Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Não vamos agradar a todos”: Papa está de visita ao Egito

TONY GENTILE/ Reuters

Esta é a mais perigosa viagem de Francisco depois da que realizou em 2015, em plena guerra civil, à República Centro-africana.

O Papa chegou esta sexta-feira ao Egito, para uma visita que acontece pouco tempo depois dos dois atentados registados no país contra duas igrejas coptas. Mas apesar da instabilidade da zona, Francisco desloca-se em carros sem qualquer tipo de blindagem nem proteção. “Não estamos preocupados porque os egípcios querem que as coisas corram bem”, explica Greg Burke, diretor do gabinete de imprensa do Vaticano, ilustrando que o Papa vai "num carro normal, fechado mas não blindado, porque assim o quis (...), por outro lado, vivemos num mundo em que a segurança já é um aspeto que faz parte da vida quotidiana".

Um dos motivos da sua deslocação é levar a sua solidariedade aos cristãos coptas - mais antigos que os católicos romanos - a quem os terroristas que se inspiram no Islão atingiram com 40 atentados desde o início das chamadas Primaveras Árabes (2011), provocando centenas de mortos. A viagem tem lugar três semanas depois dos atentados de domingo de Ramos contra os coptas, em que morreram 36 pessoas e outras 108 focaram feridas.

O Papa encontrou-se em privado com o presidente egípcio Abd al-Fattah al-Sisi, mas sobretudo usou da palavra na universidade Al Azhar. Alguns consideram-na como "o Vaticano" dos muçulmanos sunitas, a confissão islâmica da classe média, combatida pelos muçulmanos xiitas nas guerras da Síria, do Iraque e do Afeganistão.

AMR ABDALLAH DALSH/ Reuters

No Egito os coptas não constituem uma religião "estrangeira" ou ocidental: são os únicos egípcios atuais que descendem dos antigos, enquanto que os islâmicos chegaram sucessivamente, precisamente apoiados pelos próprios coptas como libertadores dos bizantinos, que eram cristãos, mas repressores. No entanto, os terroristas atuais consideram-nos a causa principal dos protestos contra o presidente islâmico Morsi, que foi obrigado a abandonar o poder.

No Egito actual os coptas sofrem discriminações permanentes nos postos de trabalho ou na construção de casas e igrejas, ainda que nos últimos anos - atentados extremistas à parte -, a sua situação tenha melhorado ligeiramente. Operários cristãos coptas foram espetacularmente decapitados (2015) numa praia da Líbia por terroristas e outros também o foram no deserto do Sinai. Ainda assim, a Igreja copta pediu sempre que não se realizassem manifestações anti egípcias no mundo, contra o tratamento que recebem. “Sabemos defender-nos”, dizem.

Os coptas são entre cinco e seis milhões, equivalentes a 10 por cento da população do Egito. Em relação aos católicos, constituem uma confissão autónoma, presidida por um Papa como o de Roma, ainda que eleito pelo clero e pelos laicos. Atualmente é Tawadros II.

Segundo o porta-voz do Vaticano, Burke, a viagem do Papa tem três motivos: visitar a minoria dos católicos romanos, encontrar-se com as outras confissões cristãs e com os coptas e intervir num encontro inter-religioso na universidade Al-Azhar, pronunciando um discurso depois do imã Admad al-Tayyib.

AMR ABDALLAH DALSH/ Reuters

Durante a sua estadia no Cairo, até à tarde de sábado, o Papa recebeu o corpo diplomático e encontrar-se-á com representantes do mundo cultural e académico do Egito. Vai falar-lhes em italiano com tradução simultânea em árabe e a sua estadia será retransmitida pela televisão estatal. Antes de sair de Roma, o Papa recebeu uma família de Belém (Palestina) que o ensinou como persignar-se segundo o costume dos cristãos árabes. São pequenos pormenores que indicam a sensibilidade com que se realiza a viagem.

Quando lhe perguntaram se o Papa faria alguma referência ao regime autoritário do país, o porta-voz Burke disse que "não vamos agradar a todos, como sempre acontece nestas viagens", ainda que "vamos ver o que diz o Papa".

Poucas horas antes da viagem houve uma mudança de programa. Em vez de celebrar uma missa no estádio do Cairo, Francisco fê-lo no estádio da Aeronáutica, mudança realizada por razões de segurança.