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Dias de cólera

FEDERICO PARRA/getty

Há confrontos em várias cidades, mas o futuro da Venezuela joga-se em Caracas, uma enorme metrópole no fundo de um vale onde todos os dias o mundo está prestes a mudar, para ficar sempre igual. Ninguém sabe até quando

Ricardo Marques

Ricardo Marques

enviado a Caracas

Jornalista

Dulce Maria não consegue falar baixo. Grita para que todos a escutem, mas não pára de olhar à volta como se ao mesmo tempo tivesse medo que a ouvissem. Os miúdos sentados num dos bancos, entretidos a abrir sacos e a mexer nos telemóveis, olham-na sem saber bem o que pensar. A professora Dulce Maria Bermudez Bolívar pára, acalma-se e depois volta a gritar. "Aqui não há futuro para os jovens." Estão todos numa ilha de árvores e passeio cercada de trânsito. Estão no epicentro dos violentos protestos que, há mais de um mês, agitam algumas das principais cidades do país. Estão na Praça Altamira, em Caracas, na Venezuela. Mas à volta de Dulce e dos miúdos, a vida corre como sempre correu. Simplesmente complexa.

Dulce não vai ficar até à noite. Nem ela nem as outras mulheres que todos os dias aqui chegam com sacos de roupa e caixas de comida. Mais tarde, os carros que agora abrandam e abrem as janelas para entregar mais sacos carregados de roupa e comida e água já não vão parar. Ao fim da tarde, início da noite, a praça será dos miúdos, quase todos estudantes universitários. Um deles, com um tablet na mão, aproxima-se e quer saber quem são os dois tipos parados à sua frente. "Portugueses? Muito bem, muito bem. Temos de ter cuidado, há muitos polícias infiltrados e disfarçados. E depois acontece isto. Queres ver?" O vídeo no tablet não arranca à primeira, nem à segunda. O rapaz parece não dormir há dias. Demasiado magro, tem feridas na cara, a roupa suja. "Mira, mira". A imagem treme, mas não é preciso ver bem para perceber a história que mostra. É de ontem, mas será igual hoje. "Se quiseres mando-te por e-mail."

Dois semáforos abaixo, nas traseiras de um terreno baldio que já esteve cercado de muro e arame, outros miúdos da mesma idade descansam à sombra. Alguns comem sandes e bebem sumos, mas a maioria está com os telemóveis na mão, provavelmente no Twitter ou no Facebook. É difícil saber ao certo, porque é impossível falar seja com quem for quando se trata da Guarda Nacional Boliviana.

Desencanto. Dulce Maria, professora, grita que, no seu país “não futuro para os jovens”

Desencanto. Dulce Maria, professora, grita que, no seu país “não futuro para os jovens”

d.r.

As fardas verdes e o equipamento antimotim fazem com que muitos desses rapazes e raparigas pareçam maiores e mais velhos do que os outros que estão na praça ali perto. Mas as fardas não lhes escondem a cara e, por isso, todas as tardes e noites desde há um mês, miúdos de um lado e miúdos do outro trazem para a rua uma coreografia de violência.

"CHUCKYS FASCISTAS" E "CRIADO DOS CUBANOS"

Uns cortam estradas com lixo, ferro e móveis, incendeiam barricadas, atiram pedras. Os outros respondem com gás lacrimogéneo, balas e bastonadas. Uns avançam, os outros recuam. Depois é ao contrário. Nos piores momentos, misturam-se os gritos e os passos de gente que foge e de gente que persegue, mais os disparos de gás e as sirenes que iluminam o céu, mais o fogo das barricadas e as explosões. Os prédios transformam-se em local de refúgio, mas logo a seguir são invadidos. Por vezes ouvem-se panelas a bater nas janelas. Mas não há palavras de ordem, apenas violência. Um confronto sem vencedores, mas com vítimas e que acaba, todas as manhãs, com um comerciante português de cabelo branco a varrer a entrada da sua loja no coração de Chacao. Chama-se Pedro.

