-lo na Casa Branca: “No que respeita a escutas, acho que, sabe, com o governo anterior, temos pelo menos algo em comum, talvez”. Merkel fez uma expressão chocada.

Teorias conspirativas à parte, as posições de Trump têm vindo a aproximar-se do convencional. Sobre a NATO, que tinha acusado de ser obsoleta, diz agora: “Queixei-me durante muito tempo e eles mudaram e agora combatem o terrorismo. Eu disse que era obsoleta; já não é obsoleta” (A NATO combate há muito o terrorismo. Pelo menos desde o 11 de setembro, isso é oficial).

Também em matéria de acordos de comércio, outro tema central da sua campanha, Trump vem moderando as suas posições. Embora tenha parado o grande tratado em criação para a zona do Pacífico, parece ter decidido manter o NAFTA, que reúne os EUA, o Canadá e o México. Aqui, mais uma vez, explica a inversão de posição em termos pessoais. Diz que o acordo tem sido “catastrófico” para os EUA, garante que tencionava “terminá-lo”, mas aconteceu que o presidente mexicano e o primeiro-ministro canadiano - com os quais tem “uma relação muito boa” - lhe telefonaram. “Eles falaram comigo e disseram, 'Podemos tentar negociar?'. Eu disse, 'Absolutamente, sim'”.
    

“Pensava que era mais fácil”

Verificaram-se outras inversões de posição durante os primeiros cem dias de Trump. A relação com a imprensa, essa, manteve ambígua como sempre: ele está sempre a dizer mal dela, mas consome-a vorazmente e contacta jornalistas - em especial os do “falhado New York Times”, como ele o designa - com bastante frequência.

No que toca à presidência, admite ser “mais trabalho do que na minha vida anterior. Pensava que era mais fácil”. Pensava que nomear juízes para o Supremo Tribunal fosse a coisa mais importante, depois pensou que afinal era a Defesa. “Sabe, para ser honesto, há umas quantas coisas”. O sistema de saúde, por exemplo, “ninguém sabia que era tão complicado”. 

Descrevendo-se a si mesmo como “um nacionalista e um globalista”, lembra que é ele quem toma agora as decisões. Nas entrevistas, quando um jornalista o pressiona nalgum assunto desagradável, por vezes corta: “Eu estou aqui e você não”. Aparente manifestação de uma insegurança básica que se estende a assuntos tão triviais (por comparação) como as audiências televisivas.

Falando ao show onde ele esteve antes, O Aprendiz (The Apprentice) repete que Arnold Schwarzenegger, o seu sucessor, não o deixou embora voluntariamente. “Foi despedido pelas suas audiências más (patéticas). Fim triste para um grande programa”. Esta referência surge com frequência em tweets, entremeada com outras sobre assuntos de estado, teorias da conspiração, e todos os autoelogios, ressentimentos e o resto que faz de Trump... Trump.

  • 100=28-6

    Antes das eleições, Donald Trump tinha firmado um “contrato” com os eleitores, um “plano de ação para os primeiros 100 dias”. Com o prazo a chegar ao fim este sábado, mudou de discurso, considerando-o um “marco ridículo” e dizendo que “não tem pressa” para cumprir as suas principais promessas, como “revogar e substituir o Obamacare” ou conseguir fundos federais para construir o muro na fronteira com o México