Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Fim de campanha dramático em Paris

Atiradores da polícia no topo de uma viatura nos Campos Elísios após o atentado

CHRISTIAN HARTMANN/ Reuters

Concretizou-se o pior pesadelo das autoridades: um atentado terrorista na reta final da campanha, contaminando o processo de decisão

O terrorismo, até então um tema entre outros nestas eleições presidenciais, regressou na véspera do fecho da campanha. O ataque a uma viatura da polícia na quinta-feira à noite nos Campos Elísios, a mais simbólica zona de Paris depois da Torre Eiffel, fez dois mortos (um polícia e o atirador). Eram 20h50 (hora local) quando Karim Cheurfi, de 39 anos, natural de Livry-Gargan (Paris), saiu de um Audi cinzento e se dirigiu a uma carrinha da polícia, parada em frente ao nº 104, junto a uma dependência das linhas aéreas turcas.

Era um homem considerado perigoso, com cadastro por atos de violência anteriores (durante um assalto e no ataque à mão armada a um guarda prisional), pelos quais cumprira parte de uma pena de 15 anos de cadeia. Não se lhe conheciam ligações ao radicalismo islâmico, à parte ameaças de morte contra a polícia, devido às quais estivera em prisão preventiva em fevereiro.

O atirador, equipado com uma espingarda de assalto, abriu fogo contra a frente do veículo, matando um agente e ferindo gravemente outro. Um terceiro viu defletidos os tiros pelo seu colete balístico. Segundo testemunhas, Cheurfi correu em seguida para o passeio, nunca visando civis mas sim outros polícias que acorreram. Estes, apesar de terem recebido espingardas de assalto HK-36 após os atentados anteriores (como as das forças especiais portuguesas), reagiram com as pistolas regulamentares SIG Sauer e abateram o atacante.

Seguiram-se correrias e algum pânico até a situação estar controlada. Centenas de pessoas ficaram retidas nas elegantes lojas e restaurantes da zona, totalmente cercada pelas forças de segurança e fechada até à madrugada de sexta-feira.

À hora do tiroteio, os 11 candidatos presidenciais estavam numa emissão televisiva especial. Na campanha, a segurança e a luta contra o terrorismo tinham sido falados, sobretudo pela nacionalista e populista Marine Le Pen, que sempre fez destes assuntos uma das suas prioridades. De repente, e em direto, o terrorismo passou a tema único a partir do momento em que a notícia foi conhecida. A líder da Frente Nacional falou em anos de “laxismo e de ingenuidade” das autoridades políticas, que, segundo ela, têm sido “extremamente tolerantes” com o islamismo radical e que, acrescentou, “permitiram desse modo que florescesse em França”.

Este novo ataque, que se seguiu à prisão, em Marselha, na terça-feira, de dois jovens extremistas islâmicos que estavam na posse de armas de guerra e de explosivos e que preparariam um atentado contra um dos candidatos ao Eliseu, era o cenário mais temido pelas autoridades, por acontecer tão em cima da abertura das urnas.

O terrorismo, que marcou o mandato de cinco anos do Presidente François Hollande — com um balanço terrível de 230 mortos —, obrigando a manter o país em estado de emergência desde há dois anos, vai ter certamente influência na votação, na medida em que vai fazer os franceses olhar com mais atenção para o perfil e o programa de cada um dos principais candidatos.

É difícil prever em que medida os últimos acontecimentos podem influenciar o voto dos franceses e as tendências para as quais apontavam as últimas sondagens: o centrista Macron e a ultradireitista Marine destacados, o esquerdista Mélenchon com uma grande ponta final de campanha e em vias de ultrapassar o conservador Fillon. Para já, três dos quatro principais candidatos — Emmanuel Macron, François Fillon e Marine Le Pen — anularam as ações que tinham previsto para o último dia de campanha e desdobraram-se em declarações oficiais sobre o terrorismo.

Endurecimento da retórica

Marine Le Pen espera atrair alguns votos suplementares ao pedir, em tom marcial, medidas muito duras contra o islamismo radical, fazendo uma amálgama entre islamismo, imigração e terrorismo e anunciando que a primeira medida que tomará “no dia seguinte à chegada ao Eliseu” será o restabelecimento das fronteiras francesas. O representante da direita conservadora, François Fillon, também radicalizou nos últimos tempos o discurso e, tal como Le Pen, defende que os jiadistas franceses e radicais islâmicos ligados ao Daesh ou afins sejam privados da nacionalidade francesa (o que, do ponto de vista constitucional e dos direitos básicos, é complicado). Fillon foi primeiro-ministro do Presidente Nicolas Sarkozy durante cinco anos e apresenta como trunfo ser o mais experiente dos quatro candidatos principais. Se isso é suficiente para diluir o efeito do escândalo com os empregos públicos fictícios da mulher e dos filhos, que o fez descer nas sondagens, ver-se-á.

Os outros dois concorrentes, do centro e da esquerda — Emmanuel Macron e Jean-Luc Mélenchon —, são menos marciais e têm uma imagem de maior abertura ao mundo na questão da imigração. Macron defende uma linha semelhante à de François Hollande: vigilância, segurança e estado de emergência em França, completados por guerra ao Daesh no Médio Oriente ao lado dos americanos. Mélenchon critica algumas das guerras ocidentais no Médio Oriente e África, considerando que têm alimentado o terrorismo.

Os quatro candidatos condenaram o atentado, mas Mélenchon foi o único a pedir que a campanha não fosse interrompida. “O pânico não deve levar à interrupção do processo democrático, e os terroristas e seus cúmplices devem ser castigados.” Macron, até agora o favorito da primeira e da segunda voltas, reagiu com uma mistura de pragmatismo e fatalismo: “A ameaça terrorista fará parte do nosso quotidiano nas próximas décadas.”

O ataque, embora de amplitude muito menor do que os do “Charlie Hebdo” ou da Sexta-Feira Negra (em meios, atacantes e vítimas), demonstra que a França, mesmo em estado de emergência e com forças de segurança e militares nas ruas, não é invulnerável, nem mesmo nos Campos Elísios, nos aeroportos ou na Torre Eiffel. O tiroteio ocorreu a poucas centenas de metros do muro que protege os jardins do Eliseu. À hora do fecho desta edição ainda não se sabia se o terrorista tinha cúmplices, ainda que tudo aponte para que tenha tido, pelo menos, o condutor do Audi a dar-lhe apoio.

O Presidente Hollande reuniu na manhã de sexta-feira, no Eliseu, o Conselho de Defesa, para tomar decisões sobre o reforço da vigilância e da segurança para a campanha eleitoral e as votações (primeira volta este domingo e segunda volta a 7 de maio). No fim da reunião, o chefe de Estado e o primeiro-ministro Bernard Cazeneuve garantiram que a segurança estará assegurada durante a votação.