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“Roubo do século” rende 40 milhões de dólares. Maioria dos autores continua em fuga

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O espetacular assalto a um depósito da Prosegur no Paraguai terá sido obra do Primeiro Comando da Capital, o maior gangue brasileiro

Luís M. Faria

Jornalista

A operação da madrugada de dia 24, segunda-feira, foi levada a cabo com precisão militar, e meios dignos de um pequeno exército. O alvo foi um depósito de dinheiro da Prosegur em Ciudad del Este, a segunda maior cidade do Paraguai, junto à fronteira com o Brasil. Antes do assalto propriamente dito, uns 15 veículos, incluindo camiões, foram colocados nas ruas que levavam ao depósito. Serviriam para bloquear o caminho à polícia e deixar os assaltantes livres para fazerem o seu trabalho.

E eles fizeram. Passaram facilmente as defesas do depósito, abatendo um polícia pelo caminho. Usando explosivos, rebentaram com a estrutura e chegaram ao dinheiro – o equivalente a uns 40 milhões de dólares (36,8 milhões de euros), segundo estimativas que a Prosegur não confirmou nem desmentiu. Chegada a altura de fugir, os camiões foram detonados à distância. Os criminosos dividiram-se em grupos. Uns seguiram pelo rio Paraná acima em barcos velozes, outros foram para o interior do país ou para o Brasil. Três seriam abatidos já do outro lado da fronteira durante um tiroteio com a polícia.

O assalto terá sido cometido por umas 50 ou 60 pessoas, todas membros do mesmo gangue, que é oriundo no Brasil e ganhou fama terrível nos últimos anos. Além dos explosivos (de tipo C4, empregues em demolições), foram usadas granadas de mão, espingardas e metralhadoras do exército, miras laser e outro equipamento militar. O crime foi instantaneamente chamado 'o maior roubo do século', expressão que dá uma boa ideia não só da sua dimensão, como do choque que provocou junto dos residentes locais, muitos dos quais tiveram encontros diretos com assaltantes em fuga.

Uma dessas cenas noturnas seria depois descrita por uma testemunha, Alejandro Anisim: "Ouvimos pancadas sem parar durante uma hora. Durante esse tempo houve cinco granadas e escondemo-nos lá em cima no quarto da minha filha. Chamei a polícia e eles disseram para não sair, que os ladrões estavam cá dentro. Ouvimos gritar em português na rua. Não sei o que disseram. Então correram para um veículo estacionado na esquina e entraram".

Já se tinha descoberto um túnel em 2015

Um jornalista local contou como um "camião de grande porte ficou em plena via internacional e provocou outro acidente devido aos motociclistas não poderem vê-lo no escuro e chocarem com ele". Entre os gritos, as explosões, os disparos – também se usaram snipers para cobrir a fuga, e ferros de rebentar pneus – a cena descrita era de confusão e pânico.

O mesmo lugar já antes tinha sido alvo de cobiça criminosa. Em 2015, segundo as autoridades, foi descoberto um túnel que ia de lá para uma casa vizinha. Falhada a abordagem subterrânea, os assaltantes optaram pelo ataque direto, e desta vez resultou. Nos últimos dias, mais alegados participantes foram apanhados pela polícia (cinco possíveis cúmplices foram soltos por um juiz brasileiro). Mas é possível que nunca se chegue a recuperar a totalidade do dinheiro, e altamente provável que operações do género se voltem a repetir nos próximos tempos.

O gangue responsável terá sido o Primeiro Comando da Capital. Também conhecido por 15.3.3 – conforme a ordem das suas iniciais entre as letras do alfabeto – é a maior grupo criminoso do Brasil, com 13 mil membros. Foi fundado em 1993 por presos que se terão conhecido durante um jogo de futebol numa prisão de São Paulo – o termo 'capital' refere-se a essa cidade, capital do estado homónimo. A sua missão declarada era a autoproteção dos presos, bem como vingar o famoso massacre de presos em Carandiru, mas rapidamente ele evoluiu para as atividades habituais de um grupo criminoso, desde extorsão e tráfico de droga e de armas até lenocínio, homicídio, etc. Sem esquecer motins prisionais, como o de janeiro passado, na maior prisão do Brasil, que levou à decapitação de 26 presos rivais pelo PCC.

Roubos com explosivo: toda uma indústria a vários níveis

Com o tempo, a área de atuação do grupo extravasou do Brasil para dois países vizinhos, o Paraguai e a Bolívia. Em 30 de março, um carro blindado de outra empresa de transportes foi assaltado em Roboré, uma cidade boliviana próxima da fronteira. E em fevereiro passado, o PCC cometeu em Pernambuco um assalto muito parecido ao de há dias. O alvo foi um depósito de dinheiro, e os métodos foram praticamente os mesmos, desde o uso de explosivos. Dessa vez o saldo terá sido o equivalente a uns vinte milhões de dólares, cerca de metade do que foi agora.

Relacionado com estes crimes poderá estar um homem há muito conhecido das autoridades: Rogério Jeremias de Simone, por alcunha 'Gegê do Mangue'. Acusado por homicídios e outros crimes, Simone esteve preso até fevereiro, quando um juiz brasileiro inexplicavelmente o libertou. Pouco depois seria condenado a 47 anos de cadeia, mas já tinha desaparecido. Consta que assumiu operações do PCC naquela zona, a da fronteira tripartida entre Brasil, Paraguai e Argentina.

O assalto de dia 24 terá sido cometido em colaboração com criminosos locais. Não só pela sua dimensão, como por ser um modus operandi habitual do PCC. O grupo tornou-se um verdadeiro mentor de outros criminosos. Em cidades como o Rio de Janeiro e Minas Gerais, por exemplo, fornece treino no rebentamento de caixas multibanco com explosivos. As autoridades falam em técnicas especializadas (para rebentar com as caixas sem danificar o dinheiro) num "intenso intercâmbio" entre o PCC e outros grupos.