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Internacional

O pesadelo do Boko Haram

foto STRINGER/AFP/GETTY IMAGES

Na Nigéria, milhares de jovens são raptadas pelo grupo militar de fundamentalistas islâmicos. Raras sobrevivem para contar a história. Patience Ibrahim é a exceção a essa regra. A jornalista alemã Andrea Hoffmann registou o seu testemunho no livro “Filha das Trevas”

O mundo inteiro já ouviu falar no Daesh (ou ISIS), mas poucos conhecem o Boko Haram. Este grupo extremista islâmico iniciou a sua atividade na Nigéria, matando todos os cristãos que encontrava no caminho. Não se sabe ao certo o número de mortos desde que o Boko Haram intensificou a sua ação, dizimando aldeias inteiras no Norte da Nigéria. Sabe-se que mais de 2 milhões de pessoas foram deslocadas desde 2013 e que só no ano de 2014 mais de 6600 foram massacradas.

Sabe-se, também, que o grupo tem métodos particularmente violentos, que as decapitações são comuns e que até as mulheres grávidas são esventradas, para impedir a propagação de ‘infiéis’. Os homens são forçados a ‘converter-se’ ao Islão, e os que não o fazem têm morte imediata. Nem as crianças escapam. Quanto às mulheres, são mantidas em cativeiro para servirem de escravas sexuais aos guerrilheiros, que as obrigam a repetir uma lengalenga para poderem ‘casar-se’ com elas e livrarem-se do pecado. Algumas dessas meninas têm 8 anos. O rapto de perto de 200 raparigas de uma escola em Chibok, em 2014, foi o ponto alto de visibilidade internacional que o Boko Haram atingiu, com a então primeira-dama dos EUA, Michelle Obama, a juntar-se ao movimento “Bring Back our Girls”. De então para cá, a Nigéria parece ter mergulhado no esquecimento geral. Patience Ibrahim tinha 18 anos quando foi raptada. Todos os membros da sua família foram mortos, decapitados. Ela, grávida, conseguiu fugir e ter a sua filha, Gift (que significa ‘prenda’). A sua história foi narrada por Andrea Hoffmann, jornalista de 44 anos, baseada em Berlim.

Ainda tem pesadelos com a história que Patience Ibrahim lhe contou?
Sim, ainda... Às vezes vejo homens à volta dela, a tentarem magoá-la, outras vejo imagens da mulher grávida que foi esventrada à frente de todos no campo do Boko Haram. A Patience também continua a ter pesadelos. É como se aquela experiência se tivesse tornado parte da sua vida.

O que é feito de Patience hoje?
Como todas as mulheres raptadas pelo Boko Haram, ela sofre um duplo castigo social: por um lado, é vista como ‘indigna’, porque se parte do princípio que foi violada pelos guerrilheiros; por outro, como tem uma filha, muitos assumem que esta foi concebida por esses homens e que transporta ‘as sementes do Diabo’. Ninguém pressupõe que o pai de Gift, a filha de Patience, é o homem com quem ela era casada e que foi degolado pelo Boko Haram. Apesar de ela ser uma vítima da violência, veem-na como suja, desonrada. Toda a família de Patience morreu às mãos do Boko Haram, pelo que ela não tem retaguarda. E não sabe ler nem escrever. A única ‘formação’ que teve foi para trabalho doméstico. Agora, está a aprender a costurar. Por isso, e apesar de só ter 20 anos, as suas perspetivas de voltar a ter uma família ou uma vida normal são muito reduzidas. Nunca mais vai voltar a ser uma jovem inocente. A única hipótese que tem de reconstruir a sua vida é ir para o Sul da Nigéria, onde as pessoas não a conhecem, e tentar um novo começo.

No tal terreno que a sua companheira de viagem comprou, no Sul, para mulheres que foram raptadas pelo Boko Haram?
Sim. Neste momento já lá estão cerca de 15 mulheres.

Quando esteve em Maiduguri, na Nigéria, 
a recolher a história de Patience, alguma vez sentiu que a sua vida estava em risco?
Sim, senti-me em perigo. No aeroporto, o carro em que fomos transportadas tinha os vidros fumados. Ninguém podia saber onde estávamos hospedadas, por causa dos raptos. Não havia mais nenhum branco em Maiduguri. À noite, ouvíamos tiros...

Há alguma ideia da quantidade de estragos 
que o Boko Haram já infligiu à Nigéria?
Pensa-se que cerca de 2000 raparigas tenham sido raptadas. Algumas conseguem fugir, durante as tarefas que são mandadas executar, como por exemplo recolher madeira para fazer fogueiras. Outras são treinadas para se fazerem explodir em mercados. Mas há seguramente milhares de mortos na Nigéria causados pelo Boko Haram. Todos os homens nas aldeias foram dizimados. E o conflito já se alastrou a outros países, como o Chade, os Camarões ou o Níger...

