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Internacional

Surto de sarampo atinge comunidade somali nos EUA que foi alvo de campanha antivacinas

Wakefield perdeu a licença para praticar medicina no Reino Unido em janeiro de 2010

SHAUN CURRY

Na última semana foram registados nove casos de sarampo no condado de Hennepin, no Minnesota, com as autoridades a alertarem que o número deverá aumentar. As crianças não foram vacinadas e pertencem todas à comunidade de imigrantes somalis daquele estado norte-americano, que foi visitada pelo "pai do movimento antivacinas" pelo menos uma vez

Não é só Portugal que está a ser atingido por um surto de sarampo entre crianças que não foram imunizadas. Depois de, em março, as autoridades de saúde em Itália terem responsabilizado o partido populista MoVimento 5 Estrelas pelo aumento de casos de sarampo registados no país, esta semana as autoridades do Minnesota acusaram grupos antivacinas de estarem por trás do primeiro surto desta doença a ser registado naquele estado norte-americano desde 2011.

Na últimos dias já foram confirmados nove casos de sarampo no condado de Hennepin e as autoridades alertam que o número deverá aumentar ao longo das próximas semanas. Todas as crianças que contraríam a doença não foram vacinadas e pertencem à comunidade de somalis-americanos do Minnesota – "alvo preferencial" dos anti-vaxxers, como os que pertencem ao movimento são conhecidos nos EUA.

"Eles estão muito empenhados em visar esta comunidade", denuncia Kris Ehresmann, diretora da unidade de doenças infecciosas do estado. Ao site Mic, Ehresmann explicou que os anti-vaxxers começaram a abordar a comunidade de somalis em 2008, convencendo os progenitores a não vacinarem os seus filhos contra o sarampo e outras doenças altamente infecciosas.

Foi a partir desse ano que membros de grupos antivacinas começaram a aparecer recorrentemente em encontros da comunidade, para disseminar a teoria de que a MMR – a vacina tríplice que combate o sarampo, a papeira e a rubéola – provoca autismo. Desde então, o número de crianças imunizadas "tem estado em declínio constante", aponta a especialista.

Entre os anti-vaxxers que visitaram a comunidade nos últimos anos conta-se Andrew Wakefield, tido como o "pai do movimento antivacinas". Em 2011, a sua viagem até ao estado coincidiu com o primeiro surto de sarampo a atingir o Minnesota em vários anos, como apontou na altura o jornal "Star Tribune".

Um ano antes, em janeiro de 2010, um painel de médicos britânicos ordenou que lhe fosse retirada a licença para praticar medicina no Reino Unido, acusando-o de "insensibilidade e indiferença" para com as crianças e de "abuso de poder" por ter usado a sua "posição de confiança" enquanto médico para convencer os pais a não vacinarem os filhos.

Ehresmann diz que aquela não foi a primeira visita de Wakefield ao Minnesota, avançando suspeitas de que o britânico foi até ao estado pelo menos uma vez antes disso, em 2008, quando os anti-vaxxers começaram a disseminar a informação enganosa entre a comunidade somali.

No estudo que publicou em 1998, o ex-médico britânico apresentava alegadas provas de que administrar a vacina MMR a crianças provoca autismo. A teoria acabaria por ser desacreditada pela comunidade científica, quando foi descoberto que Wakefield recorreu a dados falsos para a sustentar.

Apesar disso, muitas famílias em várias partes do mundo, incluindo em Portugal, continuam a acreditar que a vacinação provoca autismo e outros problemas no desenvolvimento das crianças. Desde que o Reino Unido lhe retirou a licença para praticar medicina, Wakefield concentrou esforços nos Estados Unidos, onde especialistas lhe atribuem a responsabilidade de surtos recentes de sarampo como o que está a afetar a comunidade somali do Minnesota.