Vinte e duas pessoas já morreram nas diferentes cidades venezuelanas onde se registam os confrontos, que começaram a 12 de fevereiro. A última vítima até ao fecho desta edição foi Daniel Tinoco, um estudante de engenharia baleado no peito por civis, na segunda-feira à noite, em San Cristobal. Há centenas de feridos, dezenas de detidos e uma crescente guerra de palavras e de tom de ambos os lados. O governo chama "chuckys fascistas" aos manifestantes - numa alusão ao boneco Chucky, do filme de terror com o mesmo nome. Os manifestantes chamam "ditador" e "criado dos cubanos" ao Presidente. Uma vez mais, porém, a simplicidade do campo de batalha é redutora. Nada é apenas aquilo que parece. E é um erro tão grande reduzir os confrontos na Venezuela aos choques entre estudantes e polícia como pensar que toda a Venezuela é palco de uma espécie de guerra civil. O que está em jogo é muito mais do que isso.

TERRITÓRIO DE ZAMUROS

Nos céus voam, em círculos, enormes aves negras, alimentando-sede carne putrefacta, agradecem por haver barricadas feitas de lixo nas ruas

Nos céus voam, em círculos, enormes aves negras, alimentando-sede carne putrefacta, agradecem por haver barricadas feitas de lixo nas ruas

d.r.

Vista de cima, de onde manifestantes e polícia parecem iguais, Caracas é uma enorme metrópole com mais de oito milhões de habitantes, presa num vale, com prédios enormes, um trânsito sempre caótico e cercada de favelas, os "barrios", por todos os lados menos um, o do enorme monte Ávila.

A qualquer hora, enormes aves negras voam lá no alto em círculos. São zamuros, uma espécie de abutre que se alimenta de animais mortos e carne putrefacta. Aos milhares, agradecem as barricadas feitas de lixo que amanhecem nas ruas desertas. São bichos territoriais, que encontraram nos protestos uma forma de ganhar mais espaço para viver. Que se alimentam e aquecem de uma brasa que vai ardendo sem mostrar a chama.

As araras, que aqui se chamam guacamayas, há vários dias que voaram para longe da Boulevard Cafetal. O fumo dos incêndios e o gás da polícia empurraram para longe as aves mais queridas dos moradores. Também já não vale de nada pôr comida à janela dos prédios de Chacao, do outro lado do rio Guayre. Elas não aparecem para a apanhar e para se deixarem fotografar (como fez em janeiro, num tweet famoso, o ministro do turismo).
"As guacamayas deixaram de voar aqui no centro e ninguém sabe quando voltarão", explica Carmen Cabello, presidente da Audubon, uma sociedade de estudo e defesa das aves venezuelanas. Esta é a pequena dúvida. A maior é saber que país irão encontrar os pássaros quando regressarem.

O ponto de partida é tão complexo que ninguém arrisca como acabará o braço de ferro em curso. "Há problemas políticos, económicos, sociais e de segurança", resume ao Expresso um empresário português, que pediu para não ser identificado por temer represálias. "É muito complicado." E não há forma simples de o explicar. Uma liderança política que tarda em afirmar-se (Nicolás Maduro vive ainda à sombra de Hugo Chávez, o "Presidente eterno"), uma oposição que não consegue falar a uma só voz (e que não concorda nem quanto ao motivo nem quanto à forma dos protestos), uma economia débil (apesar de ter as maiores reservas mundiais de petróleo, faltam nos supermercados bens tão essenciais como leite ou arroz), e uma criminalidade cada vez mais violenta (apesar das medidas repressivas e de prevenção).

Portugal tem demasiado em jogo para não se interessar. Além da enorme comunidade portuguesa residente, a Venezuela tornou-se nos últimos anos um importante parceiro estratégico - o segundo mais significativo na América Latina, a seguir ao Brasil.

Sem tréguas. Um manifestante a tentar erguer uma barricadana zona da Praça de Altamira

Sem tréguas. Um manifestante a tentar erguer uma barricadana zona da Praça de Altamira

d.r.

MISSA EM FÁTIMA

Os contratos entre a República Venezuelana e as empresas portuguesas valem muitos milhões de dólares. Já não são apenas os computadores Magalhães (conhecidos aqui como canaimitas), mas é a construção de portos, de estradas, de casas, os negócios farmacêuticos... "O aparelho diplomático e consular está em estado de prontidão, a acompanhar a situação e em contacto permanente com todos os atores portugueses que aqui estão. Para vermos em que medida é que podemos acautelar da melhor forma os nossos interesses", garante o embaixador de Portugal, Mário Lino da Silva.