É impressão minha ou, ao contrário do Daesh, 
o fenómeno do Boko Haram não tem atraído 
a atenção internacional?
Depois do rapto das raparigas de Chibok, os EUA deram algum apoio militar à Nigéria. Houve apelos da ONU, mas nunca delegações no terreno. O Governo nigeriano nunca viu com bons olhos a interferência externa. Existem rumores de ligações entre políticos do Governo, militares e o Boko Haram. É estranho. A atenção do Ocidente centrou-se toda na Síria e no Iraque, e a ação do Boko Haram, que começou ao mesmo tempo, passou mais despercebida. É tudo tão caótico que ninguém quer envolver-se.

Há alguma ideia de quem lhes dá apoio, quem lhes fornece as armas?
O Boko Haram prestou juramento ao Daesh há dois anos e meio, e há rumores de que este lhe fornece armas. Há também a teoria de que são os extremistas dos Estados do Golfo a fornecer armamento.

Andrea Hoffmann, autora do livro “Filha das Trevas”, com Patience (à sua esq.), com a filha ao colo, e outras mulheres raptadas pelo Boko Haram

Andrea Hoffmann, autora do livro “Filha das Trevas”, com Patience (à sua esq.), com a filha ao colo, e outras mulheres raptadas pelo Boko Haram

foto arquivo Andrea Hoffmann

A religião é a base desta guerra? O Boko Haram é composto de radicais islâmicos, que matam cristãos...
É difícil dizer que sim ou não. Alguns políticos poderão achar que o Norte da Nigéria é tradicionalmente muçulmano e deve manter-se assim. Mas não se pode eliminar quase metade da população, que é cristã e vive essencialmente no Sul. O mais provável é que muitos políticos sejam pagos pelo Boko Haram ou ameaçados. Algo se passa. O exército nigeriano tem poder militar suficiente para conter este grupo. E isso não acontece.

Ao ler o livro, percebe-se que os guerrilheiros 
do Boko Haram exercem invulgares níveis 
de violência. Todos os homens são degolados, as grávidas são esventradas vivas, os guerreiros bebem sangue das vítimas, fazem sopa com carne dos mortos... De onde é que isto vem?
Eu também coloquei a mim mesma essa questão. É uma dinâmica de grupo, com rituais próprios. O Boko Haram começou como uma seita secreta, com cerimónias de iniciação muito cruéis. E é um grupo de homens muito jovens e muito violentos... Penso que esses rituais têm o propósito de os unirem, para os mudar para sempre. Como uma lavagem cerebral permanente. E para os fazer sentir poderosos.

Há alguma noção se o Boko Haram está a perder terreno?
Na Nigéria, a situação continua muito caótica, mas está um pouco melhor do que há dois anos. Contudo, extravasou as fronteiras, para os Camarões e o Chade. O Boko Haram tem vindo a conquistar muito terreno. Mas age secretamente, por isso ninguém sabe bem o seu grau de poder. Podem acontecer más surpresas na região. Ainda não estamos perto de ver o fim a isto. A solução tem de ser militar — a população civil não pode ficar à mercê do grupo. O melhor que podemos fazer é formar uma aliança forte com os muçulmanos civilizados e com os clérigos, para que passem a mensagem de que isto que é feito em nome do Islão não é o Islão.

Essa divisão religiosa pode ter sido causada 
pela união dos dois protetorados na Nigéria, 
em 1914, quando se juntou o protetorado 
do Norte, maioritariamente muçulmano, 
ao do Sul, maioritariamente cristão?
Não sei se isso se pode atribuir aos colonizadores ingleses. A única coisa que podemos questionar é se terá sido sensato permitir aos missionários católicos entrarem na Nigéria e converterem as tribos das montanhas. Os muçulmanos não gostaram. Mas teria sido diferente se tivessem mantido as suas religiões animistas? Julgo que é um problema de maiorias e minorias étnicas. A religião é apenas um pretexto, a meu ver.

Desde que publicou o livro com o testemunho de uma sobrevivente do Boko Haram, alguma instituição não governamental ou a ONU entrou em contacto consigo?
Recebo muitos e-mails de pessoas que querem ajudar, escrevi imensos discursos... Mas não, da ONU não. Aliás, no mês em que estive em Maiduguri, na Nigéria, não vi uma única ONG. O que é estranho, porque ali é necessária muita ajuda.

Com que regularidade fala agora com Patience?
Praticamente todas as semanas, por telefone. Não é fácil, porque ela não tem telemóvel e é sempre preciso uma tradutora. O livro já foi lançado aqui na Alemanha, em Inglaterra, em Itália, e vai ser lançado nos EUA. Metade do lucro das vendas do livro é para ela.