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100=28-6

Antes das eleições, Donald Trump tinha firmado um “contrato” com os eleitores, um “plano de ação para os primeiros 100 dias”. Com o prazo a chegar ao fim este sábado, mudou de discurso, considerando-o um “marco ridículo” e dizendo que “não tem pressa” para cumprir as suas principais promessas, como “revogar e substituir o Obamacare” ou conseguir fundos federais para construir o muro na fronteira com o México

Quando faltava um mês para a ida às urnas nos Estados Unidos, depois de uma das corridas eleitorais mais renhidas e divisivas do país, Donald J. Trump assinou um “contrato com o eleitor americano” no qual fazia 28 propostas concretas para “acabar com a corrupção e os jogos de interesses em Washington”, para “proteger os trabalhadores americanos” e para “restaurar a segurança e o Estado de Direito”.

Foi o que classificou de um “plano de ação para os primeiros 100 dias” da sua Administração, caso vencesse. O relógio começou a contar a 20 de janeiro, quando tomou posse, com um discurso em que prometeu salvar os americanos da “carnificina” em que alegadamente estiveram mergulhados até ele aparecer, entregues a uma espiral de crimes violentos, culpa dos imigrantes, e a uma profunda crise económica, culpa de países como a China, essa “grande manipuladora de divisas”.

Dessas 28 propostas Trump cumpriu seis, entre elas assinar um decreto para tirar os EUA do Acordo Transpacífico (TPP), em linha com a sua retórica de campanha para reavivar o protecionismo económico e “fazer a América grande outra vez”. E com o centésimo dia à espreita, há uma semana o magnata tornado 45.º Presidente da América gozou com o prazo que ele próprio definiu — no Twitter, a sua plataforma de eleição. “Por mais coisas que eu alcance durante o ridículo marco dos primeiros 100 dias — e já alcancei muito — os media vão matar!!” Horas depois, voltou a desvalorizar a efeméride. “A próxima semana não interessa.”

“Mistura familiar de ruído e cortinas de fumo”

Os críticos dizem que interessa e que não são só os seus opositores que estão interessados. Senão veja-se a proposta de reforma tributária que o seu governo acabou de apresentar, para baixar os impostos às empresas e aos cidadãos sem aumentar o défice nem a dívida (o que especialistas dizem ser impossível) — no que os analistas leram como uma tentativa desesperada de alcançar pelo menos uma grande vitória antes de completar os 100 dias.

“O Presidente Donald Trump vive para superlativos — quer o maior e o melhor — pelo que não é surpreendente que já esteja a ficar exasperado com as revisões pouco abonatórias dos seus primeiros 100 dias no poder”, escreveu a CNN na segunda-feira, assim que a Administração anunciou que ia apresentar a prometida e “histórica” reforma fiscal. “Trump está a aproximar-se do primeiro marco simbólico da sua presidência no sábado com uma mistura familiar de ruído e cortinas de fumo, destinada a disfarçar a realidade de que produziu uma das estreias na presidência menos prolíficas da História moderna.”

Para o canal, o negacionismo foi “um passo clássico” vindo de quem veio — “adiantar-se às más notícias usando críticas à imprensa como manobra de diversão e enevoando a linha que separa a verdade da falsidade para escapar a graves danos políticos”. Pouco surpreendente, ditaram vários analistas, vindo de um homem que continua em guerra com os jornalistas e cuja administração, na figura da conselheira Kellyanne Conway, cunhou a já famosa expressão “factos alternativos” para se proteger de verdades incómodas.

Ao contrário do que declarou, esta semana tem particular interesse, e não apenas por causa da efeméride de sábado. Depois do interregno da Páscoa, o Congresso voltou ao trabalho na segunda-feira e, até quinta-feira, havia receios de que esta sexta o governo Trump fosse ficar sem dinheiro e se visse forçado a suspender todos os serviços públicos não essenciais. Em causa estão disputas sobre o projeto-lei para garantir o financiamento da administração no ano fiscal corrente, antevendo-se que o Presidente ia manter o braço-de-ferro para garantir que o pacote previa fundos parciais para pagar a construção do muro na fronteira com o México — mesmo que isso se traduzisse no encerramento temporário do funcionamento do governo. Mas afinal, como indicou, esse projeto pode esperar, embora seja para avançar e para, em última instância, ser pago pelos mexicanos.