Todos os domingos às nove horas da manhã dezenas de portugueses e lusodescendentes fazem o caminho até ao Santuário de La Virgen de Fátima, que fica em Los Teques, a uma boa meia hora do centro de Caracas. O santuário, que nasceu do sonho de um padre de Santa Maria da Feira, ordenado a 25 de abril de 1998, e da vontade de um comerciante libanês, que pagou a fase inicial, é uma obra em curso. O campanário, quando estiver pronto, terá 35 metros de altura - ou seja, estará 1195 metros acima do nível mar. A imagem da Virgem Maria, uma cópia exata da que existe em Portugal, terá mais de cinco metros e pesará cerca de uma tonelada. Está a ser feita no Equador e chegará a casa dentro de meses. A missa reza-se, pois, no piso -1, futuro estacionamento, mesmo por baixo da nave principal da igreja onde haverá lugares sentados, em bancos de pinho maciço, para mais de 600 pessoas.

Hoje, contando com as senhoras que estão atrás do balcão a vender sonhos e café (as receitas servem para a construção), há pouco mais de cem pessoas sentadas ao ouvir o padre Conceição a falar de como o Diabo tentou Jesus Cristo. "E de como todos os dias todos nós somos tentados. Há quem mate por uns ténis, há quem prometa e não cumpra". Mais tarde, já depois da missa, dirá que sente o rebanho "preocupado". "Claro que sim. As pessoas estão apreensivas com tudo o que está a passar-se. Mas temos de perceber que mudar o estado das coisas passa, antes de tudo, por mudar a forma como cada um de nós vive. Se eu mudar, se todos mudarmos, a situação também vai mudar". Um zamuro voa ao fundo, para lá das paredes sem tijolo nem janelas, por cima de um país de 28 milhões de pessoas e que é quase 10 vezes maior do que Portugal.

COMO TUDO COMEÇOU

A comunidade portuguesa na Venezuela ronda os dois milhões de pessoas: 400 mil portugueses e mais de 1,6 milhões de lusodescendentes. "O país não está a arder. Está muito longe de estar a arder", garante o embaixador Mário Lino da Silva. "Como nos ciclos económicos, que têm al- tos e baixos, estamos a viver um baixo, em relação ao qual não há que dramatizar. Mas hoje, dia 10 de março de 2014, verificamos que os incidentes diminuíram de intensidade e de importância em relação ao que já foram. E estão muito localizados geograficamente." Quando a pergunta é sobre o estado de espírito da comunidade, o diplomata, que está há três anos e meio em Caracas (e a poucos meses de deixar o posto), lembra-se de uma conversa que teve com um português pouco tempo depois de chegar.

Devoção. Todos os domingos de manhã rumam dezenas de portugueses ao Santuário dela Virgem de Fátima

Devoção. Todos os domingos de manhã rumam dezenas de portugueses ao Santuário dela Virgem de Fátima

d.r.

"Era um senhor, já com mais de 70 anos, um daqueles pioneiros que vieram para cá. E ele, de cabelos brancos e forma pausada, dizia-me que os portugueses tinham chegado nos anos 30 e ainda cá estavam. Já estavam habituados e já tinham vivido muita coisa, desde golpes de Estado, pilhagens, insegurança. Mas, acrescentou, sempre conseguiram ultrapassar tudo, sempre passaram pelos pingos da chuva. Os portugueses que aqui vivem, que já sentem que este é também o seu país, sabem lidar com estes períodos e isso dá-me alguma tranquilidade nestas situações menos normais."

O rastilho que incendiou as tais partes da Venezuela - as principais cidades do país e as zonas de Caracas mais atingidas são todas controladas por alcaides de partidos da oposição e zona de residência da classe média e média alta - começou a arder há semanas. No dia 4 de fevereiro, após uma série de assaltos em várias universidades, uma estudante do polo da Universidade dos Andes em San Cristóbal, estado de Tachira, foi assaltada e alvo de uma tentativa de violação. Os colegas saíram para a rua em protesto contra a insegurança nos dias seguintes e deram-se os primeiros confrontos com a polícia, as primeiras detenções e as primeiras queixas de violência policial.

