Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Venezuela diz que vai abandonar Organização dos Estados Americanos

RONALDO SCHEMIDT

Caracas e outras cidades do país continuam a ser palco de manifestações contra e a favor do governo de Maduro. Confrontos entre manifestantes e a polícia já provocaram pelo menos 27 mortos nas últimas três semanas

O governo da Venezuela diz que vai abandonar a Organização dos Estados Americanos (OEA), acusando o grupo com sede nos Estados Unidos de ingerência nos seus assuntos internos.

O anúncio do executivo de Nicolás Maduro surgiu horas depois de uma maioria dos 35 Estados-membros da organização ter aprovado a convocatória de uma reunião dos seus ministros dos Negócios Estrangeiros para discutir a atual crise económica, política e social que a Venezuela está a atravessar.

Os protestos violentos contra e a favor do governo socialista continuam a dominar a capital, Caracas, e várias outras cidades venzuelanas há quase um mês. Esta quarta-feira, pelo menos um manifestante anti-governo morreu após ter sido atingido com uma lata de gás lacrimogéneo na cabeça.

Os confrontos entre manifestantes e a polícia já provocaram pelo menos 27 mortos e centenas de detidos nas últimas três semanas, desde que a oposição a Maduro começou a mobilizar-se nas ruas exigindo a demissão do sucessor de Hugo Chávez e eleições presidenciais antecipadas.

O governo venezuelano continua a acusar os Estados Unidos de estarem a tentar minar o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Quarta-feira, a chefe da diplomacia venezuelana, Delcy Rodríguez, disse que os protestos em curso estão integrados numa campanha orquestrada por forças externas para enterrar a revolução bolivariana.

Delcy Rodríguez, ministra venezuelana dos Negócios Estrangeiros

Delcy Rodríguez, ministra venezuelana dos Negócios Estrangeiros

FEDERICO PARRA

"Amanhã [esta quinta-feira] vamos apresentar uma queixa à OEA e vamos dar início a um processo [de saída] que vai durar 24 meses", anunciou a ministra na televisão.

O correspondente da BBC na América Latina diz que o passo não deixa de ser uma surpresa, apesar de as tensões dentro da organização estarem em crescendo nos últimos meses por causa da posição do governo de Maduro, que alguns Estados-membros da OEA acusam de desrespeito pela democracia.

No seu discurso televisivo à nação, Rodríguez acusou a organização regional, fundada em 1948, de ter padrões duplos por condenar a atitude do governo venezuelano enquanto faz vista grossa às alegadas violações da democracia no Brasil.

As concentrações em massa contra o governo, acompanhadas de protestos de apoio a Nicolás Maduro, começaram no final de março, depois o Supremo Tribunal do país ter tentado assumir poderes até então exclusivos da Assembleia Nacional (o Parlamento), atualmente controlada pela oposição. Esta culpa o governo de Maduro e as políticas socialistas do atual Presidente e do seu antecessor pela profunda crise económica que está a afetar o país há um ano, em parte por causa da queda dos preços do petróleo.

Numa altura em que o Fundo Monetário Internacional prevê que a inflação vai atingir os 700% do PIB este ano, os venezuelanos continuam com acesso limitado ou praticamente inexistente aos bens mais básicos, incluindo comida e medicamentos.

O governo defende que o país está a sofrer os efeitos de uma sabotagem económica orquestrada pela elite empresarial alinhada com os EUA. Apesar de os juízes do Supremo terem revertido a sua controversa decisão três dias depois do anúncio, já no início de abril, os que se opõem ao governo continuam a sair às ruas exigindo a demissão de Maduro e a libertação dos políticos detidos desde que o socialista sucedeu a Chávez em 2013.