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Ao final de 100 dias, nem muro nem a promessa de “revogar e substituir o Obamacare”. Há alguns dias, Trump veio dizer que “não há particular pressa” em acabar com o programa de cuidados de saúde implementado por Barack Obama e que “não interessa se isso acontece na próxima semana” ou depois do “marco ridículo”. Pressa é contudo o que têm aos republicanos, que prometeram para breve uma nova proposta para substituir o Affordable Care Act, depois de a primeira ter sido chumbada pela minoria democrata com a ajuda de alguns senadores do partido que hoje controla as duas câmaras do Congresso e a Casa Branca — e que, depois de muita resistência e lutas internas, abraçou o seu Presidente e passou estes 100 dias a tentar evitar que o barco-Trump ficasse à deriva.

À deriva é como alguns dirão que o governo andou nos últimos três meses, marcados por uma série de inversões de marcha em relação às suas promessas de campanha. No seu “contrato com o eleitor americano”, o empresário garantia que ia “ordenar ao secretário do Tesouro que classificasse a China como manipuladora de divisas” assim que tomasse posse; esta sexta-feira reforçou os laivos de namoro com o Presidente chinês, Xi Jinping, que teve a oportunidade de “ficar a conhecer muito bem” e que é simplesmente “um homem muito bom” que “ama o seu país”.

Prometia acabar com o Obamacare; agora já não é uma prioridade. Prometia acabar com a imigração ilegal; os tribunais suspenderam os dois decretos que assinou para proibir a entrada de cidadãos de sete países de maioria muçulmana e para suspender o acolhimento de refugiados. Prometia cortar os fundos às cidades-santuário, onde os imigrantes clandestinos estão protegidos de deportação; os tribunais voltaram a entrar em ação para lhe estragarem mais esse plano. De notar que, segundo uma análise do “Washington Post”, Trump é o Presidente que “mais decretos assinou” desde Harry Truman (1945-1953). “Mas o que é que alcançou com isso?”

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Bombardeamentos em três países

Durante a campanha, também prometeu que, ao seu leme, os Estados Unidos iam deixar de se imiscuir nos assuntos de outros países, renegando a posição das anteriores administrações em matéria de política externa. E foi talvez nesse ponto que mais surpreendeu. Depois de declarar que a NATO “já não é obsoleta”, Trump bombardeou três países sem uma estratégia concreta definida. Primeiro ordenou uma operação especial no Iémen, que resultou em 12 mortos, incluindo uma menina americana, e que até membros do Partido Republicano classificaram como um “falhanço”.

Depois, ordenou o primeiro ataque dos EUA contra as forças de Bashar al-Assad na Síria desde o início da guerra civil em 2011 — no que uns viram como “uma mensagem a outras nações” que estão a pisar os calos da Administração (em particular a Coreia do Norte) e que outros disseram ser uma tentativa de enterrar as suspeitas de conluio com a Rússia, grande aliada de Assad.

Logo a seguir, recorreu à “mãe de todas as bombas” para destruir uma rede de túneis do autoproclamado Estado Islâmico (Daesh) no Afeganistão — foi a primeira vez que as forças armadas americanas usaram a sua mais poderosa arma convencional, 11 toneladas de explosivos largados de um avião sobre a província de Nangarhar, na fronteira com o Paquistão.

As promessas cumpridas

Entretanto, esta semana também pareceu moderar o tom em relação a Pyongyang depois de semanas de tensões escaldantes e de trocas de ameaças com o regime de Kim Jong-un por causa do seu programa nuclear e de mísseis balísticos. Ainda assim, avisou numa entrevista à Reuters dada esta quinta-feira que vai ser “difícil” resolver a questão pela via diplomática e que não estamos a salvo de um “grande, grande conflito” entre as potências nucleares.

Há a sublinhar que algumas das suas promessas foram cumpridas, entre elas dar início à renegociação do NAFTA com o México e o Canadá, tirar os EUA do acordo de comércio livre com o Pacífico, reavivar os controversos oleodutos Keystone XL e Dakota Access e congelar temporariamente as contratações federais. Mas na balança de vitórias e derrotas, a sua administração sai a perder.

Mesmo assim, Trump mantém a estratégia de “ruído e cortinas de fumo” referida pela CNN. “Nenhuma administração conseguiu alcançar tantas coisas nos primeiros 90 dias”, declarou na semana passada. É mentira, gritaram os críticos no mundo virtual, depois de um primeiro mês marcado por inúmeros protestos físicos em várias cidades do país contra a sua presidência e a sua retórica anti-imigração.