Desde então, os protestos nunca mais pararam e os motivos que os geram multiplicaram-se na voz dos dirigentes da oposição (que condenam publicamente a violência): contra o crime, contra a escassez de bens, contra a falta de liberdade, contra a influência cubana, contra o desaparecimento de biliões de dólares de dinheiro público, contra a repressão e a tortura, contra os "coletivos", contra a prisão de Leopoldo Lopez - o dirigente político que se encontra preso em instalações militares da Guarda Nacional Bolivariana. As redes sociais como o Twitter e o Facebook animam-se ao fim da tarde, repletas de informações impossíveis de confirmar. É outra guerra. À hora de fecho desta edição, como todas as noites, havia relatos de raptos, feridos, carros a arder, cidades à beira da guerra civil. E vídeos amadores. Alguns feitos na rua, a maioria das janelas dos prédios. Como se os pássaros olhassem para baixo.

Bênção. No templo oficia o padre Conceição...

Bênção. No templo oficia o padre Conceição...

d.r.

A ESCASSEZ E OS DÓLARES

No dia 25 de agosto de 2012, uma enorme explosão seguida de um violento incêndio atingiu a refinaria de Amuay, a principal unidade de uma das maiores refinarias do mundo, localizada na península de Paraguana. O acidente, que as autoridades venezuelanas classificaram como um ato de sabotagem, provocou 39 mortos e afetou seriamente, com outros problemas que entretanto se seguiram, a capacidade do país de transformar o petróleo - obrigando a que um dos maiores exportadores de crude (as reservas venezuelanas, diz a OPEP, são as maiores do mundo) seja obrigado a importar combustível, pagando essa compra em dólares.

O problema, porém, é mais complexo. Qualquer pessoa que encha o depósito do carro num dia de calor, como são quase todos, percebe rapidamente que a realidade venezuelana é um pouco estranha. Quatro bolívares fortes chegam para 40 litros de combustível. Mas se for preciso comprar uma garrafa de água, na mesma bomba de gasolina, esta não custa menos do que 15 bolívares. Quase quatro vezes mais. "A gasolina aqui é dada", explica um emigrante português. "Não é sustentável ter este preço. Mas não sei o que seria, ou será, quando a decidirem aumentar", acrescenta.

O preço do combustível assegura a mobilidade dos milhares carros e motos que todos os dias entopem as estradas em intermináveis "colas" (filas). Nas últimas semanas, muitos venezuelanos têm aproveitado para percorrer todos os supermercados e lojas à procura de leite, arroz, farinha, açúcar, peças para automóvel, medicamentos. Poucos têm sorte e a maioria encontra apenas prateleiras vazias ou ocupadas por outros produtos - como ração para animais. Há pouco mais de uma semana, Nicolás Maduro falou durante três horas na televisão, sentado a uma secretária diante de uma sala cheia de apoiantes. À sua frente tinha um pacote de leite. "Nos próximos dias, fruto de um acordo com empresas nacionais e internacionais, fixaremos preços justos em todos os bens da vida do país. Alguns vão baixar, outros vão manter-se iguais e outros vão subir", anunciou, enquanto agitava o pacote de leite sem conseguir acertar no seu preço.

DÍVIDAS E CRIME

O Presidente acrescentou logo a seguir uma espécie de conta igual a zero: tudo o que subir em demasia será vendido nos supermercados do Estado a preços acessíveis ou terá desconto para que as pessoas mantenham o valor do salário (o salário mínimo foi fixado em janeiro, após um aumento de 10%, nos 3270 bolívares). Adiantou mesmo que poderá ser criado um cartão para esses descontos, cartão que habilitará depois os utilizadores a ganharem carros, casas ou pacotes de férias (tal como sucedia com quem pedisse fatura, algo que agora parece esquecido). Medidas que se juntam a um limite imposto aos lucros das empresas, não mais do que 30% sobre os preços de custo das mercadorias. Nos hospitais, de acordo com as organizações do sector, falta material e faltam medicamentos.

