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A arma secreta e “implacável” que Theresa May foi buscar a Obama (e a Cameron)

Messina com um dos homens que ajudou a triunfar

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Não há tempo a perder: a primeira-ministra britânica já foi buscar reforços de peso para a campanha que a levará às eleições antecipadas de 8 de junho. O homem do momento é Jim Messina, o analista que reclama para si os créditos da reeleição de Obama e que esteve por trás da vitória surpresa de David Cameron em 2015

O dia 7 de maio de 2015 foi um dia mau para as sondagens. Foi neste dia que, contra todas as expectativas, os conservadores britânicos liderados por David Cameron conseguiram uma vitória surpresa nas eleições do Reino Unido, começando um ciclo – depois continuado pelos resultados surpreendentes do Brexit e das eleições nos Estados Unidos – em que as sondagens foram, uma vez após outra, desacreditadas.

Mas naquela noite de maio havia um homem que não estava surpreendido. Esse homem era Jim Messina, o analista político que ainda é hoje elogiado pelo trabalho na campanha descrita pela imprensa britânica do país como “implacável” ou “disciplinada”. Mal se souberam os resultados, Messina assegurou-se de que recebia os devidos créditos: “O desvio que costumo ver é que as sondagens estão erradas e isso parece verificar-se também neste caso”, cita o “Financial Times”

Não era a primeira vez que Messina, que está de volta às notícias porque acaba de ser contratado para trabalhar na campanha de Theresa May para as eleições antecipadas de 8 de junho, se destacava no meio político. Afinal, ele é principalmente conhecido pelo seu trabalho nos Estados Unidos, onde começou por aconselhar políticos do lado democrata e acabou por trabalhar diretamente com Obama.

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O homem que estabeleceu “a campanha presidencial moderna”

“Ele foi um membro inteligente e que teve sucesso no núcleo duro de Obama em 2012”, recorda ao Expresso Mike Cornfield, especialista em análise de dados e comunicações estratégicas na Universidade George Washington. Depois de ter feito parte da campanha Obama for America, em 2008, e ter sido vice-chefe de gabinete do anterior presidente entre 2009 e 2011, chegou o papel principal de Messina: em 2012 tornava-se, segundo o site oficial da sua empresa de consultoria The Messina Group, “o cérebro por trás da campanha de reeleição de Barack Obama”.

“[Messina] abandonou todos os passos de uma campanha presidencial tradicional e fundiu política e tecnologia de uma forma imprevisível e sem precedentes. As estratégias de Messina estabeleceram a campanha presidencial moderna”, diz o site, que cita o presidente executivo da Google, Eric Schmidt, para chamar à campanha a “mais bem gerida de sempre”.

Apesar do reconhecido passado ligado a Obama – e também a uma SuperPAC de apoio a Hillary Clinton, a Priorities USA –, foi a eleição britânica de 2015 que constituiu uma das maiores reviravoltas da sua carreira. As sondagens não favoreciam Cameron mas, como Darren G. Lilleker, investigador e professor de Comunicação Política na Universidade de Bornemouth, diz ao Expresso, “Messina não é verdadeiramente um especialista em sondagens”.

Uma das estratégias de Messina: “reforçar medos, fazê-los parecer uma potencial realidade”
“Ele é um analista de dados que usa um espetro de fontes de informação (cartões de cliente, informação no Facebook, etc) para perfilar indivíduos segundo a sua demografia e psicografia. Isto permite-lhe determinar a que mensagens serão mais suscetíveis e dirigir-lhes essas mensagens de uma forma semipersonalizada”, detalha o especialista. Por isso, os métodos de Messina – uma combinação de tecnologia e construção de mensagens muito específicas para alvos também específicos – são elogiados no mundo da estratégia política e terão sido essenciais para a vitória surpresa de Cameron.

Em 2015, a estratégia da campanha do líder conservador – que o “Telegraph” descrevia, na altura em que os media britânicos tentavam perceber como é que as sondagens tinham errado daquela maneira, como “uma máquina temida e admirada pelos seus rivais” – passou em boa parte por assustar o eleitorado, especificamente os eleitores do partido Liberal Democrata, com a possibilidade de estarem a rejeitar o voto útil e a entregar um Governo ao então impopular Ed Miliband, líder do segundo partido mais votado, o Labour Party.

“Em 2015, os conservadores espalharam várias mensagens que disseram aos votantes liberais democratas que o perigo de votar no Partido Liberal Democrata (LD) era que os conservadores não conseguissem maioria e o Labour formasse um Governo de coligação. A pesquisa deles mostrou que os eleitores do LD temiam mais um Governo liderado por Miliband do que um Governo conservador – reforçar medos, fazê-los parecer uma potencial realidade foi um dos fatores no colapso do apoio ao LD”, relata Darren Lilleker.

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Em 2017, o cenário pode voltar a repetir-se: Theresa May acaba de recuperar Messina, que viajou na segunda-feira para Londres na esperança de que a equipa repetente a ajude nas eleições que convocou para tentar assegurar uma maioria mais segura para o seu partido e um novo mandato para concretizar a sua visão do Brexit, diz um membro da campanha à Bloomberg.

“Com Jeremy Corbyn na liderança do Labour Party, e os ataques pessoais do partido e dos media a darem-lhe uma imagem pública fraca, o mesmo vai voltar a acontecer, usando os dados de Messina para assegurar que os eleitores certos, nas localizações geográficas certas, recebem a mensagem de forma continuada – basicamente, votem num Governo forte, liderado pelos Conservadores, ou fiquem com o Corbyn”, explica Lilleker, lembrando o caso de Miliband: o antigo líder do Labour também tinha uma fraca imagem pública, com níveis de aprovação mais baixos do que Cameron.

Mas se a estratégia de Messina e companhia pode ter semelhanças à estratégia de 2015, numa altura em que os conservadores mostram considerável vantagem nas sondagens (na pesquisa agregada de 25 de abril publicada pelo “Telegraph”, os conservadores conseguem 46,8% das intenções de voto, o Labour, de Corbyn, atinge os 26% e há 10,8% para os Liberais Democratas), em 2017 há novos desafios a ter em conta – e um deles é o Brexit, valendo a pena recordar que Messina fez parte da campanha falhada pelo “não”, no verão passado.

“O desafio é se o voto vai ficar dividido ao estilo do que aconteceu no Brexit. Irão os 48,3% que votaram pelo ‘não’ votar contra os conservadores para impedir que o Brexit aconteça, ou pelo menos a proposta de “Brexit duro” que May parece ver como o único caminho?”, questiona Lilleker. O especialista detalha ao Expresso a estratégia que Messina deverá seguir: “Messina vai conseguir perfilar prováveis eleitores pró e antiBrexit e formar mensagens para os convencer que o resultado do referendo é imutável, que só May pode fazer com que isto funcione para o Reino Unido a longo prazo e que o Labour (a única alternativa de Governo) levaria também o Reino Unido ao Brexit, mas de uma forma menos estratégica”.