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Carter Page é a chave que desvenda o mistério Trump-Rússia?

Carter Page

Sergei Karpukhin / Reuters

Desde 2013 que o FBI estava interessado nas atividades do empresário, após ter apurado que um espião russo tentou recrutá-lo. O interesse da agência aumentou exponencialmente assim que Page foi nomeado conselheiro do Presidente Trump, sobretudo por causa de uma viagem a Moscovo em julho, quatro meses antes das eleições presidenciais

Foi há quatro anos que o FBI descobriu que um espião russo estava a tentar recrutar um empresário norte-americano chamado Carter Page para as suas fileiras de informadores. Por causa disso, em 2013 Page entrou automaticamente para a lista de "pessoas de interesse" da agência de informação, e esse interesse só aumentou quando Donald Trump o escolheu para integrar o seu círculo de conselheiros na Casa Branca assim que tomou posse em janeiro.

O facto de Page ter sido nomeado conselheiro de política externa do novo governo republicano alimentou as suspeitas da agência federal, em particular por causa de uma viagem do empresário à Rússia em julho, a apenas quatro meses das eleições presidenciais – pouco antes de a administração Obama e a CIA terem referido "fortes indícios" de ingerência russa na campanha eleitoral.

Foi essa viagem em julho, durante a qual Page foi discursar a um prestigioso instituto de Moscovo, que catalisou a investigação aberta pelo FBI ao alegado conluio entre a campanha de Donald Trump e o governo de Vladimir Putin. A notícia foi avançada na quarta-feira à noite pelo "New York Times", com base em informações de atuais e ex-agentes norte-americanos.

O jornal aponta que, para já, não se sabe o que motivou o interesse do FBI naquela viagem, se os encontros que Page manteve na capital russa durante três dias, se as comunicações que a agência intercetou entre ele e indivíduos ligados ao governo russo, ou se outro dado ainda por revelar.

Page, veterano da Marinha de 45 anos, já tinha vivido em Moscovo durante três anos e, até setembro, tinha acumulado a sua carreira de investidor com a de conselheiro de campanha de Trump. Nesse mês, quando faltavam menos de oito semanas para a ida às urnas, o empresário abandonou a equipa republicana e foi aí que o FBI conseguiu que o tribunal FISA emitisse um mandado para monitorizar as suas comunicações, sob suspeitas de espionagem a favor da Rússia.

O diretor do FBI foi chamado a depôr no Congresso sobre a alegada ingerência russa nas eleições

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Alex Wong

Terá sido a partir desta obscura viagem de Page a Moscovo que a investigação Trump-Rússia foi lançada, que decorre a par de dois inquéritos do Congresso e que foi confirmada pelo diretor do FBI James B. Comey, em março – quando, num passo raro, assumiu que a agência que lidera está a investigar as suspeitas de ingerência russa nas eleições e reconheceu que as suspeitas incluem possíveis ligações de sócios de Donald Trump à Rússia de Putin.

De acordo com as fontes citadas pelo "New York Times" esta quarta-feira, quando o FBI abriu uma primeira investigação, no final de julho, a agência estava a começar a explorar se e que conselheiros de Trump mantiveram contactos com agentes ou membros do governo russo. Nos meses que se seguiram, acrescentam as mesmas fontes sob anonimato, foram surgindo mais provas de alegado conluio.

Quando foi discursar na New Economic School em Moscovo no ano passado, Page criticou a posição dos EUA em relação à Rússia, no que o diário nova-iorquino diz ter sido um eco da posição de Vladimir Putin: "Washington e outras capitais ocidentais têm impedido o potencial progresso através do seu foco tantas vezes hipócrita em ideias como democratização, desigualdade, corrupção e alteração de regime", declarou o empresário. Foi igualmente um eco da opinião positiva que Trump foi manifestando sobre o Presidente Putin durante a corrida.

Antigos funcionários da campanha dizem que Page e o agora Presidente nunca chegaram a conhecer-se, apesar de o empresário garantir que participou nalgumas reuniões em que Trump também esteve presente. Apesar disso, quando vários republicanos começaram a distanciar-se do candidato do próprio partido, Page "cumpriu um propósito na agitada campanha de Trump", refere o jornal nova-iorquino. Ao rejeitar as acusações de que a sua equipa não integrava qualquer verdadeiro especialista em política externa, o então candidato presidencial leu uma lista de cinco pessoas que se tinham oferecido para o aconselhar nessa área, uma que incluía Carter Page, alegadamente a conselho de Sam Clovis, um republicano que integra o movimento ultraconservador Tea Party.

Trump com Sam Clovis num comício de campanha no Iowa em agosto

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Scott Olson

Ninguém nos círculos de política externa de Washington conhecia o empresário, mas o facto é que "o seu doutoramento e a sua experiência na Rússia eram reais", depois de ter vivido em Moscovo entre 2004 e 2007, quando trabalhava para o Merril Lynch. Foi depois disso que fundou a sua empresa de investimento, a Global Energy Capital L.L.C., através da qual fez negócios com o empresário russo Sergey Yatsenko – ex-número dois do painel de conselheiros financeiros da energética estatal russa, a Gazprom, que é muito próximo de Putin.

O papel desempenhado por Page na campanha de Trump parece ter sido mínimo, com fontes a garantirem que não tinha credenciais de acesso, nem escritório nem um email oficial de campanha. "Se os russos estavam a tentar colaborar com ele, estavam a tentar colaborar com alguém que não tinha qualquer influência na campanha de Trump", garante Roger Stone, conselheiro de longa data do atual Presidente.

Page, esse, define a sua participação noutros termos. "O meio ano que passei na campanha de Trump fez mais por mim do que os cinco anos que passei na Marinha", descreveu numa entrevista em março. Questionado sobre se algum dia existiu a possibilidade de os russos o tentarem recrutar, em particular durante os contactos que manteve com agentes do país em 2013, respondeu apenas: "Zero riscos na altura ou em qualquer momento da minha vida."

Quando, há uma semana, o "Washington Post" revelou que o FBI tinha obtido um mandado do FISA para fazer escutas a Page, o empresário disse estar a ser vítima de uma campanha de difamação orquestrada por assessores de Hillary Clinton e da anterior administração – repetindo acusações já feitas por Trump, depois de ter sido denunciado que pelo menos seis membros do seu governo mantiveram contactos duvidosos com o embaixador russo em Washington.

"Estão a falar de narrativas falsas", disse na Fox News. "Quando se apresentam provas falsas num tribunal, incluindo no FISA, isso é ilegal. Portanto, vamos ver o que acontece."