Na segunda-feira, no Palácio de Miraflores, o Presidente Maduro entregou os diplomas a mais 2500 "médicos integrais comunitários", que vão ser colocados nas missões médicas que procuram garantir que toda a população tem acesso a cuidados de saúde. À mesma hora em que os novos graduados davam vivas a Chávez, Maduro e a Cuba, na pessoa de Fidel e Raul Castro (a cerimónia de quase duas horas foi transmitida em direto nas rádios e na televisão), uma marcha de médicos era travada não muito longe dali pela polícia.
Na segunda-feira, refira-se, assinalou-se o dia do médico. Com festa de um lado e pancadaria do outro. E, como é cada vez mais habitual, com milhares de condutores na estrada, de rádio ligado, a tentarem saber onde estão os incidentes e as barricadas para evitarem esses caminhos. Não por receio, mas principalmente para chegarem a horas ao trabalho ou a casa.

... e senhoras vendem sonhos e cafés para ajdar a custear a obra, à qual tem faltado o ferro

... e senhoras vendem sonhos e cafés para ajdar a custear a obra, à qual tem faltado o ferro

d.r.

Nos últimos anos, e apesar da crise económica, muitos venezuelanos começaram a fazer férias no estrangeiro. Mais do que abrir horizontes, para muitos trata-se de abrir (e encher) a carteira. Duas semanas depois da explosão na refinaria, a até então lenta subida do dólar no mercado paralelo disparou. Hoje, com a cotação oficial a 6,3 bolívares, um dólar vale na rua cerca de 90 bolívares. Como não existem casas de câmbios acessíveis ao comum dos cidadãos, sempre que um venezuelano quer viajar para o estrangeiro e precisa de trocar dinheiro tem de preencher uma série de formulários especificando o destino. Os dólares que lhe são disponibilizados variam consoante o país: podem ser pouco mais de mil para uma viagem aos EUA e mais de 3000 se as férias forem em Cuba. Esses dólares são pagos ao valor oficial, 6,3 bolívares por dólar, e assim, quando aterrar em Havana, o cidadão venezuelano terá na mão os tais 3000 dólares que lhe terão custado pouco mais de 18 mil bolívares. Se regressar a casa com 2500 dólares, basta trocá-los no mercado paralelo.
Receberá cerca de 225 mil bolívares, dez vezes mais do que aquilo que gastou. E com umas férias pelo meio.

O lado negro da desvalorização do bolívar face ao dólar é a dívida do país, que importa grande parte do que consome e que tem de pagar em dólares. A Rússia e a China, que têm canalizado biliões de dólares para a Venezuela, contam ser pagas em barris de petróleo no futuro e, no presente, em vários projetos que têm em curso (uma volta pelos principais hotéis de luxo de Caracas basta para perceber o número de trabalhadores chineses destacados na Venezuela). As dívidas às companhias aéreas levam a que haja cada vez menos voos para a Europa e que seja quase impossível comprar um bilhete em bolívares.

PORTUGUESES ESTÃO POR TODO O LADO

A TAP está na lista de credores. "TAP é uma companhia que opera quase todos os dias da semana para cá e, por isso, a dívida vai agravando-se diariamente", reconhece o embaixador de Portugal. "Mas há neste momento propostas de ambos os lados e estimamos que, com base nos contactos que mantemos, o problema venha a resolver-se e que seja possível encontrar uma solução", acrescenta Mário Lino da Silva. Sobre as restantes empresas portuguesas, o embaixador diz não ter "conhecimento de qualquer queixa ou problema". Houve um percalço, é certo, quando um trabalhador da Teixeira Duarte foi apanhado no meio dos confrontos e detido pela polícia perto de casa, há duas semanas. "Estava no local errado à hora errada. Mas a situação resolveu-se rapidamente. No dia seguinte, foi libertado e ilibado", garante o embaixador.

