Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

A ressurreição política de François Fillon a quatro dias das eleições

BENOIT TESSIER

"The Guardian" refere esta quinta-feira que eleitores de direita que até agora ponderavam votar em Macron ou Le Pen estão a virar-se para o ex-primeiro-ministro, apesar dos escândalos de corrupção em que está envolvido

"Contra todas as expectativas exceto talvez as suas próprias, François Fillon, o candidato de direita às presidenciais francesas atingido por um escândalo, está de regresso à corrida." Assim declara esta quinta-feira Jon Henley, especialista do "The Guardian" em assuntos europeus, que foi correspondente do jornal britânico em Paris.

A apenas quatro dias da primeira volta presidencial em França, disputada no próximo domingo por onze candidatos, Henley refere que Fillon está a subir nas sondagens mais recentes. Numa altura em que cerca de 25% dos eleitores continuam indecisos, muitos dos franceses de direita que até agora pendiam para o centrista Emmanuel Macron ou para a líder da extrema-direita Marine Le Pen – os líderes da corrida – parecem estar a redirecionar as atenções para o candidato conservador que, em janeiro, foi acusado de abuso de poder por ter criado empregos fictícios para a mulher e os filhos, pagos com dinheiro dos contribuintes.

Esta quarta-feira, o ex-primeiro-ministro pôs de lado a sua "terapia de choque económico" em que inicialmente baseou a campanha e surgiu ao lado do antigo rival Alain Juppé, numa inesperada demonstração de unidade do centro-direita após dezenas de deserções.

Isto depois de, na noite anterior, ter tentado atrair os indecisos durante um comício de campanha em Lille, reconhecendo que a sua candidatura à presidência não tem sido fácil mas sublinhando: "Tenho a sensação de que vamos reescrever os guiões que os outros tinham decidido por nós. Vamos fazer história."

Durante três meses, entre novembro e janeiro, Fillon foi o favorito para substituir François Hollande no palácio do Eliseu, através de uma campanha que alia o liberalismo económico ao conservadorismo social, "uma combinação quase desconhecida" em França, assim refere o "The Guardian".

Surpreendendo muitos, Fillon conseguiu destronar o ex-Presidente Nicolás Sarkozy e Juppé, o candidato conservador mais moderado, nas primárias do partido Os Republicanos, atraindo muitos eleitores que concordam com a necessidade de reformas ao estilo de Thatcher – incluindo cortes na despesa e na função pública, aumento da idade da reforma e a liberalização das leis laborais – para acabar com a rota de "falência" que o país tem seguido.

Entre as primárias de novembro e o início deste ano, Fillon liderou as intenções de voto, seguido de perto por Le Pen, com os inquéritos a anteverem a sua vitória na segunda volta, marcada para 7 de maio. O estado de graça acabou em janeiro, quando o jornal "Le Canard Enchaîné" revelou que o político pagou centenas de milhares de euros à sua mulher Penelope, por assistência parlamentar que ela nunca lhe prestou, recorrendo a dinheiros públicos.

Desde então, a lista de acusações foi crescendo, com denúncias de ter criado empregos fictícios para os filhos, de ter convencido um amigo milionário a pagar um salário a Penelope e de ter aceitado presentes, fatos e relógios no valor de dezenas de milhares de euros. Entretanto, foi igualmente denunciado que a empresa de consultoria que o conservador criou em 2012 já angariou mais de um milhão de euros, na sua maioria de fontes duvidosas, e que não declarou um empréstimo de 50 mil dólares do mesmo milionário que pôs a mulher do candidato na folha salarial da sua revista literária.

Em março, as autoridades franceses acusaram formalmente Fillon e a sua mulher de abuso de fundos públicos. Até hoje, o conservador mantém que tudo não passa de uma cabala orquestrada pelos media, os magistrados e os seus rivais de esquerda, entre eles o Presidente socialista de saída.

Nos últimos meses, Fillon chegou a cair dez pontos percentuais nas sondagens, afastando-se muito de Le Pen e do centrista independente Macron, os que continuam a liderar as intenções de votos. Há uma semana, o candidato de extrema-esquerda Jean-Luc Mélenchon surgiu em terceiro lugar nalguns inquéritos.

Com a primeira volta a aproximar-se, Le Pen e Macron parecem estar a perder ímpeto, ao contrário de Fillon, que tem visto o número de apoiantes subir nos últimos dias. Henley aponta que, "em parte, tem a agradecer à sua base de apoio, a direita religiosa conservadora, a lealdade inabalável".