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Prender Julian Assange é uma “prioridade” para Washington

JEFF SESSIONS. Mais um político apanhado pelo furacão Rússia

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A seguir às declarações do procurador-geral dos EUA Jeff Sessions, a CNN avançou que o Departamento de Justiça já preparou acusações formais ao fundador da WikiLeaks, organização em tempos elogiada pelo Presidente Donald Trump

A detenção do australiano Julian Assange é agora uma "prioridade" para os Estados Unidos, declarou esta quinta-feira Jeff Sessions, o procurador-geral norte-americano, horas antes de uma notícia da CNN dar conta de que as autoridades já têm preparadas acusações formais ao fundador da WikiLeaks, que continua a viver exilado na embaixada do Equador em Londres desde junho de 2012.

Durante a campanha eleitoral, Donald Trump chegou a declarar "eu adoro a WikiLeaks", numa altura em que a organização delatora estava investida em divulgar emails privados do Partido Democrata e de pessoas ligadas a Hillary Clinton, ex-secretária de Estado e então candidata democrata à Casa Branca.

Agora, quase 100 dias depois de ter tomado posse, a sua administração parece ter revertido essa posição. Esta quinta-feira, numa conferência de imprensa em El Paso, no Texas, quando foi questionado se o Departamento de Justiça que dirige tem como prioridade a detenção do fundador da WikiLeaks, Jeff Sessions respondeu: "Já estamos a aumentar os nossos esforços de combate a todas as delações. Temos profissionais que estão no negócio de segurança dos EUA há vários anos que estão chocados com a quantidade de delações, algumas bastante sérias. Portanto, sim, é uma prioridade. Já estamos a aumentar os nossos esforços e quando conseguirmos ter um caso, vamos tentar pôr algumas pessoas na prisão."

Horas depois, a CNN citou fontes anónimas a garantirem que a procuradoria já encontrou uma forma de acusar formalmente o australiano, contornando as liberdades que lhe seriam garantidas à partida pela primeira emenda da Constituição. Um porta-voz do Departamento recusou-se a comentar se as autoridades já estão preparadas para abrir um caso judicial contra o delator.

Ao mesmo canal, Barry Pollack, advogado de Assange, disse não ter conhecimento de qualquer acusação iminente. "Não mantemos contacto com o Departamento de Justiça e eles não me indicaram que tenham acusações preparadas contra o sr. Assange. Eles não têm demonstrado qualquer vontade em discutir, apesar dos nossos pedidos repetidos para que nos informem sobre a situação jurídica de Assange no âmbito de quaisquer investigações em curso. Não existem motivos para que a WikiLeaks seja tratada de maneira diferente de qualquer outra publicação."

Assange está a viver na embaixada do Equador em Londres faz em junho cinco anos

Assange está a viver na embaixada do Equador em Londres faz em junho cinco anos

Carl Court/Getty Images

As autoridades norte-americanas estão a investigar Julian Assange e a WikiLeaks desde pelo menos 2010, quando, em colaboração com o "The Guardian", a "Der Spiegel" e outros jornais e revistas, a organização divulgou mais de 250 mil memorandos confidenciais de embaixadas norte-americanas que lhes foram entregues pela soldado Chelsea Manning (entretanto perdoada pela anterior administração nos últimos dias de Barack Obama no poder).

Na altura, os republicanos acusaram o fundador da WikiLeaks de traição e o empresário que viria a ser eleito Presidente chegou a declarar que o trabalho da organização delatora é "vergonhoso" e que Assange devia ser condenado "à pena de morte ou algo assim".

Anos depois, em plena corrida à Casa Branca, Trump alterou a sua postura quando a WikiLeaks começou a publicar emails obtidos por hackers patrocinados pela Rússia num ciberataque aos sistemas informáticos da Comissão Nacional Democrata e da campanha de Clinton. Trump e os seus apoiantes aproveitaram-se dessas revelações, que acabariam por contribuir para a sua vitória, sob acusações de oportunismo cínico tecidas pela oposição.

Agora, a sua administração parece ter voltado à ortodoxia republicana, com as autoridades apostadas em capturar, julgar e condenar Assange. "É altura de chamar as coisas pelos nomes: a WikiLeaks é um serviço de informação não-estatal e hostil, que muitas vezes é encorajado por atores estatais como a Rússia", declarou há uma semana Mike Pompeo, atual diretor da CIA. "Julian Assange não tem quaisquer liberdades garantidas sob a primeira emenda. Ele está instalado numa embaixada em Londres e não é um cidadão norte-americano."

Enquanto o australiano permanecer na embaixada do Equador, onde está desde 2012 a tentar combater o mandado de detenção emitido pela Suécia por suspeitas de violação, as autoridades dos EUA não podem tocar-lhe. Lenín Moreno, o candidatao socialista que acabou de vencer as eleições de abril no Equador, já prometeu que não vai extraditar Assange.