No Santuário de la Virgem de Fátima, diz Agostinho Gonçalves, um dos portugueses que está à frente do projeto, tem faltado ferro para as estruturas do edifício. Carlos Nunes não tem cerveja normal na sua loja de bebidas. Só light. Os portugueses da Venezuela, como diz o embaixador, procuram o espaço pelo meio da chuva. Mas são cada vez mais a tentar a fazê-lo. Quatro séculos depois de João Fernandes de Leão e Pacheco ter fundado, em 1593, a cidade de Guanare, capital do estado Portuguesa, os apelidos portugueses estão por toda a parte. Na política, nas Forças Armadas e, claro, na economia, onde controlam mais de 90% das grandes superfícies comerciais privadas, além de restaurantes, padarias e mercearias.

Apesar de integrados, os portugueses gostam de se ter uns aos outros por perto. E isso é mais verdade no Centro Português de Caracas do que em qualquer outro lugar. John dos Santos e Gil Andrade, presidente e vice-presidente, são os guias da visita pelas intermináveis instalações. O enorme complexo na Avenida Luís de Camões, na zona de Macaracuay, é uma cidade dentro da cidade. Tem quatro restaurantes, piscina, campos de ténis, ginásio, cabeleireiro, salas de jogo, para homens e mulheres, enfermaria, psicólogo, aulas, dentista... "Procuramos sobreviver todos os dias neste país. E o clube é uma segunda casa, um lugar onde podemos vir e estar tranquilos", diz John. A mulher, claro, conheceu-a no centro.

Carlos Nunes conhece bem o Centro Português, os dirigentes e grande parte dos 2000 sócios que, com as quotas e donativos, vão fazendo crescer a instituição. "Por que razão me hei de ir embora? Já viu bem este país? Este calor? Esta gente? Eu gosto da Venezuela, não há sítio melhor para viver." Os filhos de Carlos moram em Espanha. Algo que tem em comum com muitos outros emigrantes, cujos filhos deixaram a Venezuela, quase todos depois de terminarem o ensino superior. "É uma tendência crescente", admite ao Expresso fonte diplomática. "Não se pode quantificar, porque essas pessoas regressam uma ou duas vezes por ano. Mas, sim, há cada vez mais saídas para outros países da região e até para a Europa." Um sinal disso é o número crescente de cidadãos portugueses a viver na Colômbia.

Um ícone. Hujo Chavez já morreu há um ano, mas está mais vivo do que nunca. O seu rosto está nas paredes, nos carros, nas camisolas, nas bandeiras

Um ícone. Hujo Chavez já morreu há um ano, mas está mais vivo do que nunca. O seu rosto está nas paredes, nos carros, nas camisolas, nas bandeiras

d.r.

Se são poucos os que regressam a Portugal após uma vida de trabalho - incapazes de deixar os filhos e os netos para trás num país a que aprenderam a chamar seu -, também há casos mais radicais. "Há pessoas que, pura e simplesmente, não aguentam mais. Há casos de famílias em que todos os membros foram sequestrados, espancados, feridos. E aí vai a família toda", refere a mesma fonte. O Consulado de Portugal não quis comentar, adiantou apenas que o número de pedidos de contentores - indispensáveis nestas partidas definitivas - é "absolutamente normal". Aliás, o cônsul Paulo Martins Santos garante que o movimento no consulado é normal.

Tão rotineiro como a violência dos sequestros, dos assaltos e dos homicídios, num país onde quase todas as casas são condomínios fechados. O Observatório Venezuelano para a Violência calcula que o número de homicídios em 2013 tenha sido superior a 24 mil. O que dá uma média de duas pessoas mortas a cada hora - um número que, contudo, não é possível confirmar, pois as autoridades venezuelanas, ainda que adiantando que está em queda este tipo de crime, não disponibilizam as estatísticas oficiais. Os sequestros conhecidos, no mesmo ano, foram mais de 500. Não espanta por isso que a maior parte dos portugueses que o Expresso contactou se mostre "bastante preocupada" - como disse um deles - com a insegurança no país. Embora muitos achem mais arriscado falar com jornalistas portugueses.

A FORÇA PARALELA DOS "COLETIVOS"

Dulce Maria, a professora de 53 anos que grita na Praça Altamira que os jovens não têm futuro na Venezuela, chora por saber que a filha vai partir em breve, para estudar nas Canárias. "Estes jovens estão aqui porque já não podem protestar onde moram. Correm perigo, as suas famílias correm perigo. Nós estamos dominados não só pela força militar como por uma força paralela mantida pelo governo para se opor a quem manifeste um pensamento diferente".