Apesar dos falhanços, e de sucessivas sondagens a apontarem-lhe uma das mais baixas taxas de popularidade de que há memória em início de mandato, apenas 6% dos eleitores que votaram em Trump dizem estar arrependidos. Contra esses, milhões continuam a insurgir-se diariamente na internet, aproveitando cada gafe e cada delação de fontes da Casa Branca para manter a resistência em chamas.

Entre as últimas gafes conta-se o postal que Trump publicou na quarta-feira no Twitter para dar os parabéns “à primeira-dama Melania”, que nesse dia cumpriu 47 anos de vida.
O problema não foi a mensagem nem tão pouco o facto de a eslovena continuar a viver em Nova Iorque com o filho, custando milhões por semana aos contribuintes, e demonstrando pouca afeição marido quando são fotografados lado a lado (a internet não perdoa uma). O problema foi a bandeira dos EUA colada no postal, onde em vez das 50 estrelas brancas a representar os 50 estados dos EUA estavam apenas 39 — uma bandeira alternativa que, ao que parece, já foi usada noutras publicações oficiais da presidência. O que é feito dos outros onze?

O homem que resistiu a tudo

O que parece ter amainado nestes primeiros 100 dias foi a crença de que o empresário, que continua sem divulgar as suas declarações de rendimentos e que continua a passar mais tempo a jogar golfe do que em reuniões de segurança, não ia sobreviver nem 100 dias no cargo.

Nem a Casa Branca em desalinho, dividida entre a barricada do genro Jared Kushner e a fação dos amigos da “direita alternativa” (vulgo extrema-direita) liderada por Steve Bannon; nem a despromoção de Bannon do Conselho de Segurança Nacional e o despedimento do diretor desse conselho, Michael Flynn, por causa de contactos ilegais com o embaixador russo em Washington; nem as nomeações de familiares, como a filha Ivanka, para cargos na Administração; nem indicações vindas da comunidade de psiquiatria sobre Trump não ter condições mentais para governar; nem esse mistério maior que é a suspeita proximidade do círculo de Trump ao governo de Vladimir Putin (ainda a ser escrutinada); nada foi suficiente para o destituir.

Oito razões para Trump ser substituído por Pence

Alguns analistas continuam a antever que isso só vai acontecer quando o Partido Republicano perceber que tem mais a perder do que a ganhar nas eleições intercalares de 2018 se Trump continuar na Casa Branca. Outros dizem que a questão vai para lá do partidarismo e que a destituição é inevitável — caso de Allan Lichtman, o professor universitário que previu corretamente o desfecho de quase todas as eleições americanas desde 1984, incluindo a vitória de Trump, e que acabou de lançar o livro “The Case for Impeachment”, onde apresenta as oito razões que vão levá-lo a ser substituído pelo seu vice-presidente, Mike Pence.

A “New Yorker”, por sua vez, recorreu esta quinta-feira ao “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Marquez, para escrever o futuro, mesmo que ficcionado, numa analogia entre o coronel Buendía diante do pelotão de fuzilamento e o Presidente Trump diante de um Congresso virado contra ele. “Muitos meses mais tarde, ao enfrentar a comissão de destituição, o Presidente Donald Trump lembrar-se-ia daquela tarde distante em que Jeff Sessions o levou a descobrir o ICE [o serviço de estrangeiros e fronteiras dos EUA]. O mundo era tão recente que muitas coisas ainda não tinham nomes e, para as referir, era preciso apontá-las com o dedo. […] ‘Vamos conseguir ganhar tantas coisas’, disse finalmente. A reivindicação corajosa de um homem que nunca conseguiu sequer conquistar o amor do seu próprio pai.”

  • A odisseia de Trump em busca da “galinha dos ovos de ouro”

    Com a sua proposta de reforma tributária, o governo dos EUA alivia a carga fiscal sobre as empresas e sobre os multimilionários - entre os quais o próprio Presidente Trump, que surge citado pelo “New York Times” na lista de grandes beneficiários do plano fiscal desvendado quarta-feira. Ausência de detalhes na proposta de uma página levanta questões sobre o impacto das medidas na economia dos EUA. Governo alega que os cortes nos impostos vão ser compensados pelo crescimento do PIB, mas os críticos dizem que “só há montanhas de dívida” à vista