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Coreia do Norte vai “realizar testes de mísseis semanalmente”

ED JONES / AFP / GETTY IMAGES

Promessa foi feita pelo vice-ministro norte-coreano dos Negócios Estrangeiros em entrevista ao correspondente da BBC em Pyongyang

Apesar da condenação internacional e das crescentes tensões militares com os Estados Unidos e os seus aliados regionais, a Coreia do Norte vai continuar a testar mísseis, garantiu ontem fonte do regime de Kim Jong-un numa rara entrevista com o correspondente da BBC em Pyongyang.

“Vamos realizar mais testes de mísseis numa base semanal, mensal e anual”, disse Han Son-ryol, vice-ministro dos Negócios Estrangeiros, ao canal britânico, adiantando que haverá uma “guerra total” se os Estados Unidos decidirem agir militarmente contra o país. “Se os Estados Unidos estiverem a planear um ataque militar contra nós, vamos reagir com um ataque nuclear preventivo do nosso estilo e método”, prometeu Han.

A entrevista decorreu depois de o vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, ter avisado o país que não deve testar as forças norte-americanas e que a “era da paciência estratégica” seguida pelos antecessores de Donald Trump em relação a Pyongyang acabou.

Pence aterrou em Seul no domingo horas depois de a Coreia do Norte ter falhado um novo teste de míssil, numa altura de tensões crescentes na península coreana e de troca de ameaças entre Pyongyang e Washington.

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, cumprimenta o Presidente em funções da Coreia do Sul, Hwang Kyo-ahn

O vice-presidente dos EUA, Mike Pence, cumprimenta o Presidente em funções da Coreia do Sul, Hwang Kyo-ahn

KIM HONG-JI / REUTERS

Nos últimos anos, o hermético regime de Kim Jong-un tem estado a aumentar a periodicidade dos seus testes de mísseis e testes nucleares, com o alegado objetivo de desenvolver uma ogiva nuclear num míssil balístico intercontinental com capacidade para atingir alvos em todo o mundo, incluindo o território continental dos EUA.

O Presidente Trump não só tem garantido que não vai deixar que isso aconteça, como há uma semana destacou para as águas da península coreana uma frota de ataque com um porta-aviões e respetivos navios e aviões de guerra, tendo ontem iniciado uma nova ronda de exercícios militares conjuntos com a Coreia do Sul, para além de estar a avançar com o controverso escudo antimísseis já instalado no território sul-coreano.

O adensar das tensões acontece também num momento em que, apesar da condenação da comunidade internacional e das sanções já aprovadas pela ONU, Pyongyang pode estar a preparar-se para executar o sexto teste nuclear desde 2006, com um grupo de monitorização a alertar recentemente que tem havido atividade irregular numa das zonas de testes do regime.

Ontem, ao lado do Presidente interino da Coreia do Sul, Hwang Kyo-ahn, Pence voltou a repetir que os norte-coreanos não devem pôr o Presidente Trump à prova, isto depois de este ter avisado que está preparado para “agir sozinho” caso a China não aumente a pressão sobre Kim.

“Só nas duas últimas semanas, o mundo testemunhou a força e o empenho do nosso novo Presidente em ações executadas na Síria e no Afeganistão”, disse o número dois da administração norte-americana, em referência ao ataque com mísseis a uma base militar de Bashar al-Assad em Homs e ao recurso à “mãe de todas as bombas” para destruir um alegado esconderijo do Daesh no Afeganistão (a maior bomba convencional não-nuclear que os EUA algum dia utilizaram em teatros de guerra). “A Coreia do Norte faria bem em não testar a determinação [de Trump] ou a força das forças armadas dos EUA nesta região.”

Na mesma conferência de imprensa, Pence voltou a sublinhar que os EUA estão ao lado da Coreia do Sul, dizendo ao líder interino do país “estamos convosco a 100%”.

Em março, o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson, tinha avisado que “está em cima da mesa” a possibilidade de um ataque preventivo à Coreia do Norte, ecoando uma ideia já avançada por Donald Trump e apesar de, para já, a administração norte-americana continuar a trabalhar com Pequim para que convença o aliado norte-coreano a suspender todos os testes nucleares e de mísseis.

Trump com Xi Jinping na Florida

Trump com Xi Jinping na Florida

CARLOS BARRIA / REUTERS

Na entrevista com a BBC, o vice-ministro do regime de Kim repetiu a necessidade de Pyongyang continuar a testar mísseis e armas nucleares para se “proteger” das ameaças dos norte-americanos. “Se os EUA forem imprudentes o suficiente para usar meios militares isso vai traduzir-se numa guerra total a partir desse mesmo dia.”

Também ontem, numa conferêcia de imprensa na sede da ONU, o representante permanente da Coreia do Norte na organização, Kim In-ryong, condenou o ataque com mísseis Tomahawk lançado pela administração Trump contra uma base militar das forças sírias dois dias depois de um ataque com armas químicas que os EUA e os seus aliados atribuem ao governo de Assad. Os EUA, sublinhou o embaixador, “estão a desestabilizar a paz global e insistem na lógica ao estilo dos gangsters de que a sua invasão de um Estado soberano é decisiva e justa e proporcional e que contribui para defender a ordem internacional.”

A China — cujo Presidente, Xi Jinping, tem estado em permanente contacto com o homólogo norte-americano — tem reiterado os pedidos à Coreia do Norte para que suspenda todos os testes, pedindo a todas as partes que encontrem uma solução pacífica.

A ideia voltou a ser repetida ontem pelo porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lu Kang, um dia depois de o principal conselheiro de segurança nacional de Trump, HR McMaster, ter anunciado que os EUA estão a preparar “uma série de opções” com a China para fazer frente à Coreia do Norte. Foi a primeira vez que houve confirmação pública de que os norte-americanos e os chineses, únicos aliados de Pyongyang, estão a cooperar nesta área.

A partir de Moscovo, o ministro russo dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, advertiu ontem que também não vai tolerar “aventuras de mísseis por Pyongyang”, embora tenha ressaltado que uma ação unilateral dos EUA à semelhança do que aconteceu na Síria aliada da Rússia será um “caminho muito arriscado” a seguir.

Shinzo Abe, o primeiro-ministro japonês, declarou por sua vez numa sessão parlamentar em Tóquio que os esforços diplomáticos para pressionar e convencer a Coreia do Norte a abdicar dos testes militares são “importantes para manter a paz” mas que “dialogar só por dialogar não tem qualquer significado”.