A "força paralela" de que fala Dulce, os "coletivos", nasceram há cerca de uma década nos bairros, com a bênção de Hugo Chávez, como polos de defesa da cultura popular venezuelana. Ganharam peso quando o governo fez deles parceiros na luta contra o crime e evoluíram para uma espécie de milícias de vigilantes. No entanto, os "coletivos" aproximaram-se demasiado dos problemas que deviam combater e muitos deles são hoje autênticos grupos armados (alguns até com veículos blindados) que se digladiam pelo controlo do território e do narcotráfico - permanecendo, contudo, leais ao governo.

E quando, há poucas semanas, Nicolás Maduro pediu uma resposta aos protestos na rua, os "coletivos" intervieram. E os que protestavam protestaram ainda mais, queixando-se da violência armada deles e da alegada complacência das autoridades. Maduro, que gosta de se intitular "filho de Chávez", lidera um governo em que mais de metade dos membros são militares. O fantasma do "pai" está mais presente do que nunca. A orientação política é a mesma. Não há um "madurismo", mas há um "chavismo" - que a própria ONU reconhece ter melhorado as condições de vida de milhões de venezuelanos, em particular no acesso à saúde, educação e habitação, ao mesmo tempo que lançou um forte ataque sobre o sector privado nacionalizando várias empresas.

"Ni se negocia la Revolución, ni se negocia el socialismo, para nada, porque cada dia estoy mais convencido de que el socialismo es el reino de Dios aqui en la terra", disse um dia Hugo Chávez, que morreu a 7 de março de 2013 vítima de um cancro, mas que continua mais vivo do que nunca. O seu rosto está nas paredes, nos carros, nas camisolas, nas bandeiras. O seu nome ouve-se centenas de vezes ao dia. Os seus olhos estão, literalmente, num desenho que ameaça tornar-se um ícone pop, por toda a parte. O embaixador de Portugal compara-o a Amália e a Eusébio. "No sentido em que líderes com a sua capacidade de mobilizar as massas, concordese ou não com o projeto, só surge um a cada 100 ou 200 anos." O seu herdeiro, Nicolás Maduro Moros, um motorista de autocarro e sindicalista, procura guiar o país entre o que resta do passado e os desafios do futuro.

Maduro foi eleito em abril do ano passado por uma margem mínima sobre o candidato derrotado, Enrique Caprilles. Meses mais tarde, nas eleições estaduais, a vantagem do governo foi mais confortável. O embaixador Mário Lino da Silva acredita que a atual crise será ultrapassada. "As duas partes estão condenadas a entender-se, a dialogar. E posso adiantar-lhe, sem cometer inconfidências, que esse processo já está em marcha. Agora se, no final, se vão entender ou não, é arriscado dizer. O próprio tempo contribuirá para isso, porque o arrastar desta situação ad eternum é inverosímil, é uma não saída." Na pátria do socialismo bolivariano, há uma enorme cruz que todas as noites brilha no alto da serra junto à qual se encosta Caracas, a cidade das "zonas de guerra", mas onde duas ruas abaixo há gente apressada a caminho do trabalho, miúdos fardados a sair da escola, centros comerciais cheios, namorados a passear, McDonalds por todo o lado e senhoras idosas à espera de atravessar a estrada. É uma visão estranha, mas por aqui nada é a preto a branco. Nem os manifestantes que avançam pela rua como "torditos" no chão, nem os polícias de choque que seguem dois a dois nas motos, como se fossem guacamayas que voam aos pares.

O futuro, contudo, é incerto. Há quem o veja tão negro como as penas de um zamuro e há quem o sonhe branco, da cor das garças que voam ao longo do rio Guayre. E tudo parece possível, até algo que ninguém imaginou. Afinal, este é o país em que, há cerca de um ano, um homem estava numa igreja a rezar quando apareceu um passarinho que lhe disse que ia ser Presidente. E o passarinho não estava errado.

Texto publicado na edição do EXPRESSO de 15 de março de 2014