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Um terramoto político

PHILIPPE WOJAZER/REUTERS

Os resultados da primeira volta das presidenciais francesas estão a ser interpretados como um sismo político, cujas principais vítimas são as forças conservadoras e sociais-democratas, que foram alternando no poder ao longo dos últimos 30 anos

Mesmo que a contagem dos votos nos grandes centros possa provocar algum ajustamento relativamente às previsões do princípio da noite, tudo aponta para a passagem à segunda volta do escrutínio de Emmanuel Macron (23,9%), seguido de Marine Le Pen (21,7%).

O primeiro, sem uma máquina partidária tradicional por trás consegue um resultado acima das mais optimistas previsões. E numa campanha onde abundavam candidatos eurocéticos, para não dizer eurofóbicos, fê-lo com um discurso claro pró-Europa.

Já a Frente Nacional, é verdade que fica abaixo do que algumas sondagens chegaram a prever que era ser a força mais votada à primeira volta. Mas consegue um resultado histórico na medida em que, pela primeira vez na V República, a extrema-direita ultrapassa o limiar dos 20% na primeira volta de umas presidenciais. O que deverá significar alguma coisa como oito milhões de votos.

É aquilo a que a editorialista do diário francês “Le Monde” Françoise Fressoz chama “um verdadeiro terramoto político”.

À evidência os franceses rejeitaram os dois blocos políticos (conservadores e sociais-democratas) do rotativismo dos últimos 30 anos. O conservador François Fillon (20%) somado ao socialista Benoit Hamon (6,3%) dá pouco mais que a votação de Macron. As cisões começaram já a manifestar-se, quer nos republicanos, quer nos socialistas e ambos os blocos tendem a fracturar-se a curto prazo.

De resto há um movimento quase generalizado de apoio a Macron para a segunda volta. Juppé, Fillon, Baroin, Raffarin e Estrosi são algumas das importantes figuras da direita que declararam apoio a Macron, enquanto à esquerda Benoit Hamon e aliados do PS fizeram o mesmo.

A única excepção é o esquerdista Mélenchon que se recusou, pelo menos na noite das eleições, a dar uma palavra de ordem clara para a segunda volta das presidenciais a 7 de Maio. Talvez por esperar até ao último momento ultrapassar Fillon e ser o terceiro mais votado graças à votação das grandes cidades…

À esquerda, o resultado de Benoit Hamon não é propriamente uma surpresa, uma vez que não foge ao que a maioria das sondagens deixava antever há semanas. O candidato socialista que tinha a legitimidade de ter saído de umas primárias da esquerda não conseguiu encontrar espaço entre o liberalismo centrista de Macron e o esquerdismo histriónico de Mélenchon. E isto não obstante ter sido quem mais temas novos e profundos introduziu no debate, designadamente a questão do rendimento universal e do imposto sobre a robotização.

À direita a eliminação de François Fillon é antes de mais uma derrota pessoal porque consagra a rejeição de um candidato atormentado por revelações incómodas sobre empregos públicos fictícios para a sua família próxima, dádivas de empresários, etc. Um candidato, também vencedor dumas primárias (neste caso à direita) e que, até às revelações do semanário “Le Canard Enchainé” (depois investigadas judicialmente) dominava a corrida eleitoral.

Significa isto um sobressalto cívico e o enterro definitivo de práticas eticamente condenáveis por parte da classe política? O certo é que Macron no seu discurso de vitória não deixou de bater neste ponto, ou seja na exigência de práticas exemplares da parte dos titulares de cargos públicos.

Para os socialistas e conservadores é como se a primeira volta das legislativas de Junho já tivesse começado. Para Macron e para Le Pen os próximos 15 dias vão ser os mais longos das suas vidas.