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Líder da oposição venezuelana diz que só eleições antecipadas podem resolver a crise política

FEDERICO PARRA

Numa entrevista exclusiva à BBC, Henrique Capriles acusa o Presidente, Nicolás Maduro, de “repressão selvagem” ao final de um mês de protestos em massa nas ruas de Caracas, contra e a favor do governo socialista

"Quanto tempo pode Maduro continuar a negar aos venezuelanos o seu direito ao voto? Penso que não por muito mais tempo." Assim declara hoje Henrique Capriles à BBC, numa entrevista em que defende que a única forma de acabar com a atual crise política na Venezuela é convocar eleições antecipadas — de resto uma exigência repetida diariamente nas últimas semanas pelos manifestantes que se têm organizado nas ruas de Caracas e de outras cidades perante o adensar da crise económica e consequente escassez de bens básicos no país.

Ao canal britânico, o líder do principal partido da oposição acusa o Presidente socialista, Nicolás Maduro, de "repressão selvagem" da população venezuelana, depois de confrontos entre manifestantes e a polícia terem já provocado pelo menos 27 mortos desde o final de março, incluindo opositores e apoiantes do governo e pelo menos um agente das forças de segurança.

"Nada do que o governo está a fazer é em nome da defesa; é repressão, uma repressão selvagem que viola a nossa Constituição e os Direitos Humanos", acusa Capriles, um dia depois de a chefe da diplomacia venezuelana ter dado a entender que o país vai abandonar a Organização dos Estados Americanos.

Líder do partido Justiça Primeiro, de centro-direita, Capriles perdeu as eleições presidenciais de 2013 para Maduro no rescaldo da morte de Hugo Chávez. No início deste mês, o advogado foi proibido de se candidatar a cargos políticos por um período de 15 anos por causa de alegadas "irregularidades administrativas" que terá cometido enquanto governador do estado de Miranda, um cargo que ocupa desde 2008. A medida, garante, é inconstitucional.

À BBC, nega que o país esteja dividido entre a barricada que apoia o governo socialista de Maduro e a faixa da população que quer a renovação do poder, garantindo que "não mais do que 20% dos venezuelanos" apoiam o atual executivo. "Não há qualquer luta entre diferentes setores da sociedade venezuelana", garante Henrique Capriles. "Isso acabou na Venezuela. Não existe qualquer divisão entre os venezulanos."

A atual onda de protestos surgiu a 29 de março, dia em que o Supremo Tribunal decidiu assumir poderes até então exclusivos da Assembleia Nacional, controlada pela oposição desde o final de 2015. O facto de o painel de juízes ter revertido essa decisão três dias depois não travou a indignação de uma parte da população venezuelana, que na sua maioria continua sem acesso aos mais básicos bens, como comida e medicamentos.

O governo defende que a atual crise económica e a elevada inflação (o FMI prevê uma inflação de 700% do PIB este ano) foram provocadas pela queda dos preços do petróleo nos mercados mundiais e alimentadas por uma campanha orquestrada pela oposição em conluio com os Estados Unidos. A oposição responsabiliza as suas políticas socialistas pela atual situação.

"Quando é que isto vai acabar? Não vejo as pessoas a desistirem de lutar pelo seu país", declara Capriles. Para acabar com a crise, o seu partido e outros movimentos políticos da oposição exigem que as eleições presidenciais, previstas até ao final de 2018, sejam antecipadas. "Não há qualquer calendário eleitoral. Somos o único país das Américas em que se exigem eleições e não se obtém qualquer resposta."

Na entrevista, Capriles também ecoa a exigência dos manifestantes para que os políticos detidos desde que Maduro tomou posse há quatro anos sejam imediatamente libertados. "Neste momento eles [o governo] estão a agir como um raptor que está cercado pela polícia mas que acredita que vai ser capaz de matar os reféns, matar a polícia e escapar ileso. Estão errados. Cometeram um erro de